Quando Família Soprano encerrou sua última temporada, em 2007, o público ficou à procura de uma história que unisse brutalidade mafiosa e conflitos domésticos com a mesma naturalidade. Passadas quase duas décadas, o clássico da HBO segue sem rivais diretos, mas deixou rastro de ótimas tentativas.
A seguir, o Salada de Cinema apresenta uma seleção com 10 séries que chegaram perto de repetir essa façanha, avaliando o que cada produção entrega em termos de atuação, direção e qualidade de roteiro.
O legado de Família Soprano segue intocado
De 1999 a 2007, a criação de David Chase mudou a forma de contar histórias na TV. A combinação de violência, humor ácido e drama familiar abriu espaço para personagens moralmente ambíguos, hábito absorvido por praticamente toda série criminal posterior.
James Gandolfini estabeleceu novo padrão de interpretação ao viver Tony Soprano, e os roteiros costurados por Chase, Michael Imperioli e Lawrence Konner mostraram que televisão podia ser cinema de luxo em formato seriado.
Criação de anti-heróis: o principal critério para o sucessor perfeito
Para se candidatar ao posto de “próxima Família Soprano”, uma produção precisa oferecer protagonistas complexos, conflitos internos convincentes e, claro, uma construção de mundo crível. Também pesa a assinatura de diretores capazes de equilibrar ação e intimidade sem perder ritmo.
Outro ponto decisivo é o núcleo familiar – biológico ou de lealdade – que reflita as mesmas tensões vistas entre Tony, Carmela e seus capangas. Séries que priorizam essa costura emocional costumam capturar o espírito da trama original.
Imagem: Divulgação
Séries que quase chegaram lá
- Godfather of Harlem – Forest Whitaker transforma Bumpy Johnson num retrato vulnerável e impiedoso, graças ao texto afiado de Chris Brancato e Paul Eckstein. A ambientação na Nova York dos anos 1960 evidencia o racismo sistêmico enquanto expande a mitologia mafiosa.
- Boardwalk Empire – Sob direção frequente de Tim Van Patten, Steve Buscemi encarna Nucky Thompson, político cuja ganância durante a Lei Seca faz o Atlântico City de época parecer um personagem vivo.
- Top Boy – A dupla de showrunners Ronan Bennett e Yvonne Isimeme Ibazebo mergulha em gangues londrinas onde ascensão e queda se confundem, lembrando o ciclo de poder que devorava os aliados de Tony Soprano.
- Tulsa King – Criada por Taylor Sheridan, a série subverte o clichê do capo quando Sylvester Stallone precisa construir nova família criminosa em Oklahoma, lidando com outsiders como um motorista de táxi e um dono de dispensário.
- Animal Kingdom – O roteiro de Jonathan Lisco investe na matriarca Smurf Cody e seus filhos ladrões de cofres, elevando a tensão entre lealdade e autopreservação a patamares chocantes.
- MobLand – Em Londres, Tom Hardy vive Harry Da Souza, mediador entre duas famílias rivais. Sem heróis, a série exibe o mesmo pessimismo moral que consagrou Família Soprano.
- Sons of Anarchy – Kurt Sutter troca ternos italianos por jaquetas de couro, mas mantém a podridão política e a violência gráfica que fizeram Tony Soprano agonizar em divã.
- Peaky Blinders – Steven Knight dirige Cillian Murphy como Tommy Shelby, líder de gangue pós-Primeira Guerra. A fotografia estilizada e a trilha eletrorock criam identidade própria sem sacrificar o drama familiar.
- Gomorra – Baseada na Camorra real, a produção italiana coloca o vácuo de poder e a guerra geracional no centro, em abordagem áspera que ecoa a frieza de David Chase.
- Lilyhammer – Steven Van Zandt sai do papel de Silvio Dante para protagonizar Frank Tagliano, mafioso em programa de proteção na Noruega. O humor deslocado não alcança o peso dramático de Família Soprano, mas oferece curiosa metalinguagem.
O que ainda falta para igualar Família Soprano
Apesar do elenco de peso e da direção sólida presentes em várias das obras listadas, nenhuma conseguiu replicar a fusão quase perfeita entre análise psicológica e suspense violento. Parte disso se deve à ousadia narrativa de David Chase, que recusava fórmulas ao colocar a plateia dentro das sessões de terapia de Tony Soprano.
Também pesa o fator cultural: a série da HBO cristalizou estereótipos, gírias e até receitas familiares que ainda circulam na memória popular. Qualquer sucessor inevitavelmente se vê comparado com um mito. Algumas tentam escapar utilizando sons marcantes – como o icônico rap em trilhas sonoras inesquecíveis –, outras investem em recortes históricos, mas o impacto permanece inatingível.
Vale a pena maratonar agora?
Mesmo sem atingir o mesmo patamar, as dez séries acima oferecem atuações poderosas, direções inventivas e, sobretudo, narrativas que exploram o preço da lealdade em ambientes criminosos. Para quem sente falta das consultas do Dr. Melfi ou das reuniões improvisadas nos fundos do Bada Bing, vale reservar espaço na agenda: cada título entrega dose particular de tensão familiar, armas em punho e dilemas éticos que ainda ecoam no legado de Família Soprano.









