Chegou hoje ao catálogo da Netflix o suspense criminal italiano que revisita a trajetória de Antonio “Toni” Chichiarelli, aspirante a pintor que, nos anos 1970, tornou-se o falsificador mais prolífico da arte ocidental. O longa, comandado por Stefano Lodovichi, mescla drama biográfico e crime para analisar as brechas morais de um mercado sedento por obras raras.
A produção atrai atenção pelo elenco afinado, com Pietro Castellitto no papel-título e Giulia Michelini como a marchand que abre as portas do alto escalão das galerias. A seguir, o Salada de Cinema destrincha como as atuações, a direção e o roteiro se combinam para sustentar a tensão de quase duas horas.
A construção de Toni: uma performance entre a genialidade e o abismo
Castellitto assume o protagonista desde a juventude em Abruzzo até o auge da fama em Roma. O ator trabalha em camadas: primeiro, a inquietação do artista em busca de reconhecimento; depois, o encanto narcisista que surge quando as falsificações começam a circular. O olhar sempre ligeiramente desafiador substitui grandes discursos ao mostrar o modo como Toni mede cada pessoa e cada oportunidade.
Esse registro contido ganha força em sequências íntimas, como a reprodução do “Retrato de Jeanne Hébuterne com um Chapéu Grande”. Lodovichi aposta em close-ups prolongados, deixando que o suor do personagem pingue sobre a paleta. O resultado é um retrato de vaidade que se converte em crônica de autodestruição — uma virada que Castellitto encarna sem alarde, apenas modulando a respiração e a postura.
Coadjuvantes que sustentam o conflito moral
Giulia Michelini interpreta Donata, marchand que enxerga em Toni um bilhete para a elite cultural de Roma. A atriz equilibra fascínio e cálculo, traçando uma linha tênue entre mentora e cúmplice. Nos diálogos repletos de subtexto, ela alterna perguntas suaves com silêncios reveladores, expondo a dinâmica de poder que domina o mercado de arte.
O trio de amigos originais — Vittorio, o padre, e Fabione, militante das Brigadas Vermelhas — acrescenta tensão política. Lodovichi registra essas presenças para sugerir um país em combustão, onde religião, radicalismo e ambição convivem na mesma mesa de bar. A dicção firme de Vittorio contrasta com a verborragia de Fabione, compondo um coro que questiona se o protagonista ainda é um artista ou apenas um alpinista social.
Direção de Stefano Lodovichi: ritmo de thriller, textura de pintura
Lodovichi articula o filme como se fosse uma falsificação em movimento: cada plano exibe detalhes ricos, mas há sempre a suspeita de que algo não se encaixa. A câmera acompanha Toni em travellings curtos, como se o empurrasse para frente, reforçando a urgência que determina suas escolhas. A trilha ensaia jazz e progressivo italiano, criando dissonância entre glamour e ruína.
O diretor também explora a luz natural das igrejas e ruas romanas para compor imagens emolduradas, evocando mestres renascentistas. Esse cuidado visual reforça o subtexto sobre autenticidade. Quando Toni troca o ateliê improvisado por halls luxuosos, a fotografia esfria os tons, sugerindo um ambiente onde o charme encobre o cinismo — movimento semelhante ao que Sam Mendes faz em 007 Operação Skyfall ao contrapor neon e sombras em cenários high-tech.

Imagem: Divulgação
Roteiro de Lorenzo Bagnatori e Sandro Petraglia: arte, mercado e identidade
Bagnatori e Petraglia estruturam o texto em três blocos bem definidos: a luta por aceitação, a ascensão meteórica e o colapso público. Cada fase introduz um dilema ético, mantendo o foco no protagonista, mas também provocando quem observa. Quando Donata descobre a cópia perfeita pendurada na pensão de Toni, a cena serve como gatilho para discutir autoria, valor e ilusões que sustentam colecionadores.
Diálogos sucintos e pontuados por ironia evitam lições de moral. A dupla aposta em repetições calculadas — “Isso é arte ou é truque?” — para ilustrar como o mercado transforma questionamentos em slogan. Ainda assim, pequenos furos de segurança, como a assinatura mal planejada, já anunciam o destino trágico que aguarda Toni. A curva dramática mantém tensão constante até a derradeira gala, quando o artista se vê sozinho diante do próprio ego.
Vale a pena assistir ao drama do maior falsificador do Ocidente?
Para quem busca um thriller de arte e crime, o novo longa italiano entrega ritmo sólido e atuações centradas. Pietro Castellitto domina a tela sem recorrer a explosões emocionais, enquanto Giulia Michelini equilibra fascínio e frieza em participações cirúrgicas. Os coadjuvantes ampliam o painel social, destacando um período conturbado da Itália.
A direção de Stefano Lodovichi investe em imagens meticulosas, alinhadas ao tema da falsificação, e mantém tensão gradual até o clímax. O roteiro dispensa explicações didáticas, preferindo expor as contradições por meio de diálogos econômicos. Essa abordagem pode agradar quem valoriza nuances e incomodar quem busca ação direta.
No conjunto, o filme se revela uma boa pedida para espectadores que apreciam histórias de ascensão e queda, temperadas por reflexões sobre autenticidade, vaidade e mercado. A chegada à Netflix facilita o acesso e coloca mais um título europeu de peso no radar dos assinantes brasileiros.



