O nono capítulo da terceira temporada de Shrinking, batizado de “Daddy Issues”, chega carregado de tensões familiares, decisões profissionais e, claro, ótimas atuações. A volta de Jeff Daniels como Randy Laird impulsiona o roteiro escrito pelos criadores Bill Lawrence, Brett Goldstein e Jason Segel rumo a um confronto que explode a bolha emocional do protagonista.
Com direção igualmente precisa de Lawrence, o episódio costura três núcleos — Jimmy, Gaby e Sean — e coloca o espectador no divã junto com eles. Abaixo, analisamos como cada arco se desenrola, o que as performances entregam e por que essa meia hora reforça o status de Shrinking como uma das séries mais sensíveis do Apple TV +.
Jeff Daniels rouba a cena e expõe o passado de Jimmy
Assim que Randy pisa em Los Angeles, Jeff Daniels assume o centro do palco. O ator constrói um pai charmoso e ao mesmo tempo negligente; bastam poucas frases para que o público entenda por que Jimmy treme toda vez que o vê. A química com Jason Segel funciona pela contradição: enquanto o filho carrega culpa e frustração, o pai disfarça tudo com piadas e presentes caros, como o carro vintage ofertado à neta Alice.
Segel, que também assina o roteiro, aproveita cada microexpressão para mostrar um homem dividido entre o desejo de agradar a filha e o ressentimento represado. O embate cresce quando Randy anuncia que trocará a formatura de Alice por uma pescaria de alto-mar. A câmera de Bill Lawrence foca nos olhos de Jimmy, e a explosão se anuncia silenciosa — mérito de Segel por evitar qualquer exagero melodramático.
Harrison Ford manipula e inspira em despedida sutil de Paul
Enquanto o pai ausente desmonta a rotina de Jimmy, Paul, vivido por um sempre magnético Harrison Ford, move suas peças no tabuleiro clínico. Prestes a se aposentar, o terapeuta pressiona Gaby a voltar ao consultório, usando o argumento de que essa é a última semana em que poderão trabalhar juntos. Ford dosa autoridade e afeto: seu olhar cansado dialoga com a culpa de jogar pesado para reerguer a pupila.
Quando Gaby aceita retomar os atendimentos, o público testemunha a virada de chave na interpretação de Jessica Williams. O brilho nos olhos da atriz volta assim que ela se senta diante do primeiro paciente — sinal claro de que ainda há combustível para histórias fortes envolvendo trauma, exatamente como Ford prevê ao propor que ela transforme o consultório num centro especializado.
Jessica Williams devolve o fôlego a Gaby e confronta a própria vocação
A perda de Maya, mostrada no episódio anterior, havia esmagado a autoconfiança de Gaby. “Daddy Issues” permite que Jessica Williams exponha camadas de medo, relutância e, finalmente, entusiasmo. Quando Liz — a sempre certeira Christa Miller — a faz perceber que Paul age mais por ego que por dúvida sobre sua capacidade, a personagem recobra a chama interior.
Imagem: Divulgação
O diálogo entre Gaby e Paul, já na reta final, é um dos momentos mais delicados da temporada: Ford admite não ter estrutura para encarar casos de trauma, enquanto Williams aceita o desafio como propósito de vida. O roteiro evita soluções fáceis, lembrando que aceitar o posto significa também carregar o legado de Paul — fardo e honra em igual medida.
Sean conquista o emprego dos sonhos e mede a amizade com Jorge
Do outro lado da cidade, Sean (Luke Tennie) recebe a notícia de que foi aprovado como sous chef em um restaurante sofisticado. A alegria vem misturada à apreensão de contar a novidade a Jorge, parceiro de guerra e do food truck. Tennie interpreta o veterano com sutileza: a mão que treme antes do anúncio revela mais que páginas de diálogo.
A reação de Jorge é previsivelmente dolorida, e o roteiro acerta ao mostrar Sean mantendo a calma — contraste direto com o rapaz explosivo do início da série. Durante a sessão com Paul, ambos reconhecem o progresso, fechando um arco de superação sem soar pedante. É nesse ponto que Shrinking se destaca: os passos são pequenos, mas cada avanço é celebrado como se fosse uma medalha olímpica.
Vale a pena assistir ao episódio 9?
“Daddy Issues” refina a proposta de Shrinking ao colocar todos os personagens diante de escolhas definitivas. O retorno de Jeff Daniels eleva a tensão familiar, Harrison Ford se despede em grande estilo, e Jessica Williams prova por que merece comandar a próxima fase da clínica. Com menos de quarenta minutos, o capítulo entrega humor agridoce, drama genuíno e atuações que justificam cada minuto investido.
Para quem gosta de produções da Apple TV + que mergulham em emoções complexas — vide a elogiada quinta temporada de For All Mankind — Shrinking permanece obrigatório. Este episódio confirma que, ao lado de Segel, Lawrence e Goldstein sabem criar humor, dor e catarse numa mesma cena. O Salada de Cinema segue de olho nos próximos passos dessa turma, especialmente agora que cada um carrega, literalmente, seus próprios “daddy issues”.



