Jay Duplass chegou a Sundance 2026 com See You When I See You, adaptação do livro de memórias de Adam Cayton-Holland. O longa de 102 minutos narra a tentativa de um jovem de organizar o luto depois do suicídio da irmã.
A proposta emocionalmente densa se apoia em sessões de EMDR para traduzir trauma em cinema. Mesmo com inventividade estética e elenco de nomes conhecidos, a obra esbarra em problemas de cadência que reduzem parte do impacto.
Direção de Jay Duplass: minimalismo visual aliado a explosões sensoriais
Duplass conduz a câmera com simplicidade quando a história mostra a rotina devastada da família Holland. Planos fixos, fotografia em tons frios e trilha econômica criam a atmosfera de choque inicial. Quando a terapia EMDR entra em cena, porém, o diretor troca o registro contemplativo por estímulos multissensoriais: vibrações nos punhos do protagonista, ruídos alternados nos canais de áudio e flashes de cores quentes interrompem a paleta cinzenta.
Essa escolha ajuda o público a entender o método clínico sem cair em didatismo. Ao mesmo tempo, o contraste entre momentos quase estáticos e sequências carregadas de efeitos reforça a sensação de uma história que ora avança, ora estaciona. A alternância brusca lembra problemas de ritmo já apontados em Vanished, onde a urgência narrativa prejudica o aprofundamento dos personagens.
Roteiro: fidelidade ao livro, mas com arestas na transposição dramática
Adam Cayton-Holland, um dos produtores, colaborou de perto na escrita do roteiro e manteve grande parte de suas memórias. Essa fidelidade garante veracidade aos diálogos que tratam de culpa, negação e reconexão familiar. Ainda assim, a estrutura em blocos – infância, trauma, tratamento – impede que as transições emocionais fluam naturalmente.
O romance entre Aaron e a enfermeira Camila surge como tentativa de respiro narrativo, porém ganha minutos demais sem oferecer contrapeso dramático consistente. As passagens que ilustram a relação de Aaron com Leah também soam pontuais. Cercadas por flashbacks em bares e piadas internas, elas não alcançam a profundidade anunciada pelo texto, o que diminui o peso das crises subsequentes.
Elenco: família como núcleo emotivo, mas protagonista oscila
Cooper Raiff encara Aaron com leveza convincente nos trechos de humor, marca que o diretor explora para aliviar momentos mais pesados. Quando chega a hora das explosões de raiva ou desespero, todavia, o ator alterna entre introspecção e falsete dramático, deixando algumas cenas menos potentes do que o roteiro sugere.
No contraponto, David Duchovny e Hope Davis constroem o casal de pais em frangalhos com precisão cirúrgica. Os gestos contidos, o olhar quebradiço e a tensão permanente complementam a ausência de grandes monólogos, entregando uma dinâmica onde o silêncio diz mais que as palavras. Ariela Barer injeta carisma como Camila e oferece química suficiente com Raiff para convencer, mesmo dentro de um arco apressado.
Imagem: Divulgação
EMDR em foco: recurso audiovisual que traduz técnica terapêutica
Ao transformar a terapia Eye Movement Desensitization and Reprocessing em set piece audiovisual, Duplass evita a exposição verbal. Em cada sessão, o espectador ouve batidas que pulam de um fone ao outro, vê mãos trêmulas e fragmentos visuais de lembranças. O diretor se afasta de dramatizações simplistas já usadas em produções televisivas e traduz um processo clínico de forma quase tátil.
Esse truque de linguagem justifica o investimento estético do longa e coloca o drama acima de eventual tom didático. Também abre espaço para que Leah, interpretada por Kaitlyn Dever, apareça em rápidos estilhaços de memória, o que alimenta o afeto do público pela personagem.
Vale a pena assistir?
See You When I See You cumpre a difícil missão de falar abertamente sobre suicídio e luto sem recorrer a discursos moralistas. O olhar íntimo de Jay Duplass, aliado a um elenco que entrega bons momentos – ainda que irregulares –, cria passagens emocionantes, especialmente nas cenas de EMDR.
Por outro lado, a montagem acelera conflitos e resolve tensões com a mesma rapidez com que as apresenta. O resultado é um filme que, assim como o protagonista, tenta se equilibrar entre catarse e contenção. O ritmo instável pode afastar quem busca uma progressão dramática contínua, mas o experimento sensorial faz valer o ingresso para quem se interessa por narrativas sobre saúde mental.
Exibido em 27 de janeiro de 2026 em Sundance, o longa segue negociando distribuição e deve circular por outros festivais antes de chegar ao circuito comercial no segundo semestre. Para o leitor do Salada de Cinema, fica o registro: trata-se de uma obra sincera, com coragem temática e soluções visuais inventivas – ainda que não livre de tropeços de compasso.



