56 Dias (56 Days) chegou ao catálogo da Prime Video cercada de expectativa. A série, protagonizada por Dove Cameron e Avan Jogia, transporta para a tela a história de amor e mentira criada pela escritora irlandesa Catherine Ryan Howard.
Mesmo mantendo a estrutura não linear e o clima de suspense, a adaptação tomou liberdades ousadas. A seguir, o Salada de Cinema resume quais escolhas afastam a produção televisiva do material de origem.
Por que 56 Dias se distancia do romance original?
Ao longo dos episódios, o roteiro de Lisa Zwerling e Karyn Usher precisa conciliar duas linhas temporais: o desenvolvimento acelerado do relacionamento entre Ciara e Oliver e a investigação de um cadáver em decomposição encontrado num banheiro de apartamento de luxo. Para intensificar o mistério e tornar o enredo mais palatável ao público global, as roteiristas optam por mudanças de cenário, motivação e até pela criação de personagens inéditos.
Boa parte dessas alterações impacta diretamente a forma como o público percebe Oliver e Ciara. No livro, ambos se equilibram em tons de cinza moral. Já a série tende a suavizar Oliver, transferindo parte da maldade para terceiros. Essa suavização, porém, não impede reviravoltas trágicas – marca registrada da autora.
As 8 maiores alterações da série
- Cenário trocado de Dublin para Boston
No romance, a capital irlandesa oferece identidade cultural, pubs apertados e clima úmido como pano de fundo para o casal. A versão televisiva leva a história para Boston, cidade norte-americana que, apesar de histórica, se torna um palco mais genérico, priorizando a neutralidade visual e facilitando a identificação internacional.
- Convivência forçada sem pandemia
Publicada em 2021, a obra original faz da iminência do lockdown de Covid-19 o gatilho para Ciara mudar-se para o apartamento de Oliver. Na série, o vírus ficou no passado; para justificar a pressa, os roteiristas atribuem à protagonista artimanhas emocionais que convencem o namorado milionário a recebê-la sob o mesmo teto.
- Oliver rico na TV, classe média no livro
Nos capítulos de Catherine Ryan Howard, Oliver é apenas financeiramente estável. A Prime Video transforma o personagem em herdeiro abastado, dono de cobertura luxuosa e recursos ilimitados. Essa riqueza desloca o equilíbrio de poder e adiciona interesse material aos conflitos de Ciara.
- Motivação de Ciara: dinheiro x verdade
No papel, a jovem deseja descobrir a responsabilidade de Oliver na morte de um amigo de infância antes que a mãe terminal faleça. Já na telinha, a busca por vingança se mistura ao desejo de compensação financeira pelos danos causados à família, aproximando a trama de um golpe calculado.
- Oliver menos cruel na adaptação
O Oliver literário planeja e executa o assassinato de Paul quando adolescente, além de incriminar o amigo Shane, que acaba condenado a 20 anos de prisão. Na TV, o passado obscuro existe, porém o personagem demonstra arrependimento genuíno, enquanto parte da manipulação recai sobre um terapeuta abusivo, suavizando sua responsabilidade direta.
- Identidade do cadáver e causa da morte
No livro, o corpo deteriorado encontrado no banheiro pertence ao próprio Oliver. Drogado por comprimidos para dormir, ele escorrega, bate a cabeça e morre, enquanto Ciara assiste inerte. Na série, quem está na banheira é Dan Troxler – figura ausente do texto original – permitindo que o casal principal fuja junto para uma nova vida.
Imagem: Philippe Bossé/Prime
- Dan Troxler: personagem criado do zero
Terapeuta manipulador, Troxler usa a vulnerabilidade de Oliver para explorá-lo financeiramente e isolá-lo. Inexistente nas páginas de Howard, ele serve como vilão externo e justifica muitos dos atos de autopreservação de Oliver – algo inexistente na obra literária.
- Subtrama policial inventada: Lee Reardon & Linus Finch
A série introduz o romance tóxico entre a detetive Lee e o traficante Linus, arco periférico que ecoa o relacionamento caótico de Ciara e Oliver. Nenhum dos dois dá as caras no livro, mas na TV sua ruptura ajuda a explicar como o casal protagonista consegue desaparecer sem deixar rastros.
Impacto dessas mudanças na construção dos personagens
Ao transformar Oliver em um milionário vulnerável à influência de terceiros, a adaptação desloca a tensão moral do protagonista para coadjuvantes criados especificamente para a tela. Essa decisão torna Ciara menos empática, pois seu objetivo ganha contornos de interesse financeiro, ainda que o texto mantenha traços de sofrimento familiar.
Já a dinâmica de poder muda radicalmente. No romance, a igualdade econômica deixa o jogo de manipulação mais psicológico. Na série, o abismo social amplia suspeitas sobre intenções de Ciara, gerando discussões sobre privilégio e confiança. Esse contraste lembra outras produções de suspense disponíveis em streaming, como algumas presentes na lista de séries originais da Netflix que valem maratona.
Como diretoras e roteiristas justificam as escolhas
A condução dos oito episódios ficou a cargo de Alethea Jones, que investe em planos fechados e iluminação escura para realçar o clima de confinamento emocional. O texto de Lisa Zwerling e Karyn Usher, por sua vez, prioriza ritmo ágil e cliffhangers que funcionam bem no formato semanal da Prime Video, ainda que se afaste do tom contemplativo do livro.
Sem entrevistas específicas sobre cada modificação, é possível notar um padrão: a equipe busca universalizar o drama, retirando referências muito locais – caso de Dublin – e atualizando o pano de fundo pandêmico para não datar o produto. Além disso, a inclusão de antagonistas externos, como Troxler, dilui a culpabilidade de Oliver, tornando-o mais identificável para o grande público.
Vale a pena assistir 56 Dias?
Para quem aprecia thrillers sobre identidades ocultas e relações codependentes, 56 Dias oferece reviravoltas constantes e bons desempenhos de Dove Cameron, que investe em vulnerabilidade contida, e Avan Jogia, equilibrando charme e paranoia. Quem leu o livro deve encarar a série como obra independente; as principais reviravoltas foram alteradas, mas a essência trágica permanece intacta.



