O desfecho de Como Fazer uma Fortuna (How to Make a Killing) não entrega a catarse que muito thriller costuma prometer. Em vez de saídas fáceis, o diretor e roteirista John Patton Ford opta por uma ironia amarga que, segundo o próprio cineasta, põe o protagonista exatamente onde ele queria — só que tarde demais.
Nesta análise, destrinchamos passo a passo o que acontece com Becket Redfellow, interpretado por um carismático Glen Powell, e mostramos como o roteiro descartou um epílogo ainda mais brutal. Falamos também da entrega de Jessica Henwick e Margaret Qualley, peças-chave para que o final mantenha a tensão até depois dos créditos.
O caminho de sangue até a prisão
Becket passa boa parte do filme eliminando cada parente que o separa de uma gorda herança. A escalada de mortes, no entanto, não acontece sob o olhar de um psicopata clássico. Ford escala Powell justamente por ele ter “cara de bom moço”, o que cria um atrito interessante entre aparência e moralidade. O ator segura bem essa contradição, levando o público a torcer por ele mesmo quando o volume de cadáveres aumenta.
Quando o herdeiro enfim é preso por um assassinato que não cometeu, a história vira de cabeça para baixo. A responsável pela armação é Julia Steinway, vivida por Margaret Qualley, amiga de infância de Becket e cúmplice silenciosa nos bastidores. A virada conduz o espectador a questionar todas as decisões do personagem — e também a ingenuidade de quem acreditava que ele sairia ileso.
Henwick explica a ruptura de Ruth
Ruth, companheira de Becket, surge como último respiro de humanidade no roteiro. Jessica Henwick destaca, em entrevista, que seria “deprimente” vê-la permanecendo ao lado dele depois de tantas tragédias. A atriz ressalta que, ao abandonar o namorado, Ruth remove qualquer possibilidade de alegria futura do protagonista.
Henwick enxerga Becket como um homem totalmente esvaziado ao fim: vivo, porém destituído de opção. Julgada pelo público moderno, a decisão da personagem soa coerente — e a performance contida de Henwick fortalece esse adeus silencioso, evitando melodrama excessivo.
A ironia calculada por John Patton Ford
O próprio Ford define o final como “tragédia irônica”. Becket alcança a herança e a liberdade, mas agora entende que talvez quisesse outro tipo de vida. O efeito é devastador: tudo o que ele matou para conseguir perde o sabor no instante em que se concretiza.
Imagem: Divulgação
Numa cena simbólica, Becket retorna à mansão Redfellow com lágrimas nos olhos. Ford comenta que o choro demonstra arrependimento futuro — algo que o personagem jamais admitiria em voz alta. A sutileza se apoia no trabalho de Powell, que precisa transmitir culpa sem abandonar o verniz de autoconfiança que marcou as cenas anteriores.
O final alternativo que assustou o estúdio
Antes do corte definitivo, Ford havia escrito uma conclusão ainda mais severa. Nela, Ruth daria à luz enquanto Becket estivesse preso. Ao sair, ele veria mãe e filho diante da mansão, ao lado de Julia. Nesse instante, trocaria a família pela cúmplice bilionária, reafirmando sua verdadeira natureza.
O estúdio vetou a ideia, temendo punir demais o público que se identifica com Powell — descrito pelo diretor como “um golden retriever de ser humano”. Para Henwick, contudo, o epílogo rejeitado continuaria fiel ao arco do protagonista. Ainda assim, a versão filmada preserva certo equilíbrio: Becket perde Ruth, mas também não desfruta plenamente do prêmio, deixando a plateia num território desconfortável.
Vale a pena assistir?
Se você busca um suspense que subverte expectativas sem recorrer a soluções fantasiosas, Como Fazer uma Fortuna pode valer o ingresso. O longa entrega atuações inspiradas — destaque para Powell e Henwick — e um final que convida à discussão. A recepção dividida no Rotten Tomatoes (76% do público contra 47% da crítica) reforça o caráter polarizador da obra.
No Salada de Cinema, já destacamos que o filme confia no carisma de seu protagonista, mas tropeça em ritmo em certos trechos. Ainda assim, o clímax figura entre os mais comentados do ano, ao lado de sucessos como EPiC: Elvis Presley in Concert. Dentro do catálogo da A24, a produção se destaca justamente por não oferecer saída fácil para seu anti-herói, apostando em ambiguidade moral do primeiro ao último minuto.



