Dragon Ball DAIMA estreou em 2024 levando a franquia a um patamar que não se via desde a fase clássica. Em apenas 20 episódios, a animação alcançou raro consenso entre público e crítica, ostentando 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e colocando em xeque o reinado de Dragon Ball Super.
O segredo está na combinação de roteiro assinado por Akira Toriyama, direção inspirada e um elenco de voz que honra cada piada e soco. A seguir, o Salada de Cinema destrincha como esses elementos se alinham para entregar uma aventura digna do criador, sem repetir vícios de escala de poder que marcaram os anos recentes da série.
Elenco de voz devolve carisma a Goku e companhia
Masako Nozawa volta a interpretar um Goku reduzido à infância e prova, aos 87 anos, a razão de ser a voz definitiva do personagem. Sua performance alterna inocência e determinação, reforçando o contraste entre aparência infantil e experiência de batalha acumulada. A veterana explora nuances que remetem ao início da franquia, mas sem abrir mão da energia vista em arcos modernos.
Koki Uchiyama, responsável por dar vida ao novato Glorio, complementa o protagonismo com timbre juvenil e timing cômico preciso. A química entre os dois sustenta tanto momentos dramáticos como as piadas que lembram o humor escancarado de Dr. Slump. Já Ryō Horikawa retoma Vegeta em registro mais contido; as raras explosões do príncipe dos Saiyajins ganham impacto justamente pela economia de decibéis.
Outros nomes, como Aya Hisakawa (Bulma) e Takeshi Kusao (Trunks), entregam participações afinadas, reforçando o conjunto – movimento semelhante ao que se observa na fase atual de One Piece, com destaque para Cavaleiros Sagrados. Em DAIMA, porém, o tempo de tela é melhor distribuído, evitando que coadjuvantes virem mero suporte para explosões de poder.
Roteiro de Akira Toriyama resgata espírito aventureiro
Diferentemente de Dragon Ball Super, em que Toriyama apenas forneceu guias de trama, Dragon Ball DAIMA conta com roteiros e diálogos escritos integralmente pelo autor. O resultado é perceptível: piadas mais ágeis, reviravoltas que brincam com a própria mitologia e construção de mundo que lembra a busca pelas Esferas do Dragão dos anos 80.
Os dez primeiros capítulos adotam estrutura de road movie pelo Reino dos Demônios, exibindo novos cenários enquanto inserem mistérios em ritmo cadenciado. A partir do episódio 11, o texto abraça confrontos elaborados, mas sem abandonar motivações claras – escolha que contrasta com a escalada incessante de Dragon Ball Super e seus personagens dominantes. A presença de piadas visuais, trocadilhos e até gags meta-referenciais reforça a assinatura de Toriyama e mantém o clima leve, mesmo quando a tensão sobe.
Direção equilibra comédia, ação e nostalgia
Kazuya Karasawa e Ryuta Kawahara conduzem a série com segurança, optando por enquadramentos que valorizam expressões faciais durante diálogos e abrem planos largos nos embates. A alternância gera respiro dramático, permitindo que o humor de Toriyama flua antes de cada golpe trocado.
Imagem: Divulgação
A dupla não hesita em acenar à iconografia da franquia – o treinamento na gravidade aumentada, por exemplo, surge em montagem dinâmica e não em longa exposição de falas. O mesmo se vê na revelação de Super Saiyajin 3 Vegeta, mostrada apenas em flash rápido, recurso que surpreende e evita prolongar transformações.
A progressão de tom lembra a transição do mangá clássico para a saga dos Saiyajins, gradualmente trocando exploração por batalhas. Ainda assim, DAIMA nunca perde foco no elenco; até figuras secundárias recebem momentos de impacto, dinâmica comparável ao que a direção de Frieren vem fazendo, sendo que outro título de fantasia, Witch Hat Atelier, promete seguir caminho semelhante.
Qualidade visual e trilha sonora elevam a experiência
Desde o primeiro episódio, a animação exibe fluidez de longa-metragem. Cores vibrantes destacam o Reino dos Demônios, enquanto texturas sutis nas roupas aproximam a arte dos rascunhos originais de Toriyama. Coreografias de luta exploram profundidade de campo e abusam de sakuga sem sacrificar legibilidade.
O estúdio evitou o crunch que prejudicou os primeiros arcos de Dragon Ball Super. Equipes tiveram mais tempo para lapidar quadros, e isso reflete nos close-ups expressivos de Goku ou no impacto sonoro quando Vegeta quebra rochas. A trilha de Norihito Sumitomo, mesclando percussão pesada e temas orquestrados, também contribui para sustentar o clima épico.
Nas exibições televisivas pela Fuji TV e afiliadas, o anime manteve média de audiência alta para o horário, indicativo de que a boa recepção não se limitou aos fãs de longa data. A consistência técnica afasta qualquer comparação com as falhas visuais que motivaram o remake inicial de Super.
Dragon Ball DAIMA: vale a pena assistir?
Para quem busca reencontrar o senso de descoberta do início da franquia, Dragon Ball DAIMA entrega roteiro escrito na íntegra por Akira Toriyama, performances vocais inspiradas e direção que entende como balancear piada e pancadaria. A animação de alto padrão serve de cereja no bolo, conferindo frescor a personagens já conhecidos. Com apenas 20 episódios, a série se mostra acessível tanto a veteranos quanto a novos espectadores, consolidando-se como despedida à altura de seu criador.









