A minissérie italiana Sandokan chegou silenciosa à Netflix e, em poucas semanas, tomou o topo do ranking nos Estados Unidos e em diversos outros territórios. A mistura de pirataria, romance e crítica ao imperialismo capturou quem gosta de histórias que combinam espadas afiadas e corações ainda mais afiados.
Se você faz parte desse público e já sente falta da tripulação do “Tigre da Malásia”, prepare o passaporte: há produções em diferentes idiomas, épocas e até galáxias que sustentam o mesmo espírito de aventura. A seguir, um panorama crítico de dez séries que, cada uma à sua maneira, expandem o universo de Sandokan sem perder de vista o talento dos atores, a mão dos diretores e a inteligência dos roteiristas.
Carisma à frente das câmeras: intérpretes que comandam a narrativa
Lee Byung-hun, veterano de Hollywood e estrela de Mr. Sunshine (2018), conduz a trama com uma segurança magnética. Seu capitão Eugene Choi, ex-escravo transformado em oficial dos fuzileiros norte-americanos, espelha o percurso de Sandokan: um herói relutante que encontra na luta contra a ocupação japonesa a chance de redefinir a própria identidade. A entrega física e emocional do ator, aliada à vulnerabilidade de Kim Tae-ri no papel da aristocrata rebelde, sustenta os 24 episódios sem que o ritmo caia.
Já em One Piece (2023–), Iñaki Godoy veste o chapéu de palha de Monkey D. Luffy com energia quase cartunesca. A captura da inocência do protagonista, essencial na obra de Eiichiro Oda, impede que o live-action desmorone sob o peso da fantasia exagerada. A química do elenco jovem – Mackenyu, Emily Rudd e Jacob Romero – compensa a falta de realismo histórico, mantendo a mesma sensação de camaradagem presente na série italiana.
Direção que transforma o cenário em personagem
Firefly (2002) traz Joss Whedon no comando de um faroeste espacial que, apesar de cancelado precocemente, mantém legiões de fãs. A direção aposta em câmeras trêmulas e enquadramentos que evitam a estética polida típica da ficção científica, criando uma textura quase documental nos bastidores da nave Serenity. Essa opção estética dialoga com Sandokan, onde o mar nunca é um pano de fundo inerte, mas um organismo que molda decisões e destinos.
A dupla Taika Waititi e David Jenkins faz algo semelhante em Our Flag Means Death (2022–2023). A série brinca com o absurdo sem abrir mão de planos que ressaltam a vastidão do oceano. Waititi, no papel de Barba-Negra, adota um tom intimista, quase melancólico, contrastando com a paleta colorida e a boa dose de improviso no set. O resultado é uma comédia romântica de piratas que, entre uma piada e outra, investiga masculinidades frágeis e escolhas de vida improváveis.
Roteiros que equilibram espetáculo e comentário histórico
Shōgun (2024–) oferece um caso exemplar. Criadores Rachel Kondo e Justin Marks atualizam o clássico de James Clavell sem atenuar a violência política do período Tokugawa. A roteirização intercala a jornada do marinheiro John Blackthorne, vivido por Cosmo Jarvis, às intrigas palacianas conduzidas por Hiroyuki Sanada. A série adota o ponto de vista japonês como eixo moral, invertendo a lógica eurocêntrica comum ao gênero de aventuras coloniais.
No extremo oposto, Against the Wind (1978) recorre a diários reais da família Garrett para expor a brutalidade britânica na colonização da Austrália. Embora mais didático, o texto de Ian Jones e Cliff Green não suaviza punições nem negociatas militares. A estrutura em 13 capítulos mantém tensão contínua ao intercalar pontos de vista: colonizadores, soldados e prisioneiros irlandeses. Esse mosaico narrativo antecipa discussões que só décadas depois ganhariam corpo em Taboo (2017), onde Tom Hardy coescreve com Chips Hardy e Steven Knight um retrato sombrio das corporações imperiais.
Imagem: Divulgação
Em Taboo, a série abraça a ambiguidade moral de seu anti-herói James Delaney. O roteiro se recusa a oferecer respostas fáceis sobre colonização ou corrupção na Companhia das Índias Orientais. Entre rituais africanos e intrigas londrinas, a trama explora a fronteira tênue entre civilização e barbárie – tema caro também a Sandokan.
Produções que expandem o espírito de Sandokan
Shaka Zulu (1986) pode causar estranheza ao espectador moderno, mas a encenação dos exércitos zulus, coordenada por Garth Holmes, ainda impressiona. Henry Cele sustenta o peso mitológico de Shaka com olhar incisivo e postura marcial impecável. Mesmo gravada sob o regime do Apartheid, a narrativa preserva a dimensão épica da resistência africana. É impossível não lembrar das sequências em que Sandokan convoca guerreiros malaios para enfrentar a Marinha britânica.
Black Sails (2014–2017), por outro lado, é pura adrenalina. A equipe de roteiristas, liderada por Jonathan E. Steinberg, investe pesado em diálogos afiados que expõem alianças e traições na ilha de New Providence. Toby Stephens, como o capitão Flint, entrega camadas de ressentimento e idealismo em igual medida. Luke Arnold injeta leveza ao jovem Long John Silver, criando um contraponto de frescor. A fotografia granítica de Gavin Bocquet evidencia navios decadentes e enseadas de areia bruta, realçando a atmosfera de fim de era.
Fechando a lista, Brigands: The Quest for Gold (2024–) leva a ação para o Mediterrâneo. A direção alterna perseguições terrestres e batalhas navais com cortes frenéticos, emulando o ritmo que fez de Sandokan um hit. Os roteiristas italianos, porém, preferem um tom mais direto ao ponto. As motivações dos personagens são expostas rapidamente, o que deixa espaço para sequências de combate estilizadas. O resultado é diversão sem culpa para quem busca apenas pólvora, vento no rosto e um mapa do tesouro.
Caso o leitor queira explorar produções vizinhas a esses universos, vale conferir as séries de ficção científica que redefiniram a TV, sobretudo porque Firefly costuma figurar em listas desse tipo. Além disso, quem sentiu falta de fantasia pode mergulhar nas séries para fãs de Percy Jackson, já que One Piece compartilha o mesmo fascínio por mundos coloridos e heróis outsiders. O próprio Salada de Cinema sugere ainda um olhar sobre Andor e suas atuações de tirar o fôlego, exemplo recente de narrativa anti-imperial que conversa com a jornada de Sandokan.
Vale a pena assistir?
A força desses dez títulos reside no equilíbrio entre espetáculo e substância. Seja pelo carisma de Lee Byung-hun, pelo rigor histórico de Shōgun ou pela selvageria elegante de Toby Stephens, todas as séries oferecem performances marcantes e visões autorais de seus diretores. Para quem embarcou no navio de Sandokan e não quer abandonar o oceano de possibilidades, cada produção listada aqui representa uma rota segura, repleta de tesouros dramáticos.



