O novo suspense cômico da A24, Como Fazer uma Fortuna (How to Make a Killing), chegou aos cinemas cercado de expectativas. A premissa de herdeiro bastardo disposto a eliminar todos os parentes pelo controle da fortuna familiar lembra, à primeira vista, uma mistura de sátira social com violência estilizada.
O lançamento, porém, já carrega duas marcas contrastantes: 47% de aprovação da imprensa especializada no Rotten Tomatoes e sólidos 75% entre os espectadores. Essa diferença de 28 pontos coloca o longa no centro de um curioso cabo de guerra entre críticos e público — algo que Glen Powell não vivia desde a comédia romântica Anyone But You (2023).
Glen Powell segura a trama com charme macabro
Interpretando Becket Redfellow, o filho ilegítimo renegado pela família, Powell exibe um magnetismo que oscila entre o sorriso sedutor e a frieza calculista. Alguns comentários apontam ecos de Patrick Bateman, e não é exagero: o ator cria em cena um predador urbano preocupado tanto com a etiqueta quanto com os métodos de assassinato.
Quando contracena com nomes como Margaret Qualley e Jessica Henwick — excelentes no papel das primas que representam lados opostos da dinastia Redfellow —, Powell potencializa o humor ácido do roteiro. Ainda assim, em sequências onde o protagonista precisa apenas reagir, fica nítido que o filme depende demais desse carisma para manter a tensão.
Direção de John Patton Ford investe em estilo visual
John Patton Ford, que também assina o roteiro, aposta em enquadramentos milimetricamente simétricos, iluminação neon e planos-sequência que percorrem as mansões claustrofóbicas dos Redfellow. O resultado é um espetáculo plástico que rende quadros elegantes e, por vezes, perturbadores.
O problema surge quando a forma engole o ritmo. Entre um salto temporal e outro, Ford alterna cenas frenéticas de assassinato com longos blocos expositivos. Essa gangorra quebra a cadência do suspense e deixa a narrativa indecisa: é sátira cruel ou fábula moral sobre desigualdade? A ausência de humor consistente — citada por diversos críticos — intensifica essa sensação de desequilíbrio.
Roteiro resgata clássico britânico, mas atualiza pouco o tema
Como Fazer uma Fortuna é inspirado livremente em Kind Hearts and Coronets (1949), por sua vez baseado no romance Israel Rank: The Autobiography of a Criminal (1907). A ideia de um forasteiro escalando a hierarquia familiar com muito sangue não perdeu relevância, mas exige olhar afiado para questões contemporâneas.
Imagem: Ilze Kitshoff
Nesse ponto, o filme parece ficar na superfície do discurso “coma os ricos”. As falas sobre privilégios, filantrocapitalismo e sucessão soam explicativas demais, sem o sarcasmo necessário para fisgar à la Succession. O texto encontra brilho apenas em diálogos que pontuam a morbidez do protagonista, como quando Becket descreve um tio como “ativo de curto prazo”.
Recepção: por que público se diverte mais que a crítica?
Apesar dos tropeços, a plateia abraçou a proposta de “pipoca sangrenta”. O placar de 75% no Rotten Tomatoes entre usuários confirma que o longa funciona enquanto entretenimento descompromissado. Sequências engenhosas — como o jantar onde veneno e fofoca circulam juntos — entregam a catarse que muitos esperam de um thriller leve.
O contraste com a imprensa também passa pela expectativa. Quem procurava humor mais ácido ou comentário social sofisticado saiu frustrado, gerando as avaliações mornas. Ainda assim, a A24 aposta no boca a boca positivo para compensar a estreia tímida, que somou US$ 3,3 milhões em três dias nos EUA, valor modesto diante do orçamento de US$ 40 milhões. O tema financeiro, inclusive, rendeu matéria exclusiva no Salada de Cinema sobre a pressão que recai sobre Glen Powell e o estúdio.
Vale a pena assistir a Como Fazer uma Fortuna?
Se a curiosidade mora na atuação de Glen Powell, a resposta é sim: o ator entrega presença hipnótica e diverte ao flertar com o grotesco. Para quem busca sátira afiada ou dinâmica narrativa impecável, o filme pode soar irregular. Ainda assim, a produção reúne elenco afinado — com Ed Harris, Bill Camp e Topher Grace completando o time —, fotografia caprichada e mortes criativas suficientes para uma sessão barulhenta entre amigos.
Enquanto a bilheteria não decola, Como Fazer uma Fortuna já mostra potencial para ganhar sobrevida no streaming, onde o ritmo truncado pesa menos e a estética chamativa encontra público cativo. Resta saber se o nome de Powell repetirá a façanha de Margot Robbie, que brilhou recentemente em outras adaptações literárias, conforme analisado neste texto sobre O Morro dos Ventos Uivantes. No fim das contas, o thriller da A24 vale a espiada — ainda que apenas para comprovar como charme e sangue continuam receita infalível para dividir opiniões.



