A trama de Cassie com o OnlyFans foi um dos pontos mais polarizadores da terceira e última temporada de Euphoria. Na série da HBO, a personagem interpretada por Sydney Sweeney abre uma conta na plataforma para financiar um casamento de US$ 50 mil com Nate Jacobs — e a reação do público foi imediata: profissionais do sexo e criadores de conteúdo acusaram a narrativa de reforçar estereótipos prejudiciais.
O que poucos sabiam é que, para Sam Levinson, a escolha não foi descuido nem provocação gratuita. Em participação no programa Real Time with Bill Maher, o criador da série foi direto ao ponto: a abordagem foi intencional, crítica e construída a partir de uma pergunta que ele considera urgente sobre o comportamento de jovens na era das redes sociais.

A lógica por trás da escolha de Levinson
Levinson começou pelo dado econômico. Segundo ele, o OnlyFans fatura tanto quanto Hollywood — o que, na visão do roteirista e diretor, transforma a plataforma em um fenômeno cultural que merece ser examinado com seriedade, não ignorado.
“Se você é jovem, você pensa: não quero trabalhar num emprego das nove às cinco. Bem, talvez eu possa simplesmente começar a tirar fotos de mim mesmo. A questão é: quais são as consequências de longo prazo disso?”
Sam Levinson, em tradução livre, no programa Real Time with Bill Maher
A tese de Levinson é que Euphoria não quis celebrar esse caminho — quis dissecar o que acontece quando uma geração inteira aprende a tratar a si mesma como produto. “Isso esvazia o indivíduo. Você fica constantemente dependendo de curtidas e validação externa”, afirmou.
Ele também reconheceu as críticas, mas lançou uma questão em aberto: a reação teria sido a mesma se a série apresentasse o OnlyFans de forma positiva? A pergunta ficou no ar, sem resposta definitiva.
O contraponto vem de dentro do próprio elenco
Chloe Cherry, que interpreta Faye na série e trabalhou na indústria adulta antes de entrar em Euphoria, não comprou a leitura do criador. Ela já havia chamado a trama de Cassie de “uma loucura” em entrevista anterior.
“Parece uma loucura ver alguém que vive como a Cassie recorrer ao trabalho sexual. Eu realmente acho que o OnlyFans é um fenômeno louco e estranho dos anos 2020, que vamos olhar para trás e ficar muito confusos com isso.”
Chloe Cherry, em tradução livre, entrevista citada pelo Rolling Stone Brasil
Cherry argumentou que a crescente aceitação de plataformas como o OnlyFans tem mais a ver com pressão econômica do que com empoderamento — e que a série não capturou essa nuance com precisão. Ela especulou que uma personagem tão atraente quanto Cassie “provavelmente ganharia muito dinheiro”, mas não achou que a narrativa refletia a realidade de quem de fato recorre à plataforma.
O contraste entre as duas leituras é revelador: Levinson enxerga a trama como crítica social; Cherry, como uma representação que não bate com o que ela viveu de perto. Nenhum dos dois está tecnicamente errado — o que expõe exatamente o tipo de tensão que Euphoria sempre soube provocar, às vezes de forma calculada, às vezes sem controle total sobre o resultado.
O que a polêmica diz sobre o legado de Euphoria
Bill Maher elogiou a personagem Maddy, de Alexa Demie, como o “centro moral” da temporada — ela gerencia outras criadoras de conteúdo na trama. Levinson descreveu o papel com uma expressão que resume bem o tom da série: “um cafetão suave”. É exatamente esse tipo de frase que Euphoria consegue gerar com naturalidade, e que continua dividindo quem assiste.
A terceira temporada encerra a série com mais perguntas do que respostas sobre os temas que ela abraçou. E a trama do OnlyFans, com toda a sua imperfeição narrativa, virou o ponto mais honesto dessa tensão: Levinson sabia o que queria dizer, parte do elenco discordou, e o público ficou no meio.
Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Rolling Stone Brasil, TheWrap, Yahoo News Canada, Terra.com.br.






