Em pleno período de campanha rumo às premiações de 2026, Marty Supreme continua rendendo assunto nos bastidores. O diretor Josh Safdie surpreendeu ao revelar que o longa quase terminou com um ataque de vampiro, cena que foi filmada mas acabou cortada na montagem final.
O detalhe bizarro, revelado no podcast da A24, reacendeu debates sobre as escolhas criativas por trás do filme e colocou ainda mais holofotes no desempenho do elenco, liderado por Timothée Chalamet. A seguir, o Salada de Cinema destrincha o impacto dessa informação na percepção do público e analisa como direção, roteiro e atuações se combinam na produção.
Um protagonista obcecado: a atuação de Timothée Chalamet
Timothée Chalamet encarna Marty Mauser, jovem que sonha transformar a obsessão por tênis de mesa em status de astro internacional. Ao longo de 150 minutos, o ator exibe um trânsito fluido entre humor nervoso e desespero genuíno, lembrando a carga elétrica que Adam Sandler sustentou em Joias Brutas, também de Safdie.
Chalamet se vale de pausas curtas, gestos compulsivos e olhares que transitam entre arrogância e vulnerabilidade para compor um personagem inquieto. Nos momentos em que o protagonista encara o magnata Milton Rockwell, vivido por Kevin O’Leary, a câmera amplia a tensão: é possível notar suor escorrendo, respiração entrecortada e a postura curvada de quem luta para não desmoronar.
A virada dramática acontece na sequência do hospital, quando Marty abandona a namorada ferida, Rachel (Odessa A’zion), para disputar um torneio no Japão. A culpa que corrói o personagem, observável na cena final em que ele conhece o próprio filho, rende a Chalamet algumas das expressões mais contidas de sua carreira, longe dos arroubos típicos de galãs jovens de Hollywood.
O ator também se arrisca nas tomadas de jogo. Safdie preferiu treinos exaustivos a dublês, e Chalamet se move com velocidade convincente. O realismo favorece a imersão e amplia o suspense sobre a possibilidade de Marty, afinal, vencer ou não o campeão mundial em partida informal — ponto alto do terceiro ato.
Direção caótica de Josh Safdie sustenta a tensão
Josh Safdie, acostumado a filmar personagens em espiral, volta a investir em zooms abruptos, grão acentuado e cortes secos. A paleta anacrônica mescla tons oitentistas e digitais contemporâneos, reforçando a sensação de que o tempo, em Marty Supreme, nunca obedece à lógica linear.
Essa atmosfera frenética se alinha ao discurso do diretor sobre “o passado perseguindo o futuro”. O conceito ganharia forma literal caso o desfecho com vampiros fosse mantido: no plano cortado, Kevin O’Leary aparecia numa apresentação do Tears for Fears, nos anos 1980, para morder o pescoço de um Marty já envelhecido. Safdie diz ter construído próteses para Chalamet, mas desistiu após feedbacks do estúdio — “todo mundo achou que era um erro”, confessou.
Ainda assim, vestígios do horror permanecem. O diálogo em que Rockwell declara ter nascido em 1601 deixa o espectador na dúvida: seria apenas ufanismo do bilionário ou pista de sobrenatural? Safdie planta a ambiguidade e mantém o espectador em alerta, recurso típico de seu cinema, em que a fronteira entre real e delírio nunca é clara.
Outro mérito da direção está na forma como administra o intenso desenho de som. A trilha conduzida por sintetizadores resgata sucessos oitentistas, com Everybody Wants to Rule the World funcionando como mantra de ambição. Cada rachadura no backhand de Marty parece ganhar eco na batida musical, reforçando a angústia de um homem que acredita ter nascido para jogar.
Roteiro afiado e final descartado: por que o vampiro ficou de fora?
Assinado por Safdie e Ronald Bronstein, o roteiro de Marty Supreme é marcado por diálogos ácidos e encontros desconfortáveis. Quando Marty proclama sua visão de mundo, Rockwell rebate com a confissão de que é vampiro, frase improvisada por Kevin O’Leary durante ensaios. A liberdade de criação oferecida aos atores gera momentos de humor sombrio que pontuam a narrativa.
Imagem: Divulgação
No entanto, a sequência final descartada levantou questionamentos. A ideia era mostrar a vida de Marty passar num piscar de olhos, até culminar no show do Tears for Fears com a neta. A mordida simbolizaria o triunfo eterno do capitalismo predatório de Rockwell sobre a paixão juvenil de Marty. Optar pelo choro diante do bebê, em vez do pescoço perfurado, suavizou o tom e devolveu foco ao drama humano.
A troca de finais evidencia o cuidado em não atropelar a coerência emocional. Embora o filme busque a vibração do caos, a conclusão oficial mantém alguma esperança de redenção para o protagonista, ao passo que o final vampírico poderia ter transformado a experiência num pastiche pulp, arriscando dispersar a plateia.
No saldo, o roteiro equilibra farsa e tragédia. Kay Stone, atriz vivida por Gwyneth Paltrow, fracassa no retorno aos palcos; Rockwell abandona Marty quando percebe que perdeu dinheiro; e o herói volta para casa de carona com soldados americanos. Esse labirinto de derrotas e pequenas vitórias confere densidade à trama, justificando os 93% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Repercussão crítica e apostas em premiações para 2026
Lançado em 19 de dezembro de 2025, com classificação indicativa R e 150 minutos de duração, Marty Supreme já desponta como provável candidato a Melhor Filme na temporada 2026. A imprensa internacional destaca a ousadia de Safdie em transformar o tênis de mesa, esporte pouco retratado no cinema, em motor de suspense existencial.
Kevin O’Leary, conhecido do público por realities de negócios, surpreende ao adotar o tom teatral exigido pelo magnata-vampiro Rockwell. A ameaça contida no sotaque frio do ator se contrapõe à energia ansiosa de Chalamet, criando um duelo interpretativo que a crítica considera um dos trunfos do longa.
Odessa A’zion, por sua vez, entrega sensibilidade nos poucos minutos em cena, especialmente quando Rachel, ferida e em trabalho de parto, encara o vazio deixado por Marty. Já Gwyneth Paltrow surge quase como easter egg: sua personagem brilha em momentos de autoironia, refletindo sobre os altos e baixos da indústria do espetáculo.
Entre os prêmios já engatados, o longa aparece em listas de indicações a Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Montagem. A decisão de cortar o final sobrenatural, segundo analistas, pode ter ajudado a manter parte da crítica mais tradicional ao lado do projeto, evitando comparações exageradas com filmes de gênero.
Vale a pena assistir Marty Supreme?
Marty Supreme é um estudo de personagem que faz o espectador suar tanto quanto o protagonista. Timothée Chalamet vive talvez seu papel mais elétrico, enquanto Josh Safdie conduz a história com a habitual veia de adrenalina. Mesmo sem o polêmico ataque vampírico, sobra energia, humor ácido e crítica social. Para quem busca cinema de alto risco e atuações intensas, o ingresso compensa.









