A frase de abertura do documentário diz tudo: “um animal selvagem, bebendo, festejando e brigando”. É assim que Jamie Vardy descreve a si mesmo aos 19 anos, quando usava tornozeleira eletrônica, saía dos jogos antes do apito final para cumprir o toque de recolher das 18h, trabalhava 12 horas por dia numa fábrica de talas médicas de fibra de carbono em Sheffield — e marcava gols aos finais de semana por 30 libras a semana. Untold Reino Unido: Jamie Vardy é a história mais improvável do futebol inglês moderno. E é também um documento sobre por que essa história nunca mais vai se repetir.
⭐ Nota: 8.5/10
Ficha técnica
- Título: Untold Reino Unido: Jamie Vardy
- Onde assistir: Netflix
- Direção: Jesse Vile (The Diamond Heist, The Ripper, This is Football)
- Produção: Orchard Studios e Revue Studios
- Duração: aprox. 90 minutos
- Classificação: A14
- Parte da série: Untold UK — três documentários sobre futebol inglês
Quem é Jamie Vardy — para quem não acompanhou a história

Em 2012, Jamie Vardy tinha 25 anos, jogava futebol semiprofissional para o Fleetwood Town, e ninguém fora do norte da Inglaterra havia ouvido falar dele. Em 2016, ele era o artilheiro de uma equipe que conquistou o título da Premier League com odds de 5.000 para 1 — a façanha esportiva mais improvável da história recente do esporte profissional. No caminho entre esses dois momentos: o Sheffield Wednesday o dispensou aos 16 anos por ser “pequeno demais”, ele jogou numa liga amadora pelo Stocksbridge Park Steels ganhando 30 libras por semana, usou tornozeleira eletrônica por seis meses após uma condenação por agressão, trabalhou em turnos de 12 horas numa fábrica fazendo talas médicas de fibra de carbono, e foi comprado pelo Leicester City por 1 milhão de libras — tornando-se o primeiro jogador não-profissional da era moderna a ser transferido por esse valor.
Em 500 partidas pelo Leicester, Vardy marcou 200 gols. Encerrou a carreira em abril de 2025. O documentário chega um ano depois.
O que o documentário faz bem — e por que funciona
A franquia Untold tem uma gramática específica, refinada ao longo de múltiplas temporadas americanas: sem narrador em voz de Deus, sem trilha orquestral manipuladora, talking heads cortados diretamente contra arquivo — deixando os próprios envolvidos falarem na linguagem deles, com a edição carregando o argumento que qualquer narrador superestimaria. Com Vardy, essa abordagem funciona especialmente bem porque o personagem tem voz própria fortíssima. O sotaque de Sheffield, o humor ácido, a honestidade às vezes brutal sobre seus próprios erros — tudo isso se perderia numa narração convencional.
A decisão editorial mais inteligente do diretor Jesse Vile foi priorizar “Os Inbetweeners” — o grupo de amigos masculinos de Sheffield que acompanhou Vardy desde os anos de semiprofissional — como fio condutor emocional, em vez de entregar a narrativa aos gestores como Nigel Pearson e Claudio Ranieri. Pearson e Ranieri aparecem, falam bem e contribuem. Mas a história de Vardy não é a história de como os técnicos certos o moldaram. É a história de como um grupo de amigos o manteve de pé quando tudo tentava derrubá-lo.
A tornozeleira eletrônica é o momento mais revelador do documentário — não pelo fato em si, mas pela forma como é contado. Vardy não minimiza. Descreve uma noite de bebedeira que terminou em agressão, a condenação, o constrangimento. E então conta que precisava sair dos jogos antes dos últimos minutos para chegar ao ponto de ônibus a tempo de cumprir o toque de recolher. Imagem mais cinematográfica que isso é difícil de imaginar — e ela é real.
A camada mais interessante: o documentário como obituário
A questão que o documentário não responde — e não finge responder — é a mais importante: o futebol inglês de 2026 ainda consegue produzir um Jamie Vardy?
O sistema de academias que domina o futebol profissional britânico hoje exige que talentos sejam identificados cada vez mais cedo — 8, 9, 10 anos. Meninos que não entram num academy antes dos 14 praticamente desaparecem do radar. A pirâmide de ligas amadoras e semiprofissionais que existia quando Vardy jogava continua existindo, mas a conexão entre ela e o futebol profissional foi cortada. A rota que levou Vardy do Stocksbridge Park Steels ao Leicester foi bloqueada — não por acidente, mas por design.
O próprio Vardy diz no documentário: “Não é o jeito comum de fazer as coisas. Acho que provavelmente não vai acontecer de novo, mas aconteceu comigo e foi muito trabalho. Foi difícil mesmo, mas valeu.” É uma frase que parece humildade mas é, na verdade, uma sentença. O documentário deixa isso implícito e devolve ao espectador a responsabilidade de notar.
O que poderia ter sido melhor
O documentário tem um problema que a franquia Untold carrega em quase todos os seus episódios: a última meia hora perde o fôlego. Depois do título do Leicester — o pico narrativo inevitável — o arco de encerramento da carreira de Vardy é tratado com menos profundidade do que merecia. Cinco temporadas depois do título, mais de 100 gols adicionais, uma Copa da FA — tudo isso passa rapidamente, como se o documentário tivesse chegado à conclusão que queria contar e agora só precisasse encerrar.
Há também uma ausência notável: a polêmica envolvendo Rebekah Vardy no caso “Wagatha Christie” — em que ela foi acusada de vazar informações da conta privada de Coleen Rooney para a imprensa — é mencionada de forma muito tangencial, considerando que foi um dos escândalos mais cobertos pela imprensa britânica dos últimos anos. O documentário não precisava ser um tribunal, mas poderia ter dado mais espaço à complexidade pública que a família Vardy acumulou além do campo.
Vale a pena assistir — e para quem, Assista ao Trailer
Para fãs de futebol, especialmente os que acompanham a Premier League, é assistência obrigatória. A temporada 2015-16 do Leicester foi um dos momentos mais extraordinários da história do esporte profissional, e revisitá-la com a perspectiva dos bastidores adiciona camadas que nenhuma cobertura jornalística da época conseguiu capturar.
Para quem não acompanha futebol, o documentário ainda funciona como história de resiliência — e como lente crítica sobre como sistemas fechados excluem talentos que não seguem o caminho convencional. A história de Vardy é, no fundo, a história de alguém que o sistema rejeitou e que forçou o sistema a aceitar que estava errado. Isso transcende o esporte.
Untold Reino Unido: Jamie Vardy faz parte de um pacote de três documentários da franquia Untold UK, que inclui também Liverpool’s Miracle of Istanbul — sobre a virada histórica na final da Champions League de 2005 — e Vinnie Jones — sobre o jogador polêmico que virou ator de Hollywood. Os três estreiam semanalmente na Netflix a partir de 12 de maio de 2026.
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