Trocar de papel dentro da mesma produção é raro na TV, ainda mais quando quase ninguém nota a mudança. Foi exatamente isso que aconteceu com Sara Mitich em Star Trek: Discovery. A intérprete abandonou as pesadas próteses da ciborgue Airiam após a primeira temporada e ressurgiu, sem maquiagem especial, como a engenheira Nilsson – tudo à vista do espectador, que mal percebeu.
O feito voltou à tona oito anos depois, quando a atriz participou do podcast Star Trek and Chill e contou, em detalhes, como a transição ocorreu nos bastidores do programa que revitalizou a franquia para o streaming da então CBS All Access (hoje Paramount+), em 2017.
A logística por trás da troca de identidade
Sara Mitich estreou em Discovery no terceiro episódio, Context Is King, soterrada por cinco horas diárias de maquiagem para dar vida à ciborgue tenente-comandante Airiam. A maratona começava às 2h30, estendia-se até as sete da manhã para o primeiro take e ainda exigia uma hora extra apenas para retirar as peças ao fim de jornadas que podiam chegar a 22 horas de estúdio.
Entre a primeira e a segunda temporada, a produção ofereceu à atriz um novo papel: uma engenheira sem próteses, chamada Nilsson. Sem saber o destino de nenhuma das personagens, Mitich aceitou. Duas semanas antes das gravações do episódio que marcaria a morte de Airiam, a equipe avisou que a ciborgue deixaria a trama e que Nilsson herdaria o posto de oficial de operações do esporodrive na ponte da USS Discovery.
O impacto na atuação e a recepção do público
A cena da morte de Airiam, a cargo da colega Hannah Cheesman – que assumiu o papel mascarado na segunda temporada –, ainda rende elogios a Mitich nos corredores das convenções. A confusão é compreensível: a caracterização da ciborgue camuflava completamente o rosto de quem estava por baixo, garantindo uma transição invisível entre as intérpretes.
Quando Nilsson apareceu na ponte no décimo episódio daquele ano, o elenco reagiu com surpresa genuína. Mitich não pisava naquele set desde a temporada anterior. Segundo ela, o silêncio da cena amplificou o peso dramático do momento em que a engenheira ocupa o mesmo console que fora de Airiam, sublinhando a fluidez com que Star Trek: Discovery substituiu uma identidade pela outra sem quebrar a imersão do público.
Direção e roteiro: como a troca serviu à narrativa
Discovery sempre priorizou a coesão visual de seu universo. Os diretores Olatunde Osunsanmi e Jonathan Frakes, que comandaram vários episódios, apostaram na continuidade estética para que a mudança de atriz passasse despercebida. Já a sala de roteiristas liderada por Alex Kurtzman fez da morte de Airiam uma despedida emotiva, mas também funcional: abrir espaço lógico para Nilsson na equipe principal.
Imagem: Divulgação
A decisão segue a tradição de Star Trek de reciclar intérpretes em múltiplos papéis. Nomes como Jeffrey Combs, lendário por viver Brunt e Weyoun em Deep Space Nine, ou Tony Todd, lembrado por Kurn e Jake Sisko adulto, provaram que a franquia abraça essa maleabilidade desde a década de 1990.
Legado de Mitich em Star Trek: Discovery
Nilsson permaneceu fixa até o fim da quarta temporada, quando foi transferida para a USS Voyager-J. Fora das telas, a atriz se afastou da quinta e última leva de episódios por questões pessoais, focando no próprio podcast, Gratitude and Growth, onde fala sobre regulação emocional e bem-estar. O currículo inclui ainda passagens por The Expanse, reforçando seu vínculo com a ficção científica – gênero que, como mostra a troca de personagens em Discovery, permite criatividade ilimitada no uso de elenco.
Com isso, Mitich se juntou ao seleto grupo de atores que colecionam dois personagens numa mesma série da saga, reforçando o diferencial de uma produção que, além de relançar Star Trek para a era do streaming, investe pesado em efeitos práticos e caracterização, algo que mantém a franquia relevante ao lado de outras queridinhas da TV de gênero, como Dark, analisada pelo Salada de Cinema em texto dedicado.
Vale a pena assistir Star Trek: Discovery?
Para quem busca atuações camaleônicas, bastidores curiosos e uma trama que revitaliza um clássico sem perder a essência, Star Trek: Discovery cumpre bem o papel. A jornada de Sara Mitich – da ciborgue Airiam à engenheira Nilsson – sintetiza o espírito de reinvenção que move a série ao longo de suas cinco temporadas.



