O episódio 3 da terceira temporada de A Casa do Dragão faz algo que a série nunca tinha feito antes: mergulha quase inteiramente na cabeça de um único personagem, imitando a estrutura dos capítulos de ponto de vista dos livros de George R.R. Martin. E é exatamente esse tipo de construção que, segundo análises da crítica, fez falta ao desfecho de Daenerys Targaryen em Game of Thrones.
Intitulado “Rhaenyra Triunfante”, o episódio acompanha a rainha lidando com as consequências de finalmente ter conquistado o Trono de Ferro. A trama estreou na HBO e na HBO Max, com novos capítulos da temporada liberados aos domingos.
“Rhaenyra Triunfante” mergulha na cabeça da rainha
O episódio abre com uma cena fria fora do foco principal: Ormund Hightower finge se render e entrega um Daeron Targaryen falso a Daemon. Fora isso, tudo se passa dentro de Porto Real, seguindo Rhaenyra reunião após reunião.
A direção de Clare Kilner e a trilha de Ramin Djawadi reforçam essa sensação de aperto. O ritmo quase sufocante faz o espectador sentir o mesmo cansaço, a mesma paranoia e a mesma sobrecarga que a personagem enfrenta ao tentar governar.
Não é à toa que o episódio lembra o aviso que Robert Baratheon dá a Ned Stark logo no início da saga literária.
Eu juro, sentar num trono é mil vezes mais difícil do que conquistá-lo.
Robert Baratheon, personagem do livro A Guerra dos Tronos, de George R.R. Martin (em tradução livre)
A técnica que vem direto dos livros de George R.R. Martin
A saga A Song of Ice and Fire é narrada em terceira pessoa, mas cada capítulo se limita ao ponto de vista de um único personagem, como Ned Stark, Jon Snow ou Daenerys. É um recurso que praticamente nunca havia sido replicado com fidelidade nas adaptações para a TV, já que a linguagem televisiva trabalha melhor com múltiplos ângulos ao mesmo tempo.
Fire & Blood, o livro que serve de base para A Casa do Dragão, nem sequer é escrito nesse formato: é apresentado como um relato histórico dentro do próprio universo. Ainda assim, é esse episódio da série que mais se aproxima da experiência de ler um capítulo de ponto de vista dos romances, filtrando praticamente tudo pela perspectiva emocional de Rhaenyra.
A comparação mais direta são os capítulos de Cersei Lannister em A Feast for Crows, quando ela governa como regente cercada de conselheiros incompetentes, e os de Daenerys em A Dance with Dragons, tentando administrar Meereen. Os dois casos mostram o desgaste de exercer o poder por dentro, algo que a série de Game of Thrones só tinha arranhado até agora.
O que isso revela sobre o final de Daenerys em Game of Thrones
A comparação não é perfeita: Rhaenyra ainda está no início de seu reinado, enquanto Daenerys assumiu o Trono de Ferro já no fim da série, depois de sua guinada mais sombria. Mesmo assim, é difícil não pensar em como um episódio parecido teria ajudado o arco dela em Game of Thrones.
O problema da 8ª temporada nunca foi Daenerys se tornar a vilã final da história — há indícios ao longo dos anos de que ela chegaria a esse ponto. A questão era a velocidade: faltou tempo de tela para conectar os traumas que ela viveu à decisão de arrasar Porto Real.
Em pouco tempo, ela perdeu dois de seus filhos dragões, viu Jorah Mormont morrer defendendo-a e assistiu à decapitação de Missandei sem poder fazer nada. Logo depois, descobriu que o homem que amava tinha um direito de sangue maior ao trono do que ela.
Nada disso surpreende como desfecho, mas a série nunca chegou a nos colocar de fato dentro da mente de Daenerys durante esse processo. Um episódio construído como “Rhaenyra Triunfante”, que obriga o espectador a sentir o colapso junto com a personagem, teria dado mais peso e coerência à sua queda. A ideia pode não resolver todos os problemas do final de Game of Thrones, mas ajudaria a explicar por que a reviravolta pareceu tão abrupta para boa parte do público — e é um lembrete de que os livros ainda podem tratar esse mesmo desfecho de um jeito mais gradual e convincente.
Fonte principal: A Casa do Dragão, série da HBO. Informações complementares: obras de George R.R. Martin e ComicBook.




