Tremembé se passa na Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, famosa por abrigar condenados que se tornaram figuras midiáticas. O ponto de partida é promissor: uma série que poderia discutir os limites da curiosidade pública e o modo como a mídia transforma assassinos em personagens.
No entanto, o que se vê é uma narrativa que prefere o espetáculo ao questionamento. A trama mergulha nas rotinas de Suzane von Richthofen, Anna Carolina Jatobá e Elize Matsunaga, reimaginadas como figuras quase ficcionais. A estética lembra novelas de crime: tensões diárias, alianças frágeis e brigas de cela são usadas mais para entretenimento do que para reflexão.
O voyeurismo como escolha narrativa de Tremembé
Tremembé é, essencialmente, um true crime transformado em produto pop. Os flashbacks de segundos, que lembram os crimes, são ilustrativos — nunca reflexivos. A série parece temer o peso do real e, em vez disso, oferece uma versão higienizada, quase teatral, dos acontecimentos.
A comparação com produções como Black Bird ou Monster: The Jeffrey Dahmer Story evidencia a diferença de tom: enquanto aquelas exploram moralidade e trauma, Tremembé se contenta com o choque.
Essa abordagem levanta uma questão importante: até que ponto retratar assassinos com glamour é entretenimento ou irresponsabilidade? A série não responde — e talvez nem queira. O foco é o fascínio, não o impacto. O resultado é uma experiência que desperta curiosidade, mas não provoca reflexão.
Crítica social diluída e ritmo irregular
Há momentos em que Tremembé parece tentar algo maior. As desigualdades do sistema prisional brasileiro aparecem em cenas rápidas — superlotação, privilégios, corrupção —, mas logo cedem espaço às intrigas pessoais. Quando poderia ser uma análise da cultura de celebrização do crime, a série vira um guilty pleasure travestido de denúncia.
O ritmo é outro problema. Os primeiros episódios são envolventes, mas o meio arrasta tramas repetitivas, e o final parece atropelado. Reviravoltas surgem mais como efeito do que consequência natural dos personagens. Há boas ideias — como o contraste entre o glamour das criminosas e a brutalidade do ambiente —, mas tudo se perde no excesso de subtramas.
O veredito

Tremembé é uma produção curiosa: ambicioso na forma, mas raso na mensagem. Sua força está no apelo visual e no elenco, que entrega atuações competentes, especialmente Marina Ruy Barbosa, que surpreende ao fugir de papéis convencionais. Ainda assim, falta densidade.
O roteiro escolhe o caminho fácil do entretenimento e evita mergulhar nas questões éticas que o tema exige. Quem busca uma série intensa e provocadora talvez saia frustrado.
Mas, para quem gosta de dramas carcerários com um toque novelesco e ritmo de reality, Tremembé entrega o suficiente para prender a atenção — mesmo que não convença.
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