Há filmes que parecem sobreviver a qualquer tendência. “O Mágico de Oz”, lançado em 1939, é um desses raros títulos que atravessam gerações e permanecem relevantes. Depois de quase três décadas longe da TV aberta norte-americana, o musical ganhará nova exibição courtesy da rede MeTV em outubro, revivendo uma tradição iniciada em 1956.
A decisão da emissora chega em meio a um renovado interesse pelo universo de L. Frank Baum, impulsionado, em parte, pelo sucesso de “Wicked” nos palcos e nas futuras adaptações cinematográficas. Para o público, a transmissão significa a chance de rever — ou descobrir — a performance hipnótica de Judy Garland, a direção firme de Victor Fleming e a inovação técnica que transformou o filme em sinônimo de cinema clássico.
Atuações que desafiaram limitações técnicas e físicas
A força de “O Mágico de Oz” repousa, antes de tudo, na entrega do elenco. Judy Garland, então com apenas 16 anos, sustenta a narrativa com uma honestidade pouco comum para a época. A atriz conduz Dorothy Gale da ingenuidade do Kansas preto-e-branco ao deslumbramento da Terra de Oz sem jamais parecer artificial. Seu carisma se torna ainda mais notável quando lembramos das condições adversas do set, famoso por altas temperaturas e figurinos pesados.
Ray Bolger, Jack Haley e Bert Lahr compõem um trio de apoio inesquecível. Bolger, como Espantalho, usa a elasticidade corporal para criar movimentos quase coreográficos, enquanto Haley, vestindo uma armadura nada confortável, entrega ternura ao Homem de Lata. Já Lahr, como o Leão Covarde, oferece timing cômico impecável, equilibrando humor físico e vulnerabilidade. Essa química ajuda a manter o ritmo do musical, algo essencial num longa de 102 minutos que mistura aventura, fantasia e canções.
Do lado sombrio da narrativa, Margaret Hamilton registra uma bruxa malvada que ainda hoje assusta. Seu trabalho vai além do riso maléfico: a atriz impõe presença em cada aparição, destacando-se mesmo sob camadas de maquiagem verde e fumaça cenográfica. Em tempos de discussões sobre construção de vilões carismáticos, seu exemplo permanece valioso para roteiristas contemporâneos e ecoa nos bastidores de produções atuais, como o próximo “Avengers: Doomsday”, cujo elenco busca o mesmo impacto dramático, segundo Kevin Feige.
A direção de Victor Fleming e o roteiro a várias mãos
Victor Fleming assinou a direção pouco depois de finalizar “…E o Vento Levou”, consolidando 1939 como seu ano de ouro. Em “O Mágico de Oz”, o cineasta equilibra melodrama e fantasia sem perder o fio narrativo. A transição radical do sépia inicial para o Technicolor permanece um dos momentos mais icônicos da história do cinema, provando a habilidade de Fleming para usar tecnologia a serviço da narrativa.
O roteiro, creditado a Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf, passa longe de ser mera adaptação literal. Os autores condensam a extensa mitologia de Baum em uma jornada de autoconhecimento, adotando estrutura clara e ritmo quase teatral. A decisão de transformar os sapatos de prata do livro em rubi foi tão eficiente que o acessório virou símbolo pop, protegido por direitos autorais até hoje.
Essa capacidade de reinvenção mantém o filme vivo em discussões acadêmicas e também no mercado. Não por acaso, diretores contemporâneos como Dan Trachtenberg, recém-contratado pela Paramount após “Predator: Badlands” expandem legado próprio observando como Fleming manejou expectativas do estúdio e ousadia artística ao mesmo tempo.
Por que a volta à TV aberta importa em 2024
Entre 1956 e 1998, “O Mágico de Oz” foi presença anual na grade da CBS, virando evento familiar. A exibição de 9 de maio de 1998 marcou a despedida dessa tradição na TV aberta dos EUA. Desde então, o longa circulou por canais pagos, mídias físicas e streaming — atualmente está disponível no catálogo da Max.
A MeTV aposta no valor nostálgico do encontro coletivo diante da televisão. Em uma era dominada por plataformas on-demand, a programação fixa pode parecer anacrônica, mas também cria senso de ocasião. A emissora ainda não divulgou o dia exato de outubro, mas confirma que a sessão terá blocos de intervalos reduzidos, respeitando a fluidez do musical.
Imagem: Cover s via Instar
A estratégia coincide com o anúncio de um documentário sobre os bastidores do clássico, produzido pela Appian Way, de Leonardo DiCaprio. A combinação de exposição televisiva e produto derivado ajuda a manter o filme em evidência e, claro, atrai novas gerações de espectadores. É a mesma lógica aplicada por grandes estúdios ao revisitarem universos consagrados, como o retorno de Chris Evans ao MCU mencionado pelo ator Chris Hemsworth.
Legado crítico e prêmios que consolidaram o clássico
Indicado a cinco Oscars, “O Mágico de Oz” levou duas estatuetas: Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção por Over the Rainbow. A música, interpretada por Garland, sintetiza a proposta emocional do longa e se tornou hino de esperança durante a Segunda Guerra Mundial.
Curiosamente, o filme só se pagou financeiramente após o relançamento de 1949, reforçando a ideia de que algumas obras precisam de tempo para conquistar o público. No aspecto crítico, virou referência de narrativa em Estrada do Herói, influenciando desde sagas de fantasia até animações modernas. Não é coincidência que “The Super Mario Bros. Movie”, fenômeno de bilheteria e streaming, tenha discutido publicamente a importância de voz e direção de atores, conforme noticiado pelo Salada de Cinema em artigo recente.
Do ponto de vista técnico, a fotografia de Harold Rosson fez escola no uso de paleta cromática para diferenciar mundos. Cenários pintados à mão, efeitos práticos e o trabalho de coreografia coletiva antecipam tendências que Hollywood ainda explora em blockbusters de hoje, embora com auxílio de CGI.
Vale a pena assistir ao retorno de “O Mágico de Oz”?
Para quem nunca viu, a exibição na MeTV representa uma oportunidade de consumir o clássico no formato que o popularizou: televisão aberta, em família, num horário fixo. Experienciar o filme dessa forma ajuda a compreender o impacto cultural de quando assistir a um longa era evento social ao vivo.
Os veteranos, por sua vez, podem avaliar como as interpretações resistem ao tempo. Judy Garland continua emocionalmente potente, e os números musicais permanecem divertidos, mesmo comparados a produções recentes que contam com recursos digitais. O design de produção, manual até o limite, reforça a autenticidade visual.
Além disso, a transmissão de outubro prepara terreno para o documentário de DiCaprio e para a inevitável comparação com as versões de “Wicked” a caminho do cinema. Em outras palavras, revisitar “O Mágico de Oz” agora ajuda a contextualizar debates futuros sobre adaptações, direitos autorais e evolução tecnológica.



