Uma investigação de assassinato ambientada em 2032, pitadas de ficção científica e um arco emocional calcado na relação de um promotor com câncer e sua esposa policial. “The Soul” reúne todos esses elementos e, ainda assim, coloca o elenco no centro da experiência.
Disponível na Netflix desde 2021, o longa de Cheng Wei-hao foi adaptado do romance “Soul Removal Skills”, de Jiang Bo, e vem chamando atenção pela mistura de noir, drama jurídico e especulação tecnológica. A seguir, o Salada de Cinema organiza os principais pontos sobre direção, atuações e roteiro.
Direção de Cheng Wei-hao sustenta clima noir e ritmo enxuto
Cheng Wei-hao, conhecido pelo thriller “Who Killed Cock Robin”, retorna com um trabalho que alterna passado e futuro sem perder a linha narrativa. Mesmo com 130 minutos de duração, o cineasta opta por cortes objetivos, evitando sequências gratuitas e mantendo a tensão em torno do assassinato do magnata Wong Shi-ping.
Para reforçar o tom noir, Cheng investe em paleta fria — predominam azul-marinho e cinza-chumbo — e em constante névoa que encobre Taipei. A escolha visual, realizada em parceria com a diretora de fotografia Yao Hung-i, dialoga com a premissa futurista: a tecnologia avança, mas as emoções permanecem turvas. Esse contraste entre progresso e melancolia é mantido do primeiro ao último quadro sem concessões a exageros.
Elenco entrega nuances essenciais para a trama
Chang Chen interpreta o promotor Liang Wen-chao, profissional dedicado que, à beira de uma metástase, se recusa a abandonar o caso. A performance recebeu atenção especial da imprensa especializada, que classificou o papel como um dos mais marcantes da carreira do ator — reconhecimento que o levou, inclusive, ao elenco de “Duna”, de Denis Villeneuve.
Janine Chang vive a investigadora Ah-bao, esposa de Wen-chao. O casal movimenta a narrativa não apenas pelo trabalho conjunto, mas também pela preocupação mútua diante da doença que avança. A química entre os dois atores ajuda a equilibrar discussões sobre biotecnologia, rituais de possessão e experimentos de engenharia genética com momentos de intimidade cotidiana.
No núcleo dos suspeitos, Christopher Lee e Sun An-wu contrastam ambição empresarial e conflitos familiares. Já Patrick Shih, como o filho do magnata, surge na história para questionar até que ponto a ciência pode substituir o peso da culpa.
Imagem: Divulgação
Atmosfera sonora e visual reforça o suspense investigativo
Além da fotografia, a trilha de Lu Luan-su trabalha sons minimalistas, quase imperceptíveis, para amplificar o caráter “silenciosamente devastador” ressaltado por críticos internacionais. Em cenas-chave, o volume cai a ponto de o espectador ouvir apenas a respiração dos personagens, recurso que sublinha a tensão sem recorrer a jumpscares fáceis.
Outro ponto é a montagem paralela utilizada para apresentar rituais de magia negra e depoimentos no tribunal. Enquanto a cor profunda das cenas externas traduz a opacidade moral dos personagens, os ambientes forenses aparecem iluminados por lâmpadas brancas, quase estéreis, sugerindo um futuro em que a verdade pode ser manipulada como qualquer dado eletrônico.
Roteiro mistura ficção científica próxima e mistério clássico
Adaptado por Cheng Wei-hao em parceria com Jin Han-ting, o roteiro permanece fiel ao livro de Jiang Bo ao discutir transferência de alma, metempsicose e melhoramento cerebral. A história se passa em 2032, data escolhida para manter a tecnologia ao alcance do público: telas holográficas, cirurgias genética e big data policial já se insinuam no presente.
Ao mesmo tempo, a narrativa segue estrutura de romance policial clássico. A cena do crime é apresentada logo no início; a investigação aponta suspeitos lógicos — esposa e filho da vítima —; e cada pista encontrada gera uma nova pergunta. São reviravoltas sucessivas, sempre fundamentadas na premissa científica do material original, sem sacrificar a coerência dos personagens.
Vale a pena assistir?
Com direção segura, atuações reconhecidas e roteiro que equilibra drama e ficção científica, “The Soul” surge como opção consistente para quem busca suspense investigativo fora do eixo Hollywood. O filme combina estética noir, questionamentos éticos e performances elogiadas, mantendo ritmo que sustenta o interesse ao longo de duas horas.









