Depois de uma temporada tímida nas salas, o novo Kiss of the Spider Woman finalmente encontra seu grande público no streaming. O drama político-musical, lançado nos cinemas em 10 de outubro e baseado no romance de Manuel Puig, desembarca no catálogo do Hulu em 27 de fevereiro.
Com Jennifer Lopez, Diego Luna e Tonatiuh no centro da narrativa, o longa tinha boa repercussão nos festivais, mas encerrou a carreira teatral com apenas US$ 1,7 milhão, distante do orçamento de US$ 30 milhões. Agora, a expectativa é que a plataforma amplie o alcance da produção.
Elenco e performances: o que chamou atenção dos críticos
Jennifer Lopez assume o papel da estrela fictícia Ingrid Luna, musa que povoa a imaginação de Luis Molina enquanto ele cumpre pena por “indecência pública”. Nas poucas cenas em que aparece, a cantora e atriz explora sua veia de diva de cabaré, entregando números musicais elaborados e, segundo avaliadores do Sundance, “roubando todos os holofotes”.
Já Tonatiuh, conhecido principalmente por trabalhos na televisão, interpreta Luis com doses iguais de vulnerabilidade e ironia. Críticos apontam que o ator sustenta a espinha dorsal emocional da história, alternando humor e melancolia sem escorregar para o caricato. O contraponto vem de Diego Luna, que vive o preso político Valentin Arregui. Em clima parecido ao de seu Cassian Andor na franquia Star Wars, Luna encarna a luta contra o autoritarismo com olhar firme e uma fisicalidade contida, reforçando o subtexto revolucionário que move o roteiro.
Direção de Bill Condon: entre fantasia e brutalidade
Responsável por sucessos como “Dreamgirls”, o cineasta Bill Condon dirige e assina o roteiro ao lado de Terrence McNally, autor da versão teatral, equilibrando dois registros: a violência do regime fascista que aprisiona os protagonistas e o escapismo glamouroso dos números musicais. Parte da imprensa elogiou a “extravagância íntima” da montagem, enquanto outras vozes notaram certa irregularidade nessa transição de tons.
Condon opta por cortes rápidos sempre que o enredo mergulha na fantasia, ressaltando a paleta de cores vibrantes, figurinos reluzentes e coreografias em plano aberto. Nos momentos de prisão, a câmera se aproxima dos rostos suados, das grades enferrujadas e do silêncio opressor dos corredores. Essa alternância constante deixa a narrativa pulsante, mas há quem diga que o resultado, embora visualmente rico, por vezes dilui a força do comentário político.
Roteiro e subtexto político seguem atuais
Adaptar hoje a trama escrita em 1976 revela novos ecos. O texto de Manuel Puig já discutia, quatro décadas atrás, como o poder de contar histórias pode ser ato de resistência. Na versão de 2025, tal ideia ganha frescor ao se fundir com a cultura pop e com discussões contemporâneas sobre liberdade de gênero e autoritarismo.
Lopez participa como produtora executiva e, segundo entrevistas, insistiu para manter a espinha dorsal política. Ainda assim, a campanha de marketing privilegiou a faceta musical, estratégia que pode ter afastado parte do público interessado em thrillers mais diretos. Agora, no streaming, a produção tem a chance de ser descoberta por quem já busca títulos provocativos, a exemplo de “Team America: World Police”, que recentemente chegou ao Paramount+ e reacendeu o debate sobre sátiras políticas — título que rendeu comparações interessantes.
Imagem: Divulgação
Bilheteria, recepção crítica e futuro no streaming
Nos cinemas, Kiss of the Spider Woman faturou apenas US$ 1,6 milhão no mercado doméstico e mais US$ 100 mil fora dos Estados Unidos. Apesar do desempenho modesto, o longa ostenta 77% de aprovação no Rotten Tomatoes e selo “Certified Fresh”. Já o público deu 67% na Popcornmeter, indicando divisão, mas ainda dentro da zona positiva.
O Salada de Cinema acompanhou a passagem do filme pelos festivais e notou que boa parte dos elogios se concentrou no trio principal. A expectativa agora é que a integração gradual do Hulu ao Disney+ impulsione a obra, sobretudo entre fãs de Diego Luna que acompanham “Andor”.
Vale a pena assistir a Kiss of the Spider Woman?
Para quem se interessa por adaptações literárias com pitadas de musical e comentários sociais, o remake se mostra uma experiência singular: denso nas discussões políticas, mas embalado por cenas de puro glamour. O encontro entre a performance contida de Luna, o carisma teatral de Lopez e a vulnerabilidade de Tonatiuh cria uma química rara.
O resultado pode não ter conquistado as bilheterias, porém a atmosfera entre suspense e fantasia encontra melhor ressonância na tela doméstica, onde o espectador pode apreciar detalhes das coreografias e nuances de diálogo com mais calma. Disponível a partir de 27 de fevereiro no Hulu, a obra ganha fôlego para alcançar um público que, talvez, tenha passado batido nos cinemas.
Em meio ao calendário lotado de estreias — que inclui novidades como a próxima investida de Guy Ritchie e Henry Cavill —, o longa de Bill Condon serve como lembrança de que produções de médio orçamento ainda encontram espaço quando contam com um elenco inspiradíssimo e uma boa história sobre a força da arte.









