Durante meses, Best Served Cold foi apontado como o próximo grande épico de fantasia capaz de preencher o vazio deixado por Game of Thrones. A união do diretor Tim Miller, conhecido pelo ritmo eletrizante de Deadpool, com a força dramática de Rebecca Ferguson parecia imbatível.
Entretanto, o projeto esfriou sem alarde. Entre greves de roteiristas, fusões de estúdios e prioridades corporativas, a adaptação do romance de Joe Abercrombie desapareceu do cronograma de Paramount e Skydance. A seguir, destrinchamos como isso aconteceu, o que estava em jogo e por que fãs ainda lamentam a perda.
A promessa de uma nova franquia de fantasia
Best Served Cold não era apenas mais uma adaptação literária: seria a porta de entrada para o universo The First Law, obra que mistura magia decadente, intriga política e violência crua. Em Hollywood, um cenário com magia de fundo e personagens moralmente ambíguos costuma atrair comparações imediatas com Game of Thrones — e os executivos contavam justamente com essa associação para impulsionar bilheteria e streaming.
Com o livro de Abercrombie descrevendo uma vingança sangrenta em uma Europa pré-industrial alternativa, o roteiro prometia duelos viscerais, batalhas campais e diálogos cortantes. O próprio Miller descreveu a produção como “Kill Bill encontra Game of Thrones”, resumo que bastou para gerar empolgação nas redes sociais e em veículos como o Salada de Cinema.
Tim Miller: a visão de um diretor que entende ação e violência
A escolha de Tim Miller parecia lógica. Ele provou em Deadpool que domina sequências frenéticas sem sacrificar personalidade de seus protagonistas. Também mostrou no projeto animado Love, Death & Robots que não tem receio de flertar com o brutal e o fantástico. Para Best Served Cold, planejava coreografar lutas com a clareza estética de John Wick e a sujeira dos campos de batalha medievais.
Miller buscava ainda traduzir o humor ácido de Abercrombie. Em suas declarações, ressaltava o equilíbrio entre sarcasmo, tragédia e violência gráfica — combinação difícil, mas essencial à identidade do material original. O diretor chegou a afirmar que mantinha “crush” criativo no ator Steven Pacey, narrador oficial dos audiobooks de The First Law, sinalizando que pretendia cercar-se de vozes que conhecem profundamente o texto.
Rebecca Ferguson e o desafio de interpretar Monza Murcatto
Se a direção estava bem encaminhada, o elenco também chamava atenção. Rebecca Ferguson foi confirmada como Monza Murcatto, a mercenária traída que jura destruir sete inimigos de uma só vez. O papel exigiria fisicalidade intensa, habilidade com armas brancas e, sobretudo, um olhar que transmita sede de vingança sem perder a humanidade. Ferguson demonstrou todas essas camadas em Missão: Impossível e Duna, credenciais que convenceram estúdio e fãs.
Além dela, rumores apontavam que Skydance sondava nomes de perfis distintos para o grupo heterogêneo que acompanha Monza em sua jornada. Apesar de nenhuma contratação ter sido oficializada, a expectativa girava em torno de um elenco diverso, capaz de sustentar possíveis continuações dentro do mesmo universo.
Imagem: Yailin Chac
O roteiro que nunca saiu do papel
A WGA entrou em greve em 2023, momento crítico para Best Served Cold. O primeiro rascunho estava em desenvolvimento quando as negociações entre roteiristas e estúdios pararam, congelando reuniões e revisões. Sem script finalizado, as estimativas de orçamento se tornaram imprecisas, e investidores hesitaram.
Em paralelo, a fusão entre Skydance e Paramount bagunçou calendários. Títulos em fase de pré-produção foram revistos, e projetos considerados de risco médio ou alto acabaram sacrificados ou empurrados indefinidamente. Internamente, a prioridade passou a ser franquias já consolidadas, deixando a adaptação de Best Served Cold sem patrocinador entusiasmado.
Miller chegou a comentar, em entrevista a um canal especializado em efeitos visuais, que vários filmes “quase aconteceram” antes de esbarrar em burocracia. Sobre Best Served Cold, limitou-se a dizer que “não aconteceu”, deixando claro que o interesse pessoal persiste, mas que o ímpeto corporativo evaporou.
Vale a pena continuar de olho em Best Served Cold?
No atual cenário, Best Served Cold pode ser considerada um projeto engavetado, não oficialmente cancelado. Hollywood, contudo, vive de ciclos: direitos literários costumam mudar de mãos, roteiros ganham nova vida com pequenas revisões e fusões podem abrir brechas inesperadas. O histórico de Miller com adaptações de quadrinhos e animação adulta mantém seu nome ligado ao material, e a presença de Ferguson como estrela continua valiosa.
Para quem acompanha o gênero de fantasia e busca substitutos à altura de Game of Thrones, a esperança é que alguém retome o roteiro quando as condições de mercado forem mais favoráveis. Até lá, resta reler o romance de Abercrombie e imaginar como seria ouvir o brado de vingança de Monza Murcatto ecoando nas salas de cinema.


