O polêmico documentário Melania estreou nos cinemas norte-americanos com números que chamaram atenção: foram US$ 7,2 milhões no primeiro fim de semana, a melhor abertura doméstica para um longa não musical do gênero em dez anos. Nem mesmo esse arranque, contudo, foi capaz de manter o fôlego da produção nas semanas seguintes.
Dirigido por Brett Ratner e centrado na figura da ex-primeira-dama dos Estados Unidos, o filme mergulha em bastidores da Casa Branca e da campanha de 2016, com depoimentos de Melania Trump e do ex-presidente Donald Trump. Entre aclamações acaloradas de parte do público e críticas ferozes da imprensa especializada, o título se tornou um case de estudo para entender como a recepção aos personagens supera, ou suprime, qualquer pretensão artística.
Bilheteria em ascensão rápida — e queda ainda mais veloz
Depois do fim de semana de estreia, Melania enfrentou um tombo de 66% na segunda semana, encerrando o período com estimados US$ 2,43 milhões. O total acumulado chegou a US$ 13,4 milhões, quantia suficiente para colocar o documentário na décima posição das maiores bilheterias domésticas da recém-formada Amazon MGM Studios.
O feito, embora significativo, esbarra em um orçamento atípico para filmes do gênero. A gigante do streaming pagou US$ 40 milhões pelos direitos de distribuição e investiu cerca de US$ 35 milhões em marketing. Especialistas projetam que o ponto de equilíbrio esteja entre US$ 40 milhões e US$ 45 milhões, meta distante diante do ritmo atual de ingressos vendidos.
Vale lembrar que o Top 10 do estúdio inclui títulos ainda inéditos ou recém-lançados, como o live-action Masters of the Universe, previsto para junho. Por isso, há expectativa de que Melania seja rapidamente empurrado para fora da lista, principalmente quando chegarem apostas como Crime 101 e Project Hail Mary.
Direção de Brett Ratner: ritmo seguro, mas pouca ousadia
Ratner volta ao circuito depois de um hiato, imprimindo ao documentário um estilo linear, quase televisivo. A narrativa se apoia em entrevistas de arquivo e imagens de campanha, alternando cenas íntimas da ex-primeira-dama com comentários de assessores e ex-colaboradores. O material, embora bem organizado, carece de frescor visual.
Falta, por exemplo, maior exploração de linguagens contemporâneas do gênero, como colagens multimídia ou uso de animações, técnicas vistas em longas recentes que ajudaram o documentário a dialogar com públicos mais jovens. Esse ponto fraco ganhou destaque em resenhas que compararam Melania a produções recentes sobre figuras pop e movimentos sociais, muito mais inventivas em estética.
O roteiro, assinado por um trio de colaboradores frequentes do diretor, opta por seguir ordem cronológica, começando na infância de Melania na Eslovênia e chegando aos dias pós-Casa Branca. A estrutura, apesar de clara, foi criticada por evitar confrontar as controvérsias envolvendo a família Trump, o que, segundo analistas, compromete a coragem editorial do projeto.
Donald e Melania Trump em cena: atuação espontânea ou performance calculada?
Mesmo se tratando de um documentário, a presença de Donald Trump confere um caráter de “dupla protagonista” ao filme. Nos trechos de novas entrevistas, ele surge confiante, relembrando estratégias de campanha enquanto tenta reforçar a imagem de marido protetor. A dinâmica entre o casal cria momentos de tensão e revela divergências sutis sobre o papel de Melania na política.
Ela, por sua vez, oscila entre a reserva conhecida e um discurso mais assertivo, assumindo protagonismo quando fala da relação conturbada com a imprensa. Essa postura rende sequências genuinamente intrigantes, sobretudo quando a ex-modelo discute o famoso discurso “Be Best”. Ainda assim, críticos apontam que seu depoimento parece guiado por uma narrativa de autocontrole que limita a espontaneidade.
Imagem: Divulgação
A interação dos dois levanta questionamentos sobre autenticidade. Seriam relatos francos ou apenas mais um exercício de comunicação estratégica? Essa dúvida alimenta o interesse do público, mas também reforça o ceticismo dos analistas, refletido na nota de 1,3 registrada no IMDb, empatando o filme com títulos notoriamente rejeitados pelo público, como Foodfight!.
Nem todos os indicadores são negativos. No Rotten Tomatoes, usuários atribuíram status de “Hot Popcorn”, avaliando a obra de forma bastante positiva. A plataforma precisou, inclusive, rebater boatos de manipulação de notas, conforme detalhado no artigo sobre suspeitas de bots. A controvérsia, por si só, ampliou a repercussão do longa.
Como o documentário entrou no Top 10 da Amazon MGM Studios
A performance de Melania é resultado de três fatores centrais. Primeiro, a agenda vazia de grandes estreias no final de janeiro de 2026, que abriu espaço para o título ocupar salas premium. Segundo, a notoriedade do nome Trump, capaz de transformar qualquer lançamento em evento midiático. Terceiro, o posicionamento estratégico da Amazon MGM, que usou intensa campanha digital para converter a curiosidade em venda de ingressos.
Mesmo assim, a matemática permanece desfavorável. O investimento total, estimado em US$ 75 milhões, coloca o documentário entre as produções mais caras do estúdio, superando dramas e até algumas superproduções de gênero. Se depender apenas das salas de cinema, a obra dificilmente atingirá o ponto de equilíbrio.
A tendência é que a empresa foque na janela de streaming para prolongar a vida comercial do filme. O histórico da plataforma mostra que longas exclusivos conseguem atrair assinantes, caso de thrillers de terror como Iron Lung, fenômeno recente que testou o apetite do público por experiências intensas e controversas.
Vale a pena assistir ao documentário Melania?
Para quem busca um retrato oficial e controlado da trajetória de Melania Trump, o longa cumpre seu papel, trazendo depoimentos inéditos e acesso privilegiado a figuras centrais do governo anterior. Já o espectador interessado em investigação profunda ou linguagem inovadora pode se frustrar diante de uma narrativa que prefere a segurança ao risco.
As atuações diante das câmeras — ainda que espontâneas — funcionam como termômetro do carisma do casal, mas não disfarçam o tom de autopromoção presente em várias passagens. Ratner entrega um filme tecnicamente correto, sem o brilho visual que se espera de uma produção tão cara.
Em última instância, Melania se torna relevante mais pelo debate que provoca do que pelos recursos cinematográficos que oferece. E, para o Salada de Cinema, esse fator basta para colocá-lo no radar de qualquer cinéfilo interessado em entender como política, imagem pública e bilheteria se misturam na Hollywood contemporânea.









