Mesmo com a transmissão do Oscar afastando parte do público das salas, dois lançamentos de médio porte mostraram força neste fim de semana nos Estados Unidos. O drama romântico Reminders of Him e o terror undertone, produção enxuta da A24, estrearam em 13 de março e contrariaram projeções iniciais de US$ 8 milhões cada.
Os dois títulos, que chegaram aos cinemas durante o segundo fim de semana da animação Hoppers, não apenas garantiram espaço no Top 3 da bilheteria doméstica como também chamaram atenção pelo desempenho dos elencos e pelo retorno financeiro proporcionalmente alto. A seguir, o Salada de Cinema detalha os números, o trabalho dos atores, da direção e dos roteiristas por trás desse resultado.
Elenco sustenta o apelo de Reminders of Him
Reminders of Him, comandado por Vanessa Caswill, acumulou entre US$ 19 e US$ 20 milhões em três dias, ocupando a segunda posição do ranking. O filme, baseado em romance homônimo de Colleen Hoover, custou US$ 25 milhões e marcou a melhor avaliação no Rotten Tomatoes para uma adaptação da autora, com 89% de aprovação na seção Popcornmeter.
A recepção positiva passa muito pelo desempenho de Maika Monroe como Kenna Rowan. A atriz entrega vulnerabilidade sem exageros na tentativa de reconciliação da personagem com a filha, garantindo química em cena com Tyriq Withers, que interpreta o ex-jogador de futebol americano Ledger Ward. O público premiou esse trabalho com nota B no CinemaScore, sinalizando boa palavra-de-boca e chance de sustentação nas próximas semanas.
Além do par central, o time de apoio reforça credibilidade dramática. A resistência dos avós da criança, por exemplo, ganha peso emocional graças a atuações contidas, que evitam melodrama. Esse equilíbrio ajuda a narrativa a dialogar com quem busca romances realistas, característica que lembra a franqueza vista em Eu Amo Boosters, analisada nesta crítica recente.
Mesmo exigindo cerca de US$ 62,5 milhões para se pagar totalmente, Reminders of Him começa a jornada com fôlego. Caso mantenha reduções semanais modestas, o longa pode repetir a trajetória de títulos que cresceram por recomendação do público, cenário similar ao de Scream 7, que ultrapassou rapidamente a marca de US$ 100 milhões, conforme noticiado aqui.
Terror barato da A24 vira lucro relâmpago
Na terceira posição, undertone entregou US$ 10 milhões na estreia. A cifra seria modesta para blockbusters, mas impressiona diante do orçamento relatado de apenas US$ 500 mil, valor recuperado mais de 20 vezes em menos de uma semana. Embora o terror tenha recebido 54% de aprovação no Popcornmeter e nota C no CinemaScore, o retorno financeiro imediato torna-o mais um caso de acerto da A24 em produzir terror de custo baixo e alta margem.
Parte da curiosidade em torno de undertone recai sobre Nina Kiri, que conduz a trama como apresentadora de podcast assombrada por gravações sinistras. A atriz sustenta a tensão praticamente sozinha, já que boa parte do longa depende da reação dela aos áudios. A direção de Ian Tuason favorece essa proposta, mantendo duração enxuta de 84 minutos e ritmo que não permite dispersão.
Embora alguns espectadores tenham considerado o desfecho menos impactante, a estratégia de marketing acertou ao vender a narrativa como “história amaldiçoada em áudio”, conceito que provoca a mesma curiosidade despertada por fitas malditas em filmes clássicos de terror. Essa abordagem reforça o histórico da A24 com obras de baixo custo e forte conceito, como já se viu em outras produções do estúdio.
A curto prazo, o estúdio ainda deve cobrir investimentos em divulgação antes de contabilizar lucro total. Mesmo assim, a rápida multiplicação do orçamento inicial já configura case de eficiência, contrastando com a queda acentuada de 70% registrada pelo também recente The Bride!, conforme mostramos.
Disputa acirrada contra Hoppers no topo do ranking
Hoppers, animação original da Pixar, ficou novamente no primeiro lugar, somando US$ 30 milhões e registrando queda de apenas 34% em relação à estreia — desempenho incomum para longas voltados ao público familiar. Ainda assim, a presença simultânea de Reminders of Him e undertone marca a segunda semana consecutiva em que duas produções inaugurais aparecem entre as três maiores bilheterias, repetindo feito observado em 6 de março com The Bride! na terceira posição.
Imagem: Michelle Faye
A dinâmica mostra apetite do público por propostas variadas: uma animação para todas as idades, um romance focado em reconexão familiar e um terror conceitual. Essa diversidade também beneficia exibidores, que conseguem atrair segmentos distintos mesmo em período competitivo, reforçando tendência de recuperação do mercado após temporadas de incerteza.
Para Reminders of Him, o desafio principal está em manter ritmo semelhante ao de Hoppers e evitar caída abrupta que comprometa o ponto de equilíbrio. Já o terror da A24 pode se dar ao luxo de recuos mais acentuados, pois o baixo custo reduz a pressão por manutenção de salas.
Vale lembrar que a coincidência com a cerimônia do Oscar poderia ter afetado mais severamente os números. No entanto, os filmes compensaram essa concorrência direta com estratégias de lançamento que privilegiaram sessões antecipadas e campanhas digitais de engajamento, mostrando que datas tradicionalmente ‘arriscadas’ ainda podem render frutos quando há apelo claro ao público-alvo.
Direção e roteiro: quem assina as duas apostas
A consistência de Reminders of Him passa pelo olhar sensível de Vanessa Caswill. A diretora, habituada a dramas de personagem, equilibra conflitos internos e momentos de leveza romântica sem recorrer a clichês visuais, dando espaço para o texto de Lauren Levine e da própria Colleen Hoover respirar. O roteiro concentra-se na jornada de reconciliação de Kenna, usando diálogos econômicos para revelar feridas emocionais.
Já undertone é escrito e dirigido por Ian Tuason, que opta por estrutura quase de “documentário fictício”, reproduzindo trechos de áudio e inserindo legendas que guiam o espectador pelo mistério. A escolha reduz necessidade de cenários complexos e canaliza recursos para o design de som, elemento vital para o impacto do terror. O texto também explora temas de responsabilidade ética no jornalismo investigativo, sem se alongar em subtramas.
A abordagem dos dois cineastas destaca caminhos opostos: enquanto Caswill investe em expansão emocional, Tuason aposta na imersão sensorial. Ambas as estratégias se mostraram eficazes junto ao público-alvo de cada obra, refletindo na diferença de avaliação entre romance e terror, mas em igual sucesso de atração inicial.
Esses resultados reforçam o valor de visões autorais claras, elemento cada vez mais relevante em um mercado dividido entre grandes franquias e produções independentes. A indicação é que diretores com propostas distintas continuam encontrando espaço para dialogar com plateias segmentadas.
Vale a pena assistir?
Para quem busca um drama romântico marcado por atuações sólidas e narrativa focada em laços familiares, Reminders of Him oferece 114 minutos de envolvimento emocional e boas chances de identificação. Já os fãs de terror conceitual encontrarão em undertone uma experiência breve, mas intensa, sustentada por design de som eficaz e performance concentrada de Nina Kiri. A julgar pelo impacto inicial de bilheteria, ambos os títulos apresentam qualidades suficientes para justificar a ida ao cinema nesta temporada movimentada.









