Tom Hanks acaba de somar um marco curioso à sua extensa filmografia: pela primeira vez o ator interpretará um presidente norte-americano. Ele foi escalado para viver Abraham Lincoln em Lincoln no Bardo, adaptação do romance homônimo de George Saunders, vencedor do Booker Prize em 2017.
O projeto, ainda sem data de estreia, terá direção de Duke Johnson – indicado ao Oscar pela animação Anomalisa – e promete misturar cenas em live-action com stop motion. A proposta visual pretende traduzir a atmosfera onírica do livro, que acompanha a noite em que Lincoln, devastado pela morte do filho Willie, transita por um espaço espiritual chamado “bardo”.
Lincoln no Bardo: enredo e formato híbrido
Assim como na obra de Saunders, o roteiro do longa se concentra em poucas horas da vida do presidente. Em meio ao luto, Lincoln adentra um terreno metafísico onde vivos e mortos coexistem, recurso que Johnson explorará pela combinação de técnicas: atores reais interagem com figuras animadas em stop motion, enfatizando a fronteira entre realidade e transcendência.
A filmagem será realizada em Londres, com produção do estúdio Starburns Industries. A capital inglesa oferece infraestrutura para sets modulares e estúdios de captura de movimento, essenciais para a fusão entre as duas linguagens visuais. Para o público, essa mistura pode evocar experiências recentes que brincam com gêneros, a exemplo de Scary Movie 6, paródia que também costura formatos distintos em cartaz.
Tom Hanks assume o papel de Abraham Lincoln
Reconhecido por retratar figuras históricas – Richard Phillips em Capitão Phillips e Fred Rogers em Um Lindo Dia na Vizinhança – Hanks sempre alia carisma a pesquisa minuciosa. Ainda que Lincoln no Bardo marque sua primeira incursão presidencial, o ator já demonstrou domínio em papéis que exigem empatia imediata, traço indispensável para encarnar o “Grande Emancipador” em seu momento mais humano.
A escolha reforça a versatilidade de Hanks, nascido em 9 de julho de 1956, em Concord, Califórnia. Aos 67 anos, ele enxerga o luto paterno como oportunidade de mostrar nuances raramente exploradas em outras cinebiografias de Lincoln, como o clássico Lincoln, de Steven Spielberg. Além de atuar, Hanks produzirá o filme através da Playtone, repetindo a parceria de longa data com o colega Gary Goetzman.
A visão de Duke Johnson e a equipe criativa
Duke Johnson ganhou holofotes com Anomalisa, obra que empregou bonecos articulados para discutir solidão adulta. Em Lincoln no Bardo, a stop motion assume novo significado: representa as almas presas no estado de transição entre vida e renascimento. A direção de arte pretende contrastar ambientes sombrios do cemitério com o Salão Leste da Casa Branca, criando camadas temporais que dialogam com o roteiro experimental.
Integram a produção Paul Young e Devon Young Rabinowitz, enquanto George Saunders participa como produtor executivo, garantindo fidelidade à narrativa literária. A supervisão do autor deve manter intacta a estrutura coral do livro, composto por vozes fantasmagóricas que comentam as ações do presidente. Para quem acompanha o Salada de Cinema, a presença do próprio escritor sugere adaptação menos convencional que biografias lineares.
Imagem: Divulgação
Impacto cultural e comparações recentes
Abraham Lincoln continua a instigar diferentes gerações de cineastas. Nos últimos anos, Daniel Day-Lewis conquistou prêmio por sua interpretação em Lincoln, e Hamish Linklater reviveu o líder em Manhunt. A chegada de Tom Hanks acrescenta nova camada: o foco deixa de ser a política de guerra civil para examinar, quase em tempo real, a dor de um pai.
Aos olhos do mercado, o longa deve tornar-se referência em filmes híbridos, assim como projetos que inauguram fases inéditas de franquias – caso de Evil Dead Wrath, que já iniciou filmagens no exterior. A expectativa gira em torno do equilíbrio entre a expressividade física de Hanks e a plasticidade dos bonecos, recurso que pode influenciar futuras produções históricas a experimentarem novas linguagens.
Vale a pena ficar de olho em Lincoln no Bardo?
Para fãs de cinebiografias, Lincoln no Bardo oferece abordagem rara: ver o presidente mais célebre dos Estados Unidos lidando com sua fragilidade, sem discursos grandiosos ou batalhas épicas. O formato híbrido promete uma experiência imersiva que amplia o drama íntimo de Lincoln.
A presença de Tom Hanks, associado a papéis de forte ressonância emocional, sinaliza uma interpretação contida, porém potente. O ator deve explorar silenciosamente as contradições de um líder que, em público, representava firmeza, mas em privado enfrentava o peso do luto.
Somado à direção inventiva de Duke Johnson e à participação direta de George Saunders, o projeto desponta como uma das apostas mais curiosas dos próximos anos. Mesmo sem data definida, Lincoln no Bardo já figura na lista de lançamentos aguardados por cinéfilos que buscam narrativas ousadas e performances memoráveis.









