As Cores do Mal: Preto não é baseado em um caso real específico — mas dizer que a história é pura invenção seria subestimar o trabalho da escritora polonesa Małgorzata Oliwia Sobczak. O filme disponível na Netflix em 2026 parte de um romance que mistura folclore regional, violência histórica e uma referência indireta a um dos serial killers mais conhecidos da América Latina. O resultado é uma ficção construída sobre camadas reais — e entender essas camadas muda a forma de assistir.
Ficção construída sobre terreno real: o que Sobczak foi buscar na Kashúbia
A segunda obra da trilogia As Cores do Mal nasceu depois que Sobczak se mudou para a Kashúbia, região no norte da Polônia com identidade cultural própria, língua regional e uma tradição folclórica que ainda circula entre os mais velhos. Foi lá que ela encontrou as histórias sobre os Łopi e os Wieszcz — criaturas do imaginário local ligadas à ideia de que certos mortos podiam retornar à vida.
Segundo antigas crenças kashúbias, existiam rituais específicos para impedir esse retorno. Sobczak não usou esse folclore como enfeite gótico: ele estrutura a lógica sombria da comunidade retratada no livro e no filme, onde segredos atravessam gerações e o medo do passado molda o comportamento dos vivos. A autora também recorreu a referências históricas da Polônia para dar peso ao cenário — combinando fatos documentados, tradições orais e elementos de suspense criminal.

O Monstro dos Andes entrou na história, mas não como modelo direto
O ponto mais delicado da construção de As Cores do Mal: Preto é a relação com Pedro López, o colombiano conhecido como o Monstro dos Andes — condenado pelo assassinato de dezenas de meninas entre as décadas de 1970 e 1980, considerado um dos serial killers com maior número de vítimas na história da América Latina.
No romance de Sobczak, o assassino fictício recebe o apelido de Monstro de Kartuzy — uma referência direta ao caso López. A autora, no entanto, deixou claro que López não serviu como modelo psicológico ou biográfico para o personagem. A conexão é pontual: alguns detalhes específicos do caso real foram incorporados, mas o criminoso fictício tem motivações, contexto e trajetória próprios. Esse é um detalhe importante para o espectador que chega ao filme esperando uma reconstituição documental — não é isso que está na tela.
Essa distinção entre “inspiração indireta” e “baseado em fatos reais” tem consequências narrativas. Quando um thriller se apresenta como ficção com influências reais, o autor tem liberdade para reorganizar causas e consequências, amplificar elementos dramáticos e criar resoluções que casos reais raramente oferecem. Em As Cores do Mal: Preto, isso permite que a investigação do promotor funcione como motor narrativo sem precisar respeitar os limites de um processo judicial específico.

O que torna a trama tão perturbadora não é o crime em si
A pergunta que o filme levanta — e que vai além da questão sobre fatos reais — é como uma comunidade inteira pode encobrir violência por décadas. Sobczak afirmou que tinha interesse em explorar como preconceito, abuso e silêncio se perpetuam dentro de grupos fechados. Esse eixo temático tem respaldo em casos documentados ao redor do mundo, mesmo que nenhum caso específico tenha sido adaptado.
A investigação do desaparecimento de uma criança serve como ponto de entrada para expor esse sistema de cumplicidade silenciosa. O folclore da Kashúbia, com seus rituais e crenças sobre os mortos, funciona como metáfora para o que a comunidade prefere enterrar em vez de enfrentar. É ficção, mas o mecanismo social que retrata é reconhecível — e é isso que gera o desconforto que muitos espectadores relatam ao assistir.
Vale lembrar que o filme é sequência de As Cores do Mal: Vermelho, que chegou a ocupar a primeira posição no ranking de filmes da Netflix. A continuação herda o tom e aprofunda o universo criado por Sobczak, com uma narrativa que exige do espectador a mesma disposição para lidar com camadas morais ambíguas.
O que fica claro depois de entender a origem da história
Em resumo: As Cores do Mal: Preto é ficção baseada em livro original, não em um caso policial real. Mas a autora foi buscar material no folclore da Kashúbia, na psicologia de crimes documentados e na história polonesa para construir uma narrativa que ressoa como real — e essa ressonância é intencional. Sobczak não quis recontar um crime; quis entender o ambiente que permite que crimes como esses aconteçam e se repitam.
Para quem chegou ao filme pela atmosfera e ficou com a sensação de que aquilo poderia ter acontecido de verdade: essa sensação é o resultado de uma construção literária cuidadosa, não um indício de que há um caso real por trás. A ficção bem feita frequentemente produz esse efeito — e no caso desta franquia, parece ser exatamente o objetivo.
Informações complementares: Netflix.









