Um abismo de quase cem pontos separa crítica e plateia na avaliação de “Melania”, documentário de Brett Ratner que retrata a ex-primeira-dama dos Estados Unidos. Enquanto 46 críticas profissionais cravaram 7 % de aprovação no Rotten Tomatoes, mais de mil ingressos verificados sustentam impressionantes 99 % de aprovação popular.
Diante da disparidade, surgiram teorias sobre exércitos de perfis automatizados turbinando o índice de audiência. A resposta da Versant, empresa-mãe do agregador, foi direta: não há prova de manipulação, todos os comentários exibidos passaram pelo sistema de verificação de compra de ingressos.
Diferença de 92 pontos: como o público elevou “Melania” no Rotten Tomatoes
Os números falam por si. Lançado nos cinemas em 30 de janeiro de 2026, o longa acumula 7 % de aprovação entre especialistas e 99 % entre espectadores, a maior discrepância já registrada pela plataforma, segundo dados compilados pela Rolling Stone. Para efeito de comparação, “The Godfather” estaciona em robustos 98 % na métrica popular.
A lógica é simples: quem compra ingresso costuma ter afinidade prévia com o tema. No caso de “Melania”, esse público majoritário tende a apoiar politicamente Donald Trump e, consequentemente, a protagonista. Ao contrário das suspeitas levantadas em monólogos televisivos — Jimmy Kimmel ironizou o ranking em seu talk show —, a Versant garante que todo voto vem de usuário autenticado.
Direção de Brett Ratner busca intimidade, mas enfrenta resistência da crítica
Brett Ratner, mais conhecido por sucessos de ação, investe em uma estrutura que mescla entrevistas, bastidores da Casa Branca e cenas de arquivo para construir a narrativa de “Melania”. O cineasta assume postura reverente: câmeras próximas, trilha sonora discreta e ritmo que privilegia depoimentos emotivos.
Críticos, porém, acusam o documentário de evitar questionamentos duros. Falta de contrapontos, edição considerada “inofensiva” e roteiro que beira o hagiográfico foram apontados em textos de jornais de Los Angeles a Londres. Essa percepção explica, em parte, o percentual tão baixo na avaliação profissional e reforça o debate sobre curadoria de histórias políticas no cinema.
A “atuação” de Melania e Donald Trump diante das câmeras
Em um documentário, personagens reais também “interpretam” versões de si mesmos. Melania Trump surge como narradora de sua trajetória, alternando momentos de vulnerabilidade — infância na Eslovênia — com defesas firmes de decisões polêmicas da época de primeira-dama. Sua presença é contida, marcada por pausas longas e olhar firme, o que alguns críticos chamam de “silenciosa, porém calculada”.
Donald Trump, por sua vez, participa pontualmente, adotando o tom já conhecido de comícios e entrevistas: frases de efeito, autoconfiança e um humor que resvala na autopromoção. A dinâmica do casal sustenta boa parte do tempo de tela, compensando a ausência de figuras externas que ofereçam nova perspectiva sobre os fatos.
Imagem: Divulgação
Para quem acompanha discussões recentes sobre performances documentais — como no musical filmado “Wicked: For Good” que também alimentou debates a respeito de atuação e direção —, “Melania” serve de exemplo de como a presença de protagonistas carismáticos pode influenciar a percepção do público, indiferente ao olhar crítico de especialistas.
Bilheteria modesta e orçamento robusto indicam futuro incerto para “Melania”
Com produção estimada em 40 milhões de dólares e outros 35 milhões investidos em marketing, “Melania” precisa alcançar aproximadamente 150 milhões para se pagar. O primeiro fim de semana rendeu 7 milhões nos Estados Unidos, cifra que subiu para 10 milhões mundialmente na semana seguinte, ainda distante do ponto de equilíbrio.
Ainda assim, a Amazon MGM ampliou a exibição para 2 mil salas em 3 de fevereiro, numa tentativa de capitalizar a curiosidade gerada pelo burburinho online. O movimento ocorre dias depois de a empresa suspender uma exibição em um cinema de Oregon após piadas projetadas no letreiro, sinal de que a obra atrai tanto apoiadores quanto detratores.
Vale a pena assistir ao documentário “Melania”?
Para quem busca um retrato elogioso e próximo de Melania Trump, o filme cumpre o prometido. A direção de Ratner concede espaço para que a ex-primeira-dama se apresente sem interrupções, apostando em estética polida e fotografia que valoriza ambientes luxuosos.
Já o espectador interessado em investigação jornalística talvez se frustre. Faltam perguntas incômodas sobre passagens controversas do casal, e a montagem evita momentos de conflito. O resultado é um longa tecnicamente competente, porém limitado em profundidade.
Entre apoios fervorosos do público e críticas duríssimas da imprensa, “Melania” nasce como um dos lançamentos mais divisivos do ano. Resta saber se a força do boca a boca — e a curiosidade sobre o fenômeno de 99 % no Rotten Tomatoes — será suficiente para transformar o documentário em case de sucesso ou em lição de investimento arriscado para a Amazon MGM.



