Peaky Blinders: The Immortal Man chega à Netflix em 20 de março ostentando 93% de aprovação no Rotten Tomatoes e a expectativa de manter o alto nível da série original. A grande questão era quem ocuparia o vácuo deixado por Polly Gray, matriarca interpretada pela inesquecível Helen McCrory. Rebecca Ferguson assume o desafio ao viver Kaulo, figura romani capaz de resgatar o componente místico que sempre permeou a família Shelby.
Nesta crítica, o Salada de Cinema analisa como Ferguson honra o legado de McCrory, avalia a química com Cillian Murphy e observa as escolhas do diretor Tom Harper e do roteirista Steven Knight para sustentar a aura trágica, porém sedutora, que tornou a marca tão popular.
A sombra de Polly Gray paira sobre Kaulo
Kaulo surge em cena carregando o mesmo misto de autoridade silenciosa e espiritualidade que fez de Polly Gray um pilar da narrativa. Segundo a própria Ferguson, bastou ler no roteiro a frase “você não esperava que um pássaro voasse para dentro” — dita por Tommy Shelby — para compreender que a personagem funcionaria como espelho de sua antecessora. O resultado é uma atuação baseada na contenção: poucas palavras, muitos olhares e a sensação constante de que Kaulo enxerga além do momento presente.
Esse posicionamento remete diretamente ao que McCrory fez nas cinco primeiras temporadas. Ao invés de copiar trejeitos, Ferguson busca a mesma energia, respeitando a memória da intérprete original. A comparação é inevitável, mas a força de Kaulo está justamente em não tentar ser Polly; ela apenas ocupa o espaço de conselheira implacável, capaz de alertar Tommy sobre perigos que ultrapassam a lógica.
A química entre Rebecca Ferguson e Cillian Murphy
Cillian Murphy, agora também produtor executivo, volta a vestir o terno escuro de Tommy Shelby em um momento de isolamento autoimposto. É Kaulo quem o arranca dessa reclusão ao pedir ajuda para salvar Duke (Barry Keoghan) das garras de simpatizantes nazistas. A dupla constrói uma relação de respeito instantâneo, lembrando a dinâmica tensa que Tommy mantinha com Polly.
Murphy reconheceu publicamente que as duas personagens “pertencem à mesma tradição”, e isso transparece na tela. Ferguson contracena sem medo de disputar o centro da atenção e entrega respostas frias que equilibram a intensidade do protagonista. Esse embate de egos faz o público recordar o duelo de atuações visto em outros projetos recentes, como aquele entre Ethan Hawke e Russell Crowe em The Weight, reforçando como boas parcerias podem elevar um roteiro.
Direção de Tom Harper mantém a tensão
Tom Harper, que já havia conduzido episódios da série, assume a cadeira de diretor no longa de 112 minutos. Ele opta por enquadramentos fechados, luz difusa e cores soturnas, preservando o visual industrial que marcou Peaky Blinders. As cenas em que Kaulo profere presságios trazem movimentos de câmera lentos, quase cerimoniais, ressaltando o magnetismo de Ferguson.
Imagem: Divulgação
Quando a trama exige ação, Harper recorre a cortes secos e trilha percussiva para acelerar o coração do espectador. Nada parece gratuito: cada tiro, cada explosão e cada silêncio reforçam o peso das escolhas morais. O trabalho de montagem também evita excessos, o que deixa as atenções focadas no conflito interno de Tommy e na tentação que ronda Duke.
Roteiro de Steven Knight expande o legado
Steven Knight, criador da série, sabe que o público chega ao filme com o luto por Polly ainda fresco. Por isso, insere diálogos que reconhecem a ausência da matriarca e apontam Kaulo como “o pássaro” inesperado. O texto delineia paralelos claros entre as duas figuras femininas sem transformar a nova personagem em substituta rasa.
Ao mesmo tempo, Knight planta sementes para futuras extensões da franquia — já confirmada para uma série situada em 1953. A presença do vilão Beckett, interpretado por Tim Roth, evidencia que o submundo europeu do pós-guerra seguirá rendendo histórias. O roteirista equilibra fan service, ao trazer de volta nomes como Ada (Sophie Rundle) e Johnny Dogs (Packy Lee), e novidades capazes de sustentar um novo ciclo narrativo.
Vale a pena assistir Peaky Blinders: The Immortal Man?
Com 93% de aprovação inicial, Peaky Blinders: The Immortal Man cumpre a missão de evoluir a saga Shelby sem trair suas origens. Rebecca Ferguson entrega uma performance hipnótica, Cillian Murphy continua dominando a tela e Tom Harper orquestra um filme que dialoga com a série e prepara terreno para o futuro. Para quem busca dramas de crime com pitadas sobrenaturais, o retorno a Birmingham — agora via Netflix — é convite irrecusável.



