Quando um filme de ficção científica consegue arrancar 78% de aprovação do público e, ao mesmo tempo, amarga 18% entre os críticos no Rotten Tomatoes, a curiosidade acende imediatamente. Foi exatamente o que aconteceu com Em um Piscar de Olhos (In the Blink of an Eye), produção lançada no Hulu em 27 de fevereiro de 2026.
A obra, dirigida por Andrew Stanton, conta três histórias interligadas que atravessam milhares de anos: um grupo de neandertais no passado remoto, uma pesquisadora nos dias atuais e uma cientista em uma nave no século XXV. A ousadia estrutural, somada a elencos distintos em cada linha temporal, cria um mosaico ambicioso que virou campo de batalha entre plateia e imprensa especializada.
Elenco encara papéis em três linhas do tempo
O segmento contemporâneo concentra maior tempo de tela e confia no carisma de Rashida Jones e Daveed Diggs. Os dois formam o coração emocional da narrativa presente, ainda que vários críticos apontem “personagens rasos” e “crescimento truncado”. Mesmo com esse entrave, Jones imprime vulnerabilidade à pesquisadora Claire, enquanto Diggs equilibra leveza e urgência ao interpretar Coakley.
No futuro distante, Kate McKinnon abandona o humor costumeiro para viver uma cientista solitária em missão espacial. Sua performance, focada em sutilezas e silêncios, foi elogiada por parte do público por traduzir o isolamento cósmico em melancolia sutil. A transição para a era dos neandertais, por sua vez, aposta mais em expressões físicas do que em diálogos, recurso que impressiona visualmente, mas reforça a sensação de distanciamento apontada por algumas resenhas negativas.
Direção de Andrew Stanton divide expectativas
Quatorze anos após John Carter, Stanton retorna ao live-action com reputação construída em animações celebradas como Wall-E e Procurando Nemo. Dessa vez, o diretor insiste em planos contemplativos e transições elegantes entre épocas, confiando no design de produção de Ola Maslik e na fotografia de Ole Bratt Birkeland para costurar os cenários díspares.
Muitos críticos reconheceram esses set pieces como pontos altos, mas defenderam que a sofisticação visual não compensa a falta de profundidade dramática. Já o público enxergou na abordagem plástica de Stanton um convite à reflexão, especialmente quando a trilha de Thomas Newman surge como fio condutor entre as eras. A divisão se assemelha ao que ocorreu recentemente com o suspense da A24 com Glen Powell, também marcado por opiniões extremas.
Roteiro ambicioso cria entraves narrativos
Colby Day assina um texto que parece ter saído diretamente de um laboratório de conceitos de alto risco. Conectar homens das cavernas, pesquisadores modernos e cientistas futuristas em menos de duas horas exige precisão de relógio suíço. Segundo resenhas publicadas no Sundance Film Festival, onde o longa estreou em 26 de janeiro de 2026, o filme não consegue dar a cada arco espaço suficiente para crescimento, fazendo com que diálogos soem expositivos e personagens fiquem “na superfície”.
Imagem: Divulgação
Por outro lado, comentários de usuários no Rotten Tomatoes relativizaram a suposta falta de desenvolvimento. Para essa fatia do público, o que importa é a mensagem “potente e instigante” sobre ciclos de existência e a relação entre descoberta científica e empatia. O ritmo lento, apontado como falha pelos críticos, foi percebido como escolha deliberada que garante peso ao clímax, quando as três tramas convergem de forma considerada “emocionante”.
Recepção no Rotten Tomatoes escancara disputa
Com base em 38 textos profissionais, Em um Piscar de Olhos ostenta selo “Rotten” e média de 18%. Entre eles, Emedo Ashibeze, do ScreenRant, frisou que apenas trilha, design de produção e fotografia salvam o filme do “esquecimento instantâneo”. Já Alissa Wilkinson, em análise para o The New York Times, avaliou que a estrutura fragmentada impede que o espectador se envolva afetivamente com qualquer protagonista antes que a montagem salte para outra era.
Em contraponto, mais de 50 avaliações populares compõem o robusto 78% “Fresh” dado pelos espectadores. Nos fóruns da plataforma, vários usuários consideraram “severa” a nota da crítica e defenderam que a ausência de “camadas psicológicas” foi compensada por temáticas grandiosas e pelo final considerado “gratificante”.
Vale a pena assistir a Em um Piscar de Olhos?
O novo longa de Stanton não deixa ninguém indiferente. Se por um lado há lacunas de caracterização que incomodam analistas, por outro existe uma experiência audiovisual arrojada que conquistou a maioria dos assinantes do Hulu. Para quem aprecia ficções científicas que priorizam reflexão sobre ação, Em um Piscar de Olhos oferece material suficiente para debates acalorados — exatamente o tipo de título que o Salada de Cinema gosta de ver movimentando a conversa entre fãs e especialistas.



