Jonathan Frakes volta à ponte da USS Enterprise e entrega, em “Uma Hora de Aventura no Espaço” (A Space Adventure Hour), um dos capítulos mais peculiares da terceira temporada de Star Trek: Strange New Worlds. A aposta é alta: misturar mistério de assassinato em clima noir com a já tradicional ameaça cósmica.
O resultado dividiu o fandom, mas oferece um prato cheio para quem aprecia experimentos narrativos, atuações caricatas e referências metalinguísticas à gênese da franquia criada por Gene Roddenberry.
Enredo mistura mistério noir e ameaça cósmica
No quarto episódio da temporada, a Enterprise testa um holodeck experimental. É nesse palco que o roteiro despeja um caso de assassinato digno de Raymond Chandler: a detetive durona Amelia Moon, avatar de La’an Noonien-Singh (Christina Chong), precisa descobrir quem matou uma produtora de cinema antes que o jogo de faz de conta vire carnificina real.
Enquanto pistas se acumulam entre cigarros imaginários e drinques com gelo cenográfico, um segundo perigo se ergue do lado de fora: a nave encontra-se à mercê de uma estrela de nêutrons. Frakes costura as duas linhas narrativas com cortes rápidos, preservando a sensação de relógio correndo contra o tempo — recurso que já havia usado com sucesso no celebrado crossover “Those Old Scientists”.
Jonathan Frakes imprime ritmo de cinema clássico
Conhecido por manter o set leve e incentivar improvisos, Frakes abraça o tom de “pastiche” desde o primeiro quadro. Os enquadramentos mergulham em sombras duras, lâmpadas de mesa e persianas projetadas nas paredes, evocando O Falcão Maltês tanto quanto o universo trekker. A trilha, pontuada por metais abafados, reforça a atmosfera de Hollywood anos 40.
Essa combinação de homenagem e paródia carrega energia semelhante à de produções que também flertam com gêneros clássicos, como a caótica série Scarpetta. Frakes, porém, substitui o suspense high-tech por um charme artesanal, deixando claro o prazer quase infantil de vestir seus atores com chapéus fedora e vestidos de franjas.
Elenco se diverte em papéis de fantasia hollywoodiana
O maior deleite do capítulo está no elenco titular brincando de teatro dentro do teatro. Anson Mount, como o angustiado produtor TK Bellows, canaliza traços do próprio Gene Roddenberry — vaidade temperada por idealismo. Rebecca Romijn vira Sunny Lupino, dama durona que piscaria para Lucille Ball se pudesse, enquanto Christina Chong, livre do sotaque britânico, exibe um inglês americano impecável ao encarnar a detetive central.
Entre os coadjuvantes, Paul Wesley rouba a cena ao replicar o gingado confiante de William Shatner em Maxwell Saint, astro galante que faz o próprio Capitão Kirk parecer humilde. Já Martin Quinn surge como Scotty e, apesar do pouco tempo, prova que está pronto para aventuras maiores, equilibrando confusão e genialidade mecânica.
Imagem: Divulgação
As trocas de sotaque rendem momentos impagáveis: Jess Bush adota seu timbre australiano, Babs Olusanmokun solta um britânico carregado e Melissa Navia lembra o Dr. McCoy em versão rabugenta. Essa entrega coletiva cria um efeito semelhante ao visto na recente segunda temporada de One Piece, em que o elenco se diverte tanto que contagia o público.
Por que o episódio dividiu o público?
Pela primeira vez, o holodeck — tecnologia associada ao século 24 — aparece na cronologia de Pike. O roteiro até oferece justificativa, mas muitos fãs canônicos torceram o nariz. Além disso, a história alterna tons de farsa, romance platônico e tragédia espacial, parecendo, em alguns momentos, três episódios espremidos em um.
Some-se a isso o timing de produção: boatos apontam que o texto sofreu ajustes durante a greve de roteiristas de 2023. Mesmo assim, Frakes descreveu o resultado como “a melhor hora de TV” que já dirigiu. O veterano talvez enxergue algo que parte do público não viu — a mesma ousadia que levou séries como Evil a ganhar força justamente por desafiar fórmulas.
Vale a pena assistir A Space Adventure Hour?
“Uma Hora de Aventura no Espaço” não busca unanimidade. O capítulo presta reverência à era de ouro do cinema, parodia os bastidores de Star Trek e ainda arruma tempo para um romance dançado entre La’an e Spock. Quem embarcar no holodeck com espírito lúdico encontrará 55 minutos de puro entretenimento, embalados pela direção segura de Jonathan Frakes e por um elenco que se diverte tanto quanto o espectador.
Para o Salada de Cinema, fica a sensação de que riscos assim mantêm viva a chama da exploração — afinal, arriscar sempre foi o negócio da Frota Estelar.









