Nem todo “desenho para criança” se limita ao público mirim. A cada ano, a Netflix lança ou resgata produções animadas que brincam com expectativas, investem em narrativas complexas e apostam em elencos de voz dignos de live-action.
O Salada de Cinema analisou 30 dessas séries e reuniu impressões sobre roteiro, direção e performance dos dubladores. O resultado mostra como os desenhos na Netflix vêm crescendo em sofisticação, alcançando a difícil façanha de cativar pais e filhos na mesma sessão.
A ousadia narrativa de Ninjago e o trabalho de dublagem
Desenvolvida inicialmente para divulgar linhas de blocos de montar, Ninjago (2011-2022) tornou-se um fenômeno de dez temporadas fora da plataforma. Na Netflix, apenas os dois primeiros ciclos estão disponíveis, suficientes para evidenciar a química do elenco de voz original, comandado por Vincent Tong e Michael Adamthwaite. Os dois dubladores conduzem a jornada de Kai e Jay com energia adolescente, mas sem perder a sutileza que conquista os mais velhos.
O roteiro de Dan Hageman e Kevin Hageman não se apoia apenas em ganchos semanais. Os irmãos roteiristas costuram arcos de redenção, dilemas familiares e referências à cultura oriental que, embora simplificadas para o público infantil, ressoam em quem cresceu assistindo a animes clássicos. A direção de Michael Helmuth Hansen mantém a ação clara, mesmo em batalhas repletas de partículas digitais, provando que a técnica é bem mais refinada que a estética “brinquedo” sugere.
Arcane eleva o padrão dos desenhos na Netflix
Produzida pela Riot Games em parceria com o estúdio francês Fortiche, Arcane (2021-2024) é o melhor exemplo de como os desenhos na Netflix podem dialogar com o conceito de blockbuster. Christian Linke e Alex Yee, responsáveis pelo roteiro, extrapolam o universo de League of Legends para discutir desigualdade social, vício químico e trauma familiar. Mesmo temas densos são conduzidos com a leveza visual de uma arte que mistura 2D e 3D sem perder textura.
Hailee Steinfeld (Vi) e Ella Purnell (Jinx) entregam performances de voz em total sintonia com a direção de cenografia sonora de Alex Temple. A dupla traduz, em tom e respiração, um vínculo fraternal abalado por violência sistêmica. A produção recebeu o Emmy de Melhor Série Animada, reconhecimento que reforça como a animação adulta pode, sim, ser exibida em ambiente familiar — desde que os pais estejam presentes para contextualizar algumas discussões.
Diversão pop em Scott Pilgrim Takes Off
Lançada em 2023, Scott Pilgrim Takes Off reuniu quase todo o elenco do filme de 2010. Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead e Brie Larson retornam aos microfones sob direção de voz de Debra Toffan, recriando a irreverência cômica que consagrou a adaptação live-action. Só que o showrunner Bryan Lee O’Malley decidiu subverter a história logo no episódio piloto, o que dá ao time de roteiristas liberdade para explorar múltiplas linhas do tempo.
A trilha sonora de Anamanaguchi reforça o clima de game retrô, mas é o timing cômico dos atores que garante apelo universal. Mesmo piadas sobre relacionamentos tóxicos ou insegurança masculina são temperadas com leveza, permitindo que pré-adolescentes aproveitem a ação enquanto adultos captam referências à cultura pop dos anos 2000. Essa combinação faz eco ao debate levantado em Animações para todas as idades: por que essas séries “infantis” conquistam os adultos.
Imagem: Divulgação
Revivendo clássicos com Scooby-Doo! Mystery Incorporated
Scooby-Doo! Mystery Incorporated (2010-2013) chega à Netflix como a interpretação mais sombria — embora ainda bem-humorada — do cão mais famoso da TV. Os criadores Mitch Watson e Tony Cervone apostam em um arco contínuo, algo raro na franquia. Com isso, Grey DeLisle (Daphne) e Matthew Lillard (Shaggy) podem desenvolver nuances emocionais quase inéditas em versões anteriores.
O diretor de animação Victor Cook mescla homenagens ao terror B com referências art déco, transformando a fictícia Crystal Cove num cenário que sacia o olho adulto sem assustar de verdade os pequenos. O texto, recheado de metalinguagem, ainda parodia clichês que fãs de longa data vão reconhecer de imediato. Não por acaso, a série figura entre os exemplos de programas nostálgicos que exploram mistério de forma envolvente, tal como apontado no artigo sobre Doctor Who acumula mistérios sem resposta.
Vale a pena mergulhar nesses desenhos na Netflix?
Os quatro títulos analisados acima ilustram apenas uma fração dos 30 desenhos na Netflix listados pelo Salada de Cinema. Todos compartilham elementos que transcendem a simples classificação “infantil”: roteiros ambiciosos, direção empenhada em storytelling de qualidade e elencos de dubladores que tratam a animação com o mesmo respeito de um drama em live-action.
Ninjago apresenta a dinâmica ideal para quem busca aventura leve, enquanto Arcane é indicado a famílias com adolescentes curiosos por temas mais sérios. Já Scott Pilgrim Takes Off diverte fãs de cultura geek e Scooby-Doo! Mystery Incorporated oferece nostalgia com frescor narrativo, demonstrando como personagens clássicos ainda podem surpreender.
Em um catálogo cada vez mais variado, esses desenhos na Netflix provam que a animação é território fértil para experimentação artística. Escolha o título que melhor combina com a idade dos espectadores em casa, ajuste a pipoca e deixe-se guiar pela criatividade de roteiristas, diretores e, sobretudo, pelos talentos de voz que fazem cada cena ganhar vida.



