Em Hollywood, cada nova bilheteria disputa atenções com universos compartilhados, refilmagens e longas bem acima das duas horas. No entanto, um grupo de espectadores resolveu colocar o pé no freio: a Geração Z. Nascidos entre 1997 e 2012, esses jovens já reclamavam de enredos reciclados; agora, voltam o foco para algo ainda mais profundo — a forma como os homens são retratados na tela.
Um levantamento recém-divulgado pela UCLA mostra que esse público quer ver protagonistas capazes de chorar, pedir ajuda e demonstrar afeto, sobretudo como pais. A mensagem é direta: hiper-masculinidade saiu de moda, e roteiristas precisam rever seus conceitos se não quiserem perder a audiência que mais consome streaming no planeta.
Mudança de paradigma: o que revela a pesquisa da UCLA
O Centro de Estudos e Contadores de Histórias (CSS) adicionou perguntas específicas ao relatório “Teens & Screens 2025”, ouvindo 1.500 jovens de 10 a 24 anos em todo o território norte-americano. Publicado sob o título “Gen Alpha and Gen Z: Evolving Masculinity”, o documento apresenta números difíceis de ignorar: quase 60% dos entrevistados pedem representações de paternidade alegre, com pais que expressem carinho abertamente.
Além disso, 46% afirmam querer histórias nas quais homens busquem ajuda, inclusive para saúde mental. Essa fatia é significativa, pois sinaliza uma tendência de mercado: tramas que reforçam velhos arquétipos do “macho solitário” encontram cada vez menos ressonância entre adolescentes e jovens adultos.
Personagens em transição: de Ryan Gosling a Tony Soprano
Apesar de ainda existirem títulos baseados no herói invencível, alguns intérpretes já flertaram com a vulnerabilidade que o público deseja. Ryan Gosling, por exemplo, entrega em “Drive” um motorista taciturno cuja força reside justamente nos momentos de silêncio e fragilidade. Em contrapartida, Tony Soprano, figura icônica da televisão, passou seis temporadas alternando violência e sessões de terapia, antecipando essa guinada para a complexidade emocional.
Atuações assim mostram que dureza e ternura podem coexistir, criando homens tridimensionais. O estudo da UCLA indica que esse equilíbrio deve se tornar regra, não exceção. Para roteiristas, surge a necessidade de construir arcos que permitam quedas e recomeços, enquanto diretores buscam performances mais intimistas, algo que Kenneth Branagh já aplicou ao explorar memórias de infância em “Belfast”.
Impacto para roteiristas e diretores: narrativas em reinvenção
Ao acompanhar produções recentes, fica claro que a pressão por masculinidade evolutiva já reverbera nos bastidores. Salada de Cinema conversou com profissionais que relatam maior presença de consultores de representatividade nas salas de roteiro, movimento semelhante ao que ocorreu com diversidade étnica nos últimos anos.
Além das salas de roteiro, a direção de elenco passa a buscar atores dispostos a expor fragilidades na tela. Esse processo dialoga com franquias enormes; David Harbour revelou, durante as refilmagens de “Vingadores: Juízo Final” em Londres, que recebeu orientações para equilibrar bravura e empatia em cada cena. Ou seja, até blockbusters estão atentos ao novo manual.
Imagem: Divulgação
Recepção da audiência: Geração Z e Alpha na linha de frente
Para os jovens entrevistados, paternidade afetuosa lidera o ranking de desejos — dado que ecoa em séries como “The Last of Us”, na qual Pedro Pascal interpreta um pai relutante que aprende a demonstrar cuidado. Outro pedido forte é ver homens expressando emoção em público, algo já presente em “Downton Abbey: O Grande Final”, que acaba de chegar à Netflix, conforme noticiamos na estreia do longa.
Essa recepção calorosa a personagens multifacetados confirma o diagnóstico da UCLA: a figura do herói estoico — típico dos anos 80 — precisa dividir espaço com pais carinhosos, amigos vulneráveis e amantes dispostos a pedir socorro. Estúdios que captarem o recado terão vantagem competitiva num cenário cada vez mais segmentado.
Vale a pena ficar de olho nessas novas tramas?
Se a pesquisa estiver correta, o público será o maior beneficiado. Narrativas que abraçam masculinidade plural tendem a entregar conflitos mais ricos, interpretações nuançadas e, consequentemente, filmes mais memoráveis. Para quem acompanha premiações, essa complexidade também aumenta as chances de performances masculinas figurarem em listas de indicados.
Do ponto de vista artístico, roteiristas ganham licença para arriscar: podem explorar homens em crise, pais que erram, filhos que choram e amigos que se apoiam — tudo sem medo de parecer “fraco”. A própria indústria reconhece que há espaço para força e ternura na mesma história; basta encontrar equilíbrio.
Portanto, acompanhar a resposta de Hollywood a essa demanda da Geração Z é praticamente obrigatório para qualquer cinéfilo. Afinal, a maneira como heróis e anti-heróis serão escritos nos próximos anos dirá muito sobre os rumos das produções que chegarão às salas de exibição e às plataformas de streaming.



