Sundance 2026 mal havia repousado seus refletores quando The Moment deixou o festival com um debate acalorado a tiracolo. O falso documentário, capitaneado pela popstar Charli XCX, garantiu barulho imediato, mas não converteu todo esse burburinho em aclamação unânime. No Rotten Tomatoes, o longa surge com 60% de aprovação — nota que, embora carimbe o selo “Fresh”, já indica terreno escorregadio.
Distribuído pela A24 e dirigido por Aidan Zamiri em seu primeiro voo em longa-metragem, o filme põe a própria Charli no centro da narrativa, interpretando uma versão ficcional de si enquanto prepara a primeira turnê como atração principal. A proposta parece simples, mas a execução dividiu especialistas que esperavam algo no tom satírico de Marty Supreme, fenômeno recente da mesma produtora.
Atuações que vão do frenesi à autoconsciência
Charli XCX navega entre persona pública e intimidade simulada, uma linha tênue que exige timing cômico e vulnerabilidade em doses exatas. Quando acerta, ela entrega sequências que lembram a espontaneidade de reality shows, porém com controle dramático que evita o caricato. Ainda assim, parte da crítica percebeu insegurança em cenas que pediam maior profundidade emocional. Owen Gleiberman, da Variety, reclamou que a cantora “não forçou o limite da própria imagem” — comentário que traduz bem a sensação de “quase” que permeia o projeto.
Entre os coadjuvantes, o destaque fica para Jamie Demetriou, que interpreta um empresário obcecado por métricas de engajamento. Com humor físico e diálogos atravessados por silêncios constrangedores, o ator é responsável por algumas das raras risadas unânimes nas sessões de imprensa. Já Alexander Skarsgård surge em participação relâmpago como coreógrafo-guru, oferecendo aquela pitada de excentricidade que fãs do sueco aprenderam a apreciar desde papéis mais ousados.
Roteiro aposta na sátira, mas falha no alvo segundo parte da crítica
Aidan Zamiri assina o texto em parceria com Bertie Brandes e a própria Charli. A ideia era zombar do excesso de documentários musicais polidos, substituindo o glamour esperado por neuroses, insegurança e gafes calculadas. Porém, Gregory Nussen, do ScreenRant, classificou o resultado como “desastre sem mitigação”, alegando que o filme oscila entre debochar da cultura pop e humanizar a artista, sem abraçar totalmente nenhuma das frentes.
Em contrapartida, Glenn Garner, do Deadline, enxergou frescor ao comparar The Moment a “um sucessor espiritual de Spice World”, agora tingido de thriller psicológico. Para ele, o roteiro não teme mergulhar em paranoias típicas de quem vive sob holofotes — algo que o público de Charli tende a reconhecer.
Estreia de um diretor que já entende estética, mas ainda busca ritmo
Zamiri vem do universo dos videoclipes, habilidade que se revela em transições estilizadas, blocos de cores vibrantes e montagem frenética. O problema apontado por críticos como Richard Lawson, do Hollywood Reporter, está no pulso narrativo: a estrutura episódica funciona bem em clipes de três minutos, mas cansa ao longo dos 103 minutos de projeção.
Para fãs de filmes inventivos, porém, esse excesso visual pode ser um atrativo. Não à toa, o estúdio se tornou sinônimo de risco calculado, equilibrando sucessos de bilheteria e experimentos como Laggies, que recentemente voltou aos holofotes em streaming. Em The Moment, Zamiri demonstra olhar apurado para a cultura digital, ainda que precise lapidar a cadência cômica em longas narrativas.

Imagem: Aurore Marechal
Recepção fria, mas público pode aquecer o termômetro
Com apenas dez críticas contabilizadas, o 60% no Rotten Tomatoes ainda pode oscilar. Vale lembrar que muitos títulos da A24, como o premiado Everything Everywhere All at Once, começaram dividindo opiniões antes de encontrarem plateia entusiasmada. O fato de The Moment ter estreia limitada em 30 de janeiro oferece janela prolongada para o boca a boca — especialmente entre fãs que consomem ávidamente cada batida da cantora.
Outro ponto de expectativa recai sobre o uso das redes sociais. Charli XCX soma milhões de seguidores e sabe capitalizar polêmicas. Se converter essa base em espectadores curiosos, o filme pode reagir melhor que a nota inicial sugere. A campanha digital, dizem produtores, mira em memes, bastidores e interações ao vivo, repetindo a estratégia que empurrou álbuns da artista ao topo das paradas.
Vale a pena assistir a The Moment?
Se o espectador busca sátira ácida ao estilo de What We Do in the Shadows, talvez saia frustrado com a ambiguidade do tom. Por outro lado, quem acompanha a trajetória de Charli XCX e se interessa por bastidores da indústria pop encontrará cenas de genuíno desconforto — no bom sentido. O elenco de apoio, com Rosanna Arquette e Kate Berlant, adiciona camadas de humor que suavizam a autocrítica da protagonista.
Há falhas, sobretudo na repetição de gags e na narrativa que às vezes patina, mas o longa entrega curiosa mistura de metalinguagem e estudo de personagem. Para o Salada de Cinema, a experiência vale pelo risco criativo, ainda que não atinja a precisão cômica de outros mockumentários.
No fim das contas, The Moment é mais conversa que consenso. Fica para o público decidir se o experimento brilha como hit ou ecoa como nota dissonante no catálogo ousado da A24.




