Uma aliança considerada impossível durante quase quatro décadas acaba de se concretizar nas páginas de Star Trek: The Last Starship #5. O novo capítulo do quadrinho da IDW Publishing oficializa a entrada dos Borg na Federação, encerrando uma rivalidade que ditou boa parte da mitologia da franquia.
Escrito por Collin Kelly e Jackson Lanzing, com arte de Adrian Bonilla, o número marca ainda o retorno de Agnes Jurati, agora líder de uma Cooperativa Borg que pretende reconstruir a galáxia devastada após o Burn. A decisão reabre dilemas éticos antigos, traz à tona lembranças do massacre de Wolf 359 e finca um novo marco narrativo para futuros projetos do universo Star Trek.
A virada histórica: Borg aceitos na Federação
Desde o primeiro confronto, os Borg simbolizavam tudo o que a Frota Estelar tentava evitar: assimilação forçada, homogeneização cultural e apagamento da individualidade. O quadrinho mostra, porém, que a crise provocada pelo Burn mudou as regras do jogo. Na conferência de paz em Babel, uma das poucas instâncias políticas ainda ativas, Jurati declara que sua Cooperativa já faz parte da Federação e “só quer o melhor para todos”.
A cena, narrada com quadros amplos que destacam o salão lotado de embaixadores, evidencia o choque dos demais delegados. A reação do representante ferengi, principal opositor da medida, sintetiza um medo coletivo: até que ponto um grupo com histórico de atrocidades pode ser confiável? A obra não oferece respostas fáceis, mas planta a semente de histórias futuras ao questionar se o passado beligerante dos Borg permitirá uma convivência pacífica.
Agnes Jurati assume liderança e redefine o coletivo
Introduzida em Star Trek: Picard, Jurati ress surge nos quadrinhos transformada em uma espécie de rainha benevolente. O roteiro destaca como ela utiliza sua experiência humana para guiar a Cooperativa por caminhos menos violentos. Ao defender a causa Borg diante da Assembleia, a personagem argumenta que diversidade e consenso não precisam ser mutuamente excludentes.
Kelly e Lanzing mantêm o foco na humanidade da cientista, evitando transformá-la em vilã ou salvadora absoluta. O texto aposta em diálogos curtos, reforçando a tensão política enquanto Bonilla combina planos fechados no rosto de Jurati com panorâmicas do coletivo, criando um contraste visual entre empatia individual e consciência coletiva.
O papel de Kirk na reconstrução pós-Burn
Um dos ganchos mais curiosos de The Last Starship é a ressurreição do Capitão Kirk, vista nos números anteriores. Para a Cooperativa Borg, o oficial lendário representa um símbolo capaz de unir facções dispersas da Frota em meio à desordem deixada pelo Burn. A edição #5 aprofunda a ideia ao mostrar que a imagem de Kirk ainda inspira tanto esperança quanto receio em diferentes povos.
Enquanto a Federação debate a legitimidade dos Borg, Kirk funciona como âncora emocional, lembrando a todos de valores clássicos como diplomacia e curiosidade científica. O quadrinho não se detém em explicações técnicas sobre o retorno do capitão, mas posiciona o personagem como peça-chave na balança política galáctica — um aceno que ecoa até outras obras do cânone, como a recente conexão secreta em Starfleet Academy.
Imagem: Divulgação
Roteiro e arte: como Kelly, Lanzing e Bonilla sustentam o choque
O trabalho de Collin Kelly e Jackson Lanzing destaca-se pela capacidade de resgatar um fio narrativo abandonado em Picard e levá-lo a consequências lógicas. A decisão de colocar os Borg dentro da Federação soa ousada, mas o texto avança com cuidado, sempre lembrando tragédias históricas como Wolf 359 para manter viva a tensão. O ritmo é dinâmico, alternando bastidores políticos com breves sequências de ação que mantêm a leitura fluida.
Na arte, Adrian Bonilla usa paletas frias para representar o coletivo Borg e tons quentes para personagens da Federação, reforçando visualmente o choque cultural. As expressões faciais são detalhadas o bastante para transmitir medo, ansiedade e desconfiança sem sobrecarregar os balões de fala. O resultado é um equilíbrio que favorece a imersão e amplia o alcance dramático da edição.
Vale a pena acompanhar a saga?
Para quem acompanha Star Trek desde a série clássica ou descobriu o universo mais recentemente, The Last Starship #5 oferece um ponto de virada histórico e cheio de possibilidades. Ao integrar os Borg à Federação, o quadrinho inaugura uma fase em que velhos inimigos tornam-se aliados incômodos, abrindo espaço para dilemas morais instigantes.
Embora a narrativa exija familiaridade mínima com eventos de Picard e com o Burn, o roteiro fornece contexto suficiente para novos leitores. Se a proposta de política interestelar misturada a ficção científica é o que atrai você, vale conferir como Kelly, Lanzing e Bonilla estão expandindo a franquia — e, de quebra, prestigiar mais um trabalho analisado aqui no Salada de Cinema.
No fim, a edição cumpre o que promete: altera drasticamente o status quo de Star Trek e deixa perguntas em aberto sobre o futuro da série. Isso, por si só, já torna a leitura imperdível para quem gosta de grandes viradas de roteiro.



