Os dramas televisivos asiáticos, popularmente conhecidos como doramas, vêm atraindo atenção global muito além dos romances açucarados. Uma das principais razões é a maneira como os protagonistas homens vêm sendo retratados, especialmente quando ganham vida a partir de roteiros assinados por mulheres.
A remodelação desses personagens masculinos de doramas criados por roteiristas mulheres revela um movimento que valoriza vulnerabilidade, empatia e complexidade. O resultado são figuras com as quais é impossível não se identificar, seja pelas crises internas ou pela maneira delicada como encaram afetos e adversidades.
Escrita feminina e masculinidade em transformação
Ao assumir o comando dos roteiros, as escritoras têm desafiado o arquétipo do “herói indestrutível”. Em vez de escudos emocionais impenetráveis, elas expõem rachaduras que tornam cada gesto do protagonista mais humano. Da mesma forma que Guy Ritchie reconstruiu Sherlock Holmes em uma aventura adolescente em Young Sherlock, roteiristas coreanas mostram que a reinvenção de mitos masculinos pode render narrativas frescas e surpreendentes.
No drama It’s Okay to Not Be Okay, por exemplo, o personagem Da-kyung — conduzido pela pena feminina — encara seus próprios demônios sem medo de chorar ou demonstrar afeto. Essa franqueza emocional se converte em força dramática, distanciando-o da figura habitual do galã impassível e aproximando-o do espectador contemporâneo, que reconhece na tela dilemas reais sobre saúde mental e autorresponsabilidade.
Atuação que dá corpo à sensibilidade
Texto rico pede atuação afinada. Não por acaso, os atores escalados para esses papéis abraçam a missão de descontruir a masculinidade tradicional. Lee Sun-kyun, em My Mister, entrega uma performance minimalista que amplifica silenciosamente a dor de um homem exausto pelo trabalho e pelos laços familiares frágeis. Cada suspiro, cada olhar demorado, transforma pequenas cenas em retratos pungentes de solidão urbana.
Já em It’s Okay to Not Be Okay, a escolha de um protagonista capaz de alternar entre raiva contida e carinho quase infantil reforça o sublinhado do roteiro: todo homem carrega traumas que merecem ser escutados. O sucesso dessas interpretações lembra o impacto de Kevin Spacey em House of Cards, série analisada pelo Salada de Cinema em um texto especial; ambos os casos mostram como a entrega cênica pode redefinir o modo como o público vê figuras de poder ou, no caso dos doramas, de afeto.
Direção aliada ao texto: quando a câmera reforça a emoção
A sensibilidade imprimida no roteiro e na atuação ganha mais camadas quando a direção escolhe planos fechados em momentos de fragilidade ou usa silêncio como recurso narrativo. Essa sintonia entre imagem e palavra vem se tornando marca dos doramas recentes.
Imagem: Ana Lee
Em My Mister, a fotografia fria contrasta com momentos de calor humano, criando uma atmosfera que espelha a jornada interna do protagonista. A opção por cenários mundanos — escritórios opressivos, ruas pouco iluminadas — reforça o tom melancólico, enquanto close-ups prolongados escancaram cada fissura emocional.
Impacto cultural e diálogo com o público jovem
Esses personagens masculinos de doramas criados por roteiristas mulheres não ficam restritos à ficção. Ao exibirem homens que pedem desculpas, choram ou admitem fraquezas, eles dialogam com uma juventude que rejeita padrões rígidos de gênero. Assim, a tela vira espelho e manual não oficial de novas masculinidades.
Tal fenômeno lembra o percurso de séries clássicas que moldaram debates geracionais, como Star Trek — universo que recentemente ganhou nova análise em Starfleet Academy. A diferença é que, nos doramas, a transformação ocorre no espaço íntimo das emoções cotidianas, tornando a mudança ainda mais palpável.
Vale a pena assistir aos doramas que reinventam os homens?
A resposta reside na experiência de ver protagonistas que soam autênticos enquanto enfrentam dilemas comuns: insegurança, trabalho exaustivo, traumas de infância. Para quem busca narrativas que questionam antigos estereótipos sem perder o encanto romântico, as produções analisadas oferecem um prato cheio — ou melhor, uma verdadeira salada de cinema emocional.









