Quando a Apple TV+ confirmou uma continuação para Hijack, muitos se perguntaram que rota a série de sequestro ainda poderia seguir. Dois anos após o incidente no voo Dubai–Londres, Sam Nelson reaparece em um metrô de Berlim e, desta vez, ocupa o outro lado da mira: ele é quem toma o controle do trem. O resultado entrega bons sustos, mas repete fórmulas a ponto de tornar o programa menos vibrante do que aparenta à primeira vista.
Com oito episódios — um a mais que no ciclo inaugural —, Hijack temporada 2 mantém o apelo visual impecável e a tensão pontual, porém perde combustível no desenrolar semanal. Entre reviravoltas eficientes e personagens que parecem peças de xadrez, o thriller só mostra pleno potencial quando visto de uma só vez, algo que o público do Salada de Cinema certamente perceberá.
Idris Elba sustenta o carisma, mas Sam segue limitado
Idris Elba continua entregando presença magnética em tela, dominando cada enquadramento com naturalidade. Seu Sam Nelson, contudo, ainda sofre da mesma rigidez emocional notada no primeiro ano. As motivações básicas — proteger inocentes, sair vivo — bastam para mover a trama, mas não aprofundam o protagonista nem despertam empatia além do mínimo.
Essa lacuna não mancha o trabalho do ator; pelo contrário, destaca o esforço de Elba em extrair camadas de um texto que oferece poucas frestas de vulnerabilidade. Quando precisa negociar com agentes alemães ou manipular os próprios reféns, ele convence pelo olhar calculado e pela cadência da fala. Mesmo assim, fica claro que, sem um astro desse calibre, Hijack perderia boa parte do apelo comercial.
Direção polida amplia a tensão, mas carece de alma
George Kay e Jim Field Smith, novamente no comando criativo, apostam em enquadramentos elegantes, iluminação fria e cenografia milimetricamente limpa. O resultado evidencia a competência técnica da produção — cada vagão do U-Bahn berlinense parece recém-saído do showroom. Porém, essa obsessão por precisão estética afasta o espectador da gravidade da situação, transformando o sequestro em exercício de estilo.
Mo Ali, responsável por capítulos-chave, dosa bem a alternância entre close-ups claustrofóbicos e panorâmicas dos túneis, mas evita sujeira ou caos visual. Quem espera a sensação de perigo palpável pode estranhar a atmosfera asséptica, quase corporativa. A intenção é sofisticar o suspense; na prática, a frieza estética reforça comentários de que a série “é bonita demais para ser suja”, percepção recorrente desde a estreia.
Roteiro recorre a truques de gênero e ritmo de thriller
Assinado por seis roteiristas — entre eles Adam Gyngell, Catherine Moulton e Anna-Maria Ssemuyaba —, o texto segue a cartilha do suspense sobre reféns: relógio correndo, forças de segurança debatendo táticas, subtramas paralelas ligadas ao plano principal. O diferencial desta temporada é inverter o papel de Sam, agora na posição de sequestrador, ainda que as motivações dele só sejam reveladas aos poucos.
Imagem: Divulgação
O primeiro episódio, disparado o mais empolgante, despeja informações em ritmo frenético e encerra com gancho imprevisível. A partir daí, a narrativa estica conflitos, sugere conspirações envolvendo inteligência alemã e entrega cliffhangers prontos para manter o interesse. Entretanto, grande parte do suspense nasce da omissão deliberada de dados, sensação que algumas falas até escancaram: personagens comentam o “jogo de pôquer” sem mostrar as cartas.
Outro detalhe é o uso constante de diálogos em alemão, algo louvável pela autenticidade, mas que, aliado a passagens estáticas na sala de controle, quebra o ritmo para quem espera tensão contínua. Com menos elipses e explicações tardias, talvez o público embarcasse emocionalmente em vez de apenas decifrar enigmas.
Formato semanal enfraquece o envolvimento emocional
Em 2024, muitos streamings encurtam temporadas; Hijack nadou contra a corrente, aumentando a minutagem. O problema é que o roteiro renderia seis capítulos sem perder substância. Espalhar a história em oito partes gera episódios intermediários em que pouco avança, comprometendo a ansiedade entre uma terça e outra.
Quando vistos em sequência, esses trechos soam como respiros estratégicos antes da próxima virada, fazendo a série ganhar ritmo orgânico. Assistir semanalmente, por sua vez, evidencia a falta de profundidade dos coadjuvantes e o caráter “processual” das negociações. Não à toa, críticos classificaram o enredo como “emocionalmente oco” para compromisso semanal, comparação direta com dramas que oferecem vínculos mais densos a cada capítulo.
Vale a pena assistir a Hijack temporada 2?
Hijack temporada 2 entrega suspense competente, produção refinada e a força de Idris Elba à frente do elenco, porém repete fórmulas e raramente surpreende além do esperado. Para quem curte histórias de sequestro bem produzidas, a maratona final em março promete diversão sólida, mesmo sem grande impacto emocional. A experiência semanal, contudo, tende a expor as limitações de um thriller que prefere a segurança dos truques conhecidos a apostas verdadeiramente ousadas.



