Uma das passagens mais desconfortáveis de Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes) chegou aos cinemas em 13 de fevereiro de 2026 e não demorou a virar assunto. A imagem de Isabella acorrentada à lareira com um colar de cachorro, sob o olhar endurecido de Heathcliff, resume toda a ruína emocional que Emerald Fennell queria estampar na tela.
Em entrevista recente, Jacob Elordi e Alison Oliver detalharam como construíram a sequência, oferecendo pistas valiosas sobre o estado mental de seus personagens e sobre a visão extrema da diretora. O Salada de Cinema reuniu os principais trechos dessa conversa e analisa como a escolha estética influencia a recepção do longa.
Atuação intensa de Jacob Elordi como Heathcliff
Elordi descreve Heathcliff como alguém “vivendo um inferno autoinduzido”. Para o ator, a cena do colar marca o ponto em que a obsessão do anti-herói por Cathy (Margot Robbie) deixa de ser silenciosa e assume contornos desesperados. “Quando suas atitudes já não chamam mais a atenção dela, o jogo acaba e tudo fica real”, resume.
No romance de Emily Brontë, cães aparecem como metáfora de violência — inclusive quando Heathcliff mata o animal de Isabella. Fennell transplantou essa brutalidade para a nova versão, substituindo o assassinato do cão pela humilhação de Isabella. Elordi vê ali uma “piada” que perdeu a graça: o colar seria, ao mesmo tempo, troféu e algema, provando que a vingança perdeu o propósito.
Alison Oliver mergulha na repressão de Isabella
Oliver interpreta Isabella como alguém presa a convenções vitorianas que a infantilizam. Segundo ela, toda emoção reprimida “explode de modo bagunçado” quando a personagem se percebe isolada em Wuthering Heights. O cenário caótico ajuda a atriz a expressar o contraste entre a fragilidade social de Isabella e o fascínio destrutivo exercido por Heathcliff.
Críticos que não economizaram farpas ao filme, como Gregory Nussen, reconhecem que Oliver é “a vencedora clara” do elenco, por encontrar o tom exato da loucura romântica imaginada por Fennell. A divergência de pontos de vista sobre o prazer ou repulsa de Isabella nessa relação também alimenta debates: em vez de vítima silenciosa, ela surge como alguém que, em certa medida, participa do jogo de poder.
A visão de Emerald Fennell para o choque em Wuthering Heights
Diretora e roteirista, Emerald Fennell parte da obra de Brontë, mas sinte sua própria assinatura, carregada de sarcasmo e tensão sexual. A escolha de exibir Isabella acorrentada se alinha ao estilo da cineasta, que prefere ilustrar a violência com imagens perturbadoras a mostrá-la fora de campo.
Imagem: Divulgação
Fennell já havia trabalhado com Elordi e Oliver em Saltburn, experiência que, segundo o elenco, facilitou a comunicação no set. Para o diretor de fotografia, o contraste entre a sujeira do ambiente e os trajes elegantes realça a degradação moral que toma conta de Wuthering Heights, algo que Elordi define como “um tipo de inferno de duas pessoas”.
Mudanças de roteiro e repercussão crítica
Entre as alterações mais comentadas está o fato de Isabella ser tutelada de Edgar Linton (Shazad Latif) em vez de irmã biológica, como no livro. A inversão reforça a sensação de transgressão social e sexual pretendida por Fennell. Já a corrente e o colar reposicionam a violência contra animais para uma violência simbólica contra a própria Isabella, detalhe que dividiu opiniões.
O Guardian interpretou a decisão como “amenizar a crueldade” de Heathcliff, transformando Isabella em cúmplice sorridente. Debates sobre liberdade criativa não são novidade: a discussão ecoa o que ocorreu quando Russell Crowe mencionou cortes drásticos em Robin Hood, lembrando que escolhas de roteiro podem consolidar ou minar uma obra.
Ainda assim, parte da imprensa enaltece a coragem do longa em abraçar o descontrole dos personagens. Com 136 minutos, Wuthering Heights entrega um romance dramático de ritmo oscilante, repleto de reviravoltas e imagens que, de propósito, buscam chocar o público.
Vale a pena assistir?
Para quem deseja ver interpretações intensas de Jacob Elordi e Alison Oliver, a resposta tende ao sim. A nova adaptação pode não agradar puristas do texto de Brontë, mas oferece um estudo de personagem carregado de energia crua. A cena do colar encapsula esse espírito: desconfortável, teatral e, sobretudo, emblemática do que Emerald Fennell entende como paixão destrutiva.



