Backrooms: Um Não-Lugar é um dos filmes de terror mais aguardados de 2026 justamente porque Kane Parsons — o mesmo criador do vídeo viral que transformou os corredores amarelados em lenda da internet — assina a direção. O resultado estreou no Brasil entre 27 e 28 de maio e chegou com 545 sessões disponíveis, números que mostram a aposta do mercado em um projeto que sai do YouTube para as telas da A24. A questão é: o filme entrega o que a lenda prometia?
O que é Backrooms: Um Não-Lugar e de onde vem essa história?
O mito dos Backrooms nasceu em 2019 como uma imagem de fórum anônimo — um corredor vazio, carpete amarelado, luz fluorescente e a sensação imediata de que aquilo não deveria existir. Kane Parsons transformou essa imagem em vídeo viral no YouTube ainda adolescente, e a A24 enxergou ali uma franquia. O filme expande essa premissa ao colocar Clark (Chiwetel Ejiofor), dono de uma loja de móveis à beira da falência, e sua terapeuta Mary (Renate Reinsve) presos nesses corredores infinitos que parecem materializar os traumas de quem os percorre.
A proposta é ambiciosa: usar a estética do mito — desorientação, silêncio perturbador, espaço sem lógica — como linguagem cinematográfica de verdade, não apenas como cenário.
O que o filme acerta na primeira hora?
Bastante coisa. Parsons demonstra que absorveu a essência do que torna os Backrooms perturbadores: a ausência de explicação. Na primeira metade, o Backrooms funciona como exercício de imersão sensorial quase perfeito. Planos abertos que enfatizam a desorientação, ângulos altos que observam os personagens como cobaias em laboratório, closes sufocantes entre paredes que não terminam — tudo construído com uma consciência visual que surpreende em uma estreia nas grandes telas.
O som merece menção especial. O zumbido das lâmpadas fluorescentes e ruídos que surgem de lugar nenhum transformam os corredores em algo vivo. É o tipo de design sonoro que faz o espectador virar a cabeça para conferir se o som veio da sala ou da tela. A paleta amarelada completa o quadro de inquietação constante, e a estética found footage — usada em sequências específicas — produz alguns dos momentos mais eficazes do longa.
Chiwetel Ejiofor carrega esse primeiro ato com precisão. Clark é um homem consumido antes mesmo de entrar nos corredores, e o ator transmite esse desgaste sem forçar. Renate Reinsve, como a terapeuta Mary, funciona como contraponto mais vulnerável — e a dupla tem química suficiente para sustentar a tensão psicológica que o filme propõe.
Por que o filme perde força na segunda metade?
É quando Parsons decide explicar o inexplicável que Backrooms: Um Não-Lugar começa a se contradizer. Os personagens passam a verbalizar seus traumas diretamente, os corredores deixam de ser ameaça e viram metáfora didática, e toda a atmosfera de incompreensão construída com tanto cuidado é trocada por um roteiro que quer amarrar pontas.
O problema não é usar os corredores como metáfora — é fazer isso de forma explícita, como se o espectador precisasse de um guia turístico para o próprio horror que estava sentindo. A força do mito original vem exatamente da ausência de resposta. Quando o filme decide oferecer uma, ele enfraquece o que o tornava singular.
O desenvolvimento emocional dos personagens também não sustenta o peso que o roteiro exige. As sessões de terapia e os flashbacks entregam informação, mas não criam conexão. Quando as revelações finais chegam, o envolvimento emocional necessário para que elas importem simplesmente não foi construído.
Vale a pena assistir Backrooms: Um Não-Lugar no cinema?
Sim — com expectativas calibradas. A nota de 3,5 de 5 no AdoroCinema (baseada em 32 críticas) traduz bem a experiência: um filme que acerta mais do que erra, mas que não vai até o fim com as próprias convicções. Para quem conhece a lenda original, a primeira hora é quase uma realização — Parsons sabe o que está fazendo atrás da câmera. O problema é que o filme parece ter desconfiado do seu próprio público na reta final.
Há uma ironia considerável nisso: o diretor que criou um dos mitos de terror mais comentados dos últimos anos justamente pela sua recusa em explicar qualquer coisa faz, no longa-metragem, o movimento oposto. O Backrooms funciona porque nunca sabemos o que há no próximo corredor. Quando o filme nos diz, ele perde a única vantagem que a lenda sempre teve sobre qualquer outra história de terror: a certeza de que as respostas talvez não existam.









