Antes da TV a cabo, do streaming e das maratonas de fim de semana, a década de 1970 já testava limites narrativos e técnicos. Entre limitações de orçamento, censura rígida e poucos canais, roteiristas e diretores encontraram brechas para contar histórias ousadas e criar personagens inesquecíveis.
O resultado foi uma safra de programas que ainda hoje são referência de atuação, estrutura de roteiro e direção de cena. O Salada de Cinema revisitou esses clássicos e organizou um ranking com 10 produções que continuam influenciando tudo o que vemos na tela pequena.
O ranking das 10 séries dos anos 70 que moldaram a televisão
A lista a seguir mantém a ordem de exibição original, destacando como cada título utilizou elenco, texto e direção para deixar sua marca.
- Little House on the Prairie (1974-1983)
A adaptação das obras de Laura Ingalls Wilder ganhou vida com Michael Landon, que também assumia direção de episódios. O elenco infantil, onde Jason Bateman fez sua estreia aos 11 anos, ofereceu espontaneidade rara em dramas históricos. - WKRP in Cincinnati (1978-1982)
Com humor afiado sobre bastidores de rádio, a série mostrou versatilidade de atores como Howard Hesseman. A sala de redação aberta em temporadas finais destacou a química cênica do elenco. - The Waltons (1972-1981)
Criada por Earl Hamner Jr., baseada em suas memórias, a trama apostou em realismo emocional. Richard Thomas, como John-Boy, carregou boa parte da carga dramática, apoiado por direção que evitava sentimentalismo excessivo. - The Jeffersons (1975-1985)
Spin-off de All in the Family, traz roteiros de Norman Lear que misturam crítica social e comédia situacional. Sherman Hemsley e Isabel Sanford mantêm o ritmo cômico sem perder o subtexto político. - Laverne & Shirley (1976-1983)
Penny Marshall e Cindy Williams exploram timing físico digno de I Love Lucy. A direção investe em gags recorrentes, como o famoso “hello” de Squiggy, sustentado pelo carisma de Michael McKean. - Emergency! (1972-1977)
Produzida por Jack Webb, a série prioriza realismo médico. Kevin Tighe e Randolph Mantooth entregam atuações contidas que aumentam a tensão dos resgates, antecipando formatos como 9-1-1. - Diff’rent Strokes (1978-1985)
Gary Coleman domina a tela com carisma natural e bordões que viraram cultura pop. Roteiristas ousam em “episódios muito especiais”, desafiando limites do gênero sitcom. - The Mary Tyler Moore Show (1970-1977)
Mary Tyler Moore lidera um elenco afiado, equilibrando vulnerabilidade e confiança. Os roteiros abordam temas femininos—salário, discriminação—com leveza e profundidade. - Taxi (1978-1983)
Sob direção de James L. Brooks, a série reúne Danny DeVito, Judd Hirsch e Christopher Lloyd em performances que alternam sarcasmo e empatia, refletindo a dureza da vida noturna de Nova York. - Dallas (1978-1991)
Primetime soap que usa cliffhangers como arma narrativa. Larry Hagman, no papel de J.R., dita o tom maquiavélico da série, enquanto roteiristas estendem mistérios por temporadas inteiras.
Roteiros ousados e direções marcantes
Os roteiristas da década, a exemplo de Norman Lear e Earl Hamner Jr., romperam com o padrão de “episódio fechado” e apostaram em diálogos que refletiam tensões sociais. Lear, em The Jeffersons, discutia racismo e controle de armas em horário nobre, algo impensável poucos anos antes.
No drama Dallas, David Jacobs arriscou ao estender a dúvida “Quem atirou em J.R.?” por meses, técnica que hoje é regra em séries de suspense. Já Jack Webb, em Emergency!, exigiu consultoria médica em cada roteiro, garantindo verossimilhança que mudaria a forma como o público via serviços de emergência.
Atuações que ficaram para a história
A força dessas séries está diretamente ligada a elencos que sabiam transitar entre tons. Mary Tyler Moore equilibrou charme e firmeza, enquanto Gary Coleman, ainda criança, sustentou sozinho grandes viradas dramáticas em Diff’rent Strokes.
Em Taxi, Danny DeVito criou um vilão carismático que inspiraria gestores tirânicos em comédias posteriores. Do lado dramático, Michael Landon dirigia e atuava, moldando Little House on the Prairie em ritmo próprio, o que conferia unidade artística rara.
Imagem: Divulgação
Vale notar que muitos desses atores migraram para produções contemporâneas. Jason Bateman, por exemplo, pontuou sua estreia em Little House antes de brilhar em Ozark, confirmando a semente plantada nos anos 70.
Influência nas produções atuais
Muitos formatos consolidados hoje bebem dessa fonte. As “temporadas-evento” de Dallas prefiguram o binge-watching que domina o streaming. Sitcoms que enfrentam temas sérios, como Diff’rent Strokes, abriram caminho para dramedies modernas.
A precisão de Emergency! ecoa em procedurais contemporâneos, enquanto a abordagem de representatividade em The Jeffersons inspira discussões atuais sobre diversidade. Até mesmo a mistura de humor e cotidiano profissional vista em The Mary Tyler Moore Show encontra reflexo em séries de ação e espionagem listadas neste guia do Salada de Cinema.
O legado também aparece em animações derivadas, como o spin-off de Laverne & Shirley, prática comum em franquias modernas. Por fim, a aposta em cliffhangers de Dallas continua a ditar ritmo em realities que disputam a atenção do público, lembrando rankings de temporadas intensas como Alone.
Vale a pena assistir hoje?
Sim. Apesar de diferenças estéticas, as séries dos anos 70 trazem narrativas sólidas, atuações inspiradas e lições de roteiro que permanecem atuais. Revisitar esses dez títulos é compreender a base sobre a qual boa parte da TV contemporânea foi construída, além de observar grandes nomes em início de carreira.



