Foi-se o tempo em que as animações originais da Pixar precisavam de um feriado prolongado para emplacar. O fim de semana de estreia de Hoppers mostrou isso com eloquência: US$ 88 milhões no mundo todo, sendo US$ 46 milhões apenas nos Estados Unidos.
O resultado coloca o estúdio de volta ao jogo depois de anos de incerteza nas bilheterias, algo que peças como Elio e Lightyear não conseguiram entregar. O Salada de Cinema acompanhou de perto esse retorno triunfal.
Estreia rende fôlego à Pixar
Antes do lançamento, as projeções apontavam para uma abertura doméstica entre US$ 35 e 40 milhões. O salto para US$ 46 milhões em casa, somado aos US$ 42 milhões arrecadados no exterior, transformou a animação em uma surpresa agradável para a Disney.
Em termos de comparação, Hoppers superou com folga Elemental (US$ 65,1 milhões) e Onward (US$ 65,6 milhões). O feito é ainda mais expressivo porque Onward foi lançado às vésperas dos lockdowns de 2020, circunstância que contaminou qualquer análise direta.
Direção de Daniel Chong acerta no ritmo
Quem assistiu as tirinhas de Ursos sem Curso sabe que Daniel Chong tem mão leve para equilibrar humor e emoção. Em Hoppers, o diretor repete a fórmula, mas amplia a escala: ambientes futuristas, texturas realistas e criaturas cheias de personalidade fazem a tela respirar.
A montagem de 105 minutos não desperdiça tempo. Cada sequência revela detalhes do universo sem cansar o público mirim — e, de quebra, diverte adultos com referências discretas. Ao fim da sessão, fica a sensação de que Chong guiou a narrativa como um maestro seguro, algo raro em estreias de longa-metragem.
Roteiro brinca com temas adultos sem perder leveza
Escrito por Chong ao lado de Jesse Andrews, o roteiro foge do didatismo que marcou algumas produções recentes do estúdio. Em vez de entregar lições prontas, a trama deixa espaços para que crianças captem as mensagens por conta própria. Esse ponto, inclusive, foi exaltado na crítica de Gregory Nussen, que classificou o filme como “um retorno a uma época em que confiávamos no espectador mirim”.
A estrutura narrativa reforça a aposta em personagens originais, algo que vinha perdendo terreno para continuações de franquias consagradas. O sucesso de bilheteria, portanto, sinaliza um terreno mais fértil para projetos inéditos, ainda que Toy Story 5 e Incredibles 3 já estejam no calendário.
Vozes que fazem a diferença
Piper Curda interpreta a protagonista Mabel Tanaka, também conhecida como Mabel Castor, e entrega nuance mesmo limitada ao microfone. A atriz modula insegurança e coragem de forma convincente, contribuindo para a conexão emocional do público com a heroína.
Imagem: Divulgação
Bobby Moynihan, por sua vez, rouba cenas como o excêntrico Rei George. Seu timbre grave contrasta com a leveza visual do personagem e garante momentos de riso franco. Detalhe: o humor irreverente de Moynihan ecoa o trabalho que ele já apresentou em séries de esquetes, mas aqui se ajusta ao público familiar.
O elenco ainda traz vozes menos conhecidas que surpreendem, reforçando a proposta de frescor. A direção de dublagem usa silêncios e respirações para criar ritmo interno, elemento que, muitas vezes, passa despercebido, mas faz toda a diferença na experiência final.
Outra curiosidade: Daniel Chong aproveita o talento dos atores para explorar o timing cômico, evitando gags visuais gratuitas. Com isso, a performance vocal guia o humor, algo que remete a animações clássicas e não depende exclusivamente de referência pop.
Vale a pena assistir a Hoppers?
Se a bilheteria inicial já seria motivo suficiente para despertar interesse, a recepção crítica fecha o pacote. No Rotten Tomatoes, o longa ostenta impressionantes 94 % de aprovação simultânea de público e imprensa. Para quem procura algo além de continuações, a animação surge como um respiro criativo.
O orçamento estimado em US$ 150 milhões deverá ser recuperado em pouco tempo, abrindo caminho para novas apostas originais. E, convenhamos, depois de Inside Out 2 ter batido US$ 1,7 bilhão, o estúdio precisava provar que consegue repetir façanha sem recorrer a marcas já estabelecidas.
No fim, Hoppers entrega uma combinação rara atualmente: números robustos e inventividade. Quem curte boas histórias animadas — e se interessa por debates sobre preservação de formas artísticas tradicionais, como pontuado por Timothée Chalamet em outra ocasião (confira aqui) — vai encontrar no filme um prato cheio.
Com a agenda da Pixar repleta de continuações até 2029, o sucesso de Hoppers serve como lembrete de que universos inéditos ainda têm espaço. Resta torcer para que o estúdio mantenha a confiança recém-adquirida quando Gatto chegar aos cinemas em 2027.









