A Netflix continua apostando pesado em comédias de conceito elevado, e Primeiro as Damas é a prova de que uma premissa inteligente não garante um filme minimamente competente. Lançada em 16 de abril de 2026, a produção dirigida por Thea Sharrock imagina um mundo onde homens e mulheres trocam de posição social completa: enquanto mulheres ocupam todos os espaços de poder, homens enfrentam o machismo sistêmico no dia a dia. O conceito promete reflexão. O resultado? Uma maratona cansativa de piadas reversas que acreditam ser profundas apenas por inverter pronomes.
Quando Inverter Palavras Não É Sátira

(Reprodução / Netflix)
Sacha Baron Cohen interpreta Damien Sachs, um publicitário arrogante e machista que, após bater a cabeça, acorda em uma realidade invertida. Agora precisará lidar com assédio, comentários ofensivos e desprezo profissional — exatamente aquilo que mulheres enfrentam há séculos. Rosamund Pike vive Alex, colega de trabalho que finalmente escapa da invisibilidade para assumir um cargo de poder na empresa. Superficialmente, essa é a semente de uma boa história.
Mas o roteiro de Primeiro as Damas comete o erro capital de confundir repetição com graça. A estrutura narrativa insiste em bater a mesma piada durante praticamente toda a duração — 84 minutos que, paradoxalmente, parecem muito mais longos. Não se trata apenas de um filme que não funciona; é um filme que não entendeu sua própria premissa. Uma verdadeira sátira sobre desigualdade de gênero deveria usar a inversão como ferramente de crítica afiada, não como desculpa para trocar termos masculinos por femininos de forma cada vez mais desgastante.
Há comparações óbvias com Do Que as Mulheres Gostam (2000), que também brincava com inversões de perspectiva. Mas aquele filme, apesar de seus problemas, tinha alguma leveza narrativa. Primeiro as Damas se sente artificialmente solenizado sobre sua própria ironia, como se repetir a mesma estrutura de piada fosse sinônimo de inteligência.
O Elenco Que Merecia Melhor
O verdadeiro crime aqui é o desperdício do elenco. Rosamund Pike consegue, contra todas as probabilidades, funcionar como executiva fria e dominante — há momentos em que sua performance ressoa como algo real, algum fio de competência emocional que a atriz consegue puxar do material fraco oferecido. Mas isso é insuficiente. O papel de Alex poderia ter explorado as contradições de uma mulher finalmente em poder em um sistema que a oprimia, mas em vez disso vira apenas um tipo corporativo genérico.
Sacha Baron Cohen, por sua vez, parece completamente desorientado. Falta carisma ao personagem, timing cômico que funcionasse e, mais crítico ainda, nenhuma química real entre os dois atores. Baron Cohen é conhecido por sua capacidade de minar personagens odiáveis com camadas de absurdo que, de alguma forma, criam empatia. Aqui, Damien Sachs é apenas… odiável. Sem salvação, sem humor real, sem profundidade que justifique passar quase uma hora e meia observando seus sofrimentos.
A direção de Thea Sharrock não ajuda em nada. Cada cena soa forçada, dos diálogos ao design do ambiente corporativo. O universo do filme nunca convence — funciona apenas como pano de fundo genérico para repetir piadas que deveriam ter morrido no segundo ato.
Humor Constrangedor Como Estratégia Narrativa
Primeiro as Damas mistura crítica social vagamente articulada com humor absurdo exagerado, mas nunca encontra o tom certo. Em vez de construir uma sátira realmente afiada, o filme prefere situações infantis: homens em calcinhas, homens tendo dificuldade em encontrar calças que caibam, homens sendo tocados em público sem consentimento. A ironia proposital existe, claro. Mas a execução é tão óbvia que qualquer comentário social se dilui em constrangimento sem propósito.
Existe uma crítica válida sobre desigualdade de gênero enterrada em algum lugar dessa produção. Mas ela se perde completamente em meio a exageros que soam como humor de anos 2000, quando o cinema cômico acreditava que volume e repetição equivaliam a riso garantido. Primeiro as Damas é um exemplo perfeito dessa abordagem ultrapassada.
A cinematografia e a produção da 3dot Productions e Four By Two Films não conseguem salvar nada. Tudo parece plastificado, sem textura, sem autenticidade. Até as situações que deveriam ter impacto emocional caem na mesmice.
Por Que Filmes de Conceito Evoluído Precisam de Roteiros Evoluídos
O paradoxo de Primeiro as Damas é que ele herdou sua inspiração de I Am Not (2018), filme francês que também brincava com inversões, mas tinha cinismo e uma abordagem mais sofisticada. Netflix aqui optou por suavizar tudo, tornar tudo mais acessível — e no processo, matou qualquer inteligência que o conceito pudesse ter.
A classificação A16 sugere que o filme tenta ofender, provocar, questionar. Mas provocação sem propósito narrativo é apenas ruído. Um filme que quer falar sobre machismo precisa fazer mais do que mostrar homens sofrendo o que mulheres sofrem; precisa examinar como essas estruturas funcionam, como mentalidades se perpetuam, como a inversão não resolve nada se a sociedade continuar estruturada da mesma forma.
Primeiro as Damas não faz nenhum desses questionamentos. Prefere o caminho fácil, aquele em que a piada é a piada, ponto final.
Um Fracasso Previsível em 84 Minutos
Mesmo com duração econômica, Primeiro as Damas sente-se arrastado. A sensação é de estar prisioneiro de um filme que gira em círculos sem desenvolver nada — nem personagens, nem ideias, nem situações. Rosamund Pike tenta, Sacha Baron Cohen desiste, e o roteiro nunca oferece algo verdadeiramente novo sobre o tema que pretende explorar.
O trailer no YouTube acumula apenas 44 visualizações, e as 29 mil reações na postagem oficial da Netflix Brasil sugerem que o público mantém suas expectativas baixas. Primeiro as Damas entra facilmente para a lista crescente de comédias da plataforma que desperdiçam boas ideias em roteiros preguiçosos e direção sem visão.
⭐ Nota: 5.0/10
Crítica de um filme que acreditou que inversão de papéis era o suficiente. Não foi. Nunca é.








