Não é só o público que fica sem fôlego diante de Sirat. O drama espanhol, coescrito e dirigido por Óliver Laxe, acumula elogios desde a estreia em Cannes 2025, onde abriu caminho para duas indicações ao Oscar – Filme Internacional e Som. O cineasta, já consagrado no circuito europeu, descreve a obra como uma “terapia de choque” pensada para ser sentida “com a pele”.
A produção acompanha Luis e Esteban, pai e filho interpretados por Sergi López e Bruno Núñez Arjona, que cruzam o deserto do sul do Marrocos em busca de Mar, filha e irmã desaparecida. Entre raves clandestinas e rumores de uma possível Terceira Guerra Mundial, os protagonistas enfrentam perigos naturais e humanos, dependentes um do outro para sobreviver.
Enredo árido que reflete o clima de medo contemporâneo
Ambientado numa imensidão de areia, Sirat retrata uma jornada física e emocional. O roteiro assinado por Laxe e Santiago Fillol mergulha na ansiedade global destacada pelo próprio diretor, que aponta uma era de “muito medo” e criação artística excessivamente calculada. O caminho traçado por Luis e Esteban espelha essa atmosfera: cada passo no deserto parece medir consequências imprevisíveis.
Durante a travessia, o enredo entrelaça a cena rave local e a tensão de um possível conflito mundial. Essa combinação amplia o sentimento de urgência, justificando a descrição do cineasta de que “você morre assistindo” ao longa – não pela violência gráfica apenas, mas pela intensidade sensorial que ele pretende provocar.
Atuações que sustentam a tensão do início ao fim
Sergi López, conhecido de O Labirinto do Fauno, assume Luis com um misto de determinação e vulnerabilidade. Já Bruno Núñez Arjona faz de Esteban um observador atento, cuja juventude contrasta com o cenário hostil. Juntos, pai e filho criam uma química que mantém o espectador preso, justificando a aprovação crítica de 94% no Rotten Tomatoes.
O núcleo é reforçado por Richard Bellamy e Stefania Gadda, figuras que orbitam a subcultura rave e acrescentam camadas ao perigo crescente. Mesmo em papéis menores, os dois ajudam a ilustrar como as ameaças humanas se misturam ao ambiente inóspito.
Direção e roteiro: o risco calculado de Óliver Laxe
Para Laxe, Sirat marca a primeira experiência com um grande estúdio e orçamento robusto, circunstância que trouxe “mais pressão” e a sensação de estar em terreno perigoso. Ainda assim, o diretor declara que queria dialogar com o seu tempo, produzindo uma obra que pudesse ser lembrada daqui a duas décadas.
Imagem: Divulgação
O cineasta reconhece a possibilidade de ser “mal compreendido” ou rotulado de cruel, mas garante que sua intenção principal foi cuidar do espectador. A afirmação encontra eco na recepção positiva pós-Cannes, que colocou o filme em diversas listas de melhores do ano. Enquanto a Paramount reconsidera sequências de clássicos, Laxe aposta num original que exige envolvimento total de quem assiste.
Som como veículo de catarse coletiva
A trilha e a mixagem, conduzidas por Laia Casanovas ao longo de nove meses, renderam a indicação ao Oscar de Melhor Som. Laxe define a sala de cinema como uma “nave espacial” destinada à catarse, espaço onde a experiência deve acontecer “com o corpo inteiro”. Cada centímetro auditivo, nas palavras dele, foi pensado para que o espectador sinta o vento do deserto e o pulso das raves.
Aos prêmios, somam-se duas nomeações ao Globo de Ouro, incluindo Melhor Trilha Original para Kangding Ray. Embora tenha perdido o troféu de Melhor Filme em Língua Não Inglesa para The Secret Agent, Sirat reforça a força do cinema espanhol em premiações globais, lembrando outros títulos que migraram de Cannes para o Oscar, como Parasita.
Vale a pena assistir Sirat?
Com 115 minutos de duração, Sirat condensa tensão, paisagens deslumbrantes e um desenho de som pensado para imersão total. A torcida agora é para que o longa repita em Hollywood o impacto já conquistado na Croisette, colocando o nome de Óliver Laxe entre os diretores mais comentados da temporada. O Salada de Cinema segue acompanhando cada passo dessa travessia rumo à estatueta dourada.



