Jason Momoa sonhava, há cerca de duas décadas, em filmar uma comédia de ação na terra natal. O projeto finalmente ganhou forma quando Dave Bautista topou embarcar na ideia, ainda nos bastidores da série See. O resultado é The Wrecking Crew, aposta da Prime Video que homenageia o espírito de Máquina Mortífera, mas troca o asfalto de Los Angeles pelas paisagens ensolaradas do Havaí.
No longa, dois meio-irmãos — um policial interpretado por Momoa e um ex-SEAL vivido por Bautista — precisam resolver o mistério que envolve a morte do pai. A premissa é simples, mas serve de trampolim para piadas, confrontos físicos e o velho embate “certinho versus impulsivo” que marcou o subgênero buddy cop.
Conceito e inspirações por trás de The Wrecking Crew
Momoa revelou que sempre quis unir o clima havaiano à dinâmica de duplas desajustadas vista em Lethal Weapon e Tango & Cash. Quando Bautista divulgou a ideia nas redes sociais, roteiristas correram para apresentar tratamentos. Jonathan Tropper, já acostumado a escrever para o duo em See, venceu a disputa e assumiu o script.
O autor manteve intacta a semente plantada pelo ator: dois irmãos afastados, marcados pela figura paterna, tentando se entender em meio a tiroteios e piadas. Essa combinação, temperada com humor autorreferencial, ecoa a safra de filmes de ação dos anos 80 e início dos 90. A própria escolha de ambientar tudo no arquipélago reforça a sensação de férias turbulentas, em contraste com o clima urbano dos clássicos que serviram de influência.
Elenco: química e ritmo cômico em destaque
A força motriz de The Wrecking Crew é, sem surpresa, a dupla central. Jason Momoa aposta numa persona expansiva, que mistura carisma descontraído e explosões físicas; Bautista encarna o soldado rigoroso que tenta controlar o parceiro — ou apenas sobreviver ao caos criado por ele. A troca de olhares e a sincronia de timing cômico sustentam as sequências de discussão, funcionando como respiro entre as explosões.
O restante do elenco reforça o mosaico de personalidades. Temuera Morrison, Claes Bang, Jacob Batalon, Frankie Adams, Morena Baccarin e Stephen Root surgem em participações eficientes, cada qual acrescentando nuances ou alívio cômico. A presença de Maia Kealoha e Miyavi ajuda a legitimar o cenário havaiano ao trazer rostos menos vistos em produções de grande estúdio.
Vale notar que, assim como no recente remake de Kiss of the Spider Woman — que após rápida passagem pelo cinema chegou ao streaming com elenco estelar — aqui o carisma coletivo pesa tanto quanto a trama. A câmera de Ángel Manuel Soto, ao privilegiar closes e planos abertos em cenários naturais, extrai o melhor dos intérpretes sem sacrificar o ritmo frenético.
Direção de Ángel Manuel Soto e a contribuição do roteiro de Tropper
Ángel Manuel Soto, que voltou aos holofotes após Blue Beetle, aposta em cenas de ação claras e bem coreografadas, deixando de lado a edição frenética de muitos blockbusters recentes. O diretor brinca com o contraste entre a exuberância havaiana e os tiroteios: surfistas dividem espaço com perseguições de jet ski; templos de lava servem de arena para lutas corpo a corpo. A fotografia quente reforça o espírito “feriado perigoso” que o roteiro propõe.
Jonathan Tropper entrega diálogos afiados, recheados de provocações fraternas, mas evita a tentação de transformar cada fala em piada óbvia. Há espaço para breves respiros dramáticos, sobretudo nas cenas que tratam do legado do pai e das escolhas divergentes dos irmãos. Essa alternância entre humor e emoção garante uma estrutura narrativa que não se apoia apenas em explosões.
Imagem: Divulgação
Além disso, o roteiro equilibra referências diretas a Máquina Mortífera sem cair no pastiche. Em vez de recriar cenas clássicas, The Wrecking Crew opta por apontar a câmera para a plateia e piscar o olho, sugerindo que todos sabem de onde veio a inspiração. O mesmo artifício foi usado por Guy Ritchie em projetos como In the Grey, que brinca com convenções do gênero de espionagem.
Recepção inicial e impacto na carreira dos envolvidos
Lançado no Prime Video em 28 de janeiro de 2026, The Wrecking Crew estreou com 82 % de aprovação no Rotten Tomatoes. A crítica aponta justamente a sinergia entre Momoa e Bautista como o principal trunfo, destacando o equilíbrio entre humor físico e química dramática.
Para Momoa, o filme marca uma guinada do tom sombrio de títulos como Aquaman ou Duna para uma vertente mais descontraída. Bautista, por sua vez, reforça o repertório cômico já testado em Guardiões da Galáxia, mas com um toque de seriedade militar. A dupla pode, inclusive, abrir espaço para uma nova franquia, caso a recepção da audiência acompanhe o retorno crítico.
A boa performance do longa também é vista como vitória para Tropper e Soto. O roteirista mostra versatilidade ao migrar de séries de fantasia pós-apocalíptica para uma comédia policial. O diretor confirma que sabe lidar com grandes elencos e manter ação fluida, elemento que pode pesar em futuros convites de estúdios.
A título de curiosidade, parte da imprensa especula que The Wrecking Crew preenche o vazio deixado pela indefinição de Máquina Mortífera 5. Enquanto o futuro de Riggs e Murtaugh segue incerto, o público encontra here um substituto espiritual, agora embalado por pranchas de surfe, camisas floridas e muita pancadaria coreografada.
Vale a pena assistir The Wrecking Crew?
A combinação de 82 % no Rotten Tomatoes, elenco carismático e direção segura indica que o filme cumpre o que promete: entretenimento despretensioso com sabor nostálgico. Quem procura humor, ação bem coreografada e o charme havaiano encontra um pacote consistente, chancelado por nomes que demonstram química em tela. Para Salada de Cinema, o lançamento reforça a tendência de revisitar fórmulas clássicas sob nova embalagem, sem sacrificar o frescor que atrai o espectador contemporâneo.



