Bilheterias infladas, reboots intermináveis e uma sucessão de sequências têm deixado a indústria cinematográfica norte-americana acuada. Enquanto alguns blockbusters ainda chamam atenção, o setor sente o peso de orçamentos astronômicos e retornos minguados.
Em meio a esse cenário, uma voz vinda do outro lado do planeta ganha força. O diretor japonês Tomohiko Ito, conhecido por Sword Art Online e Erased, acredita que o futuro do entretenimento global passa por Tóquio – mais precisamente, pelo anime. A declaração agitou analistas e fãs que acompanham cada passo dos movimentos de Hollywood.
O que motivou o declínio de Hollywood
Durante entrevista à publicação Daily Shincho, Ito reforçou que a onda de greves de roteiristas (WGA) e os efeitos prolongados da pandemia de COVID-19 minaram a produção norte-americana. Os atrasos encareceram cronogramas, enquanto o público, em casa, descobria novos formatos de consumo – streaming e animações japonesas entre eles.
Para o diretor, os grandes estúdios em Los Angeles ainda contam com marcas fortes, mas perderam fôlego; parte da audiência migrou para opções mais acessíveis, curtas e culturalmente frescas. A saturação de super-heróis e franquias ressuscitadas praticamente sobrecarregou o espectador médio.
Impacto da pandemia e das greves
Segundo Ito, a combinação de salas fechadas e roteiros paralisados abriu espaço precioso na agenda de lançamentos. Foi nesse vácuo que serviços de streaming ampliaram catálogos de anime, oferecendo maratonas completas a um clique – vantagem competitiva difícil de igualar com estreias presenciais.
Orçamentos cada vez menos sustentáveis
Produções que ultrapassam a marca de US$ 200 milhões pressionam receitas de bilheteria, exigindo retornos globais gigantescos. Quando esses números não aparecem, filmes considerados “médios” somem do radar, deixando ainda mais espaço para a animação japonesa crescer.
Anime pode realmente substituir Hollywood?
A pergunta é provocativa e foi respondida com firmeza por Ito: “A influência de Hollywood está diminuindo; o anime virou um bom substituto”. O cineasta lembra que a aquisição da Crunchyroll pela Aniplex – concluída em 2020 – acelerou a popularização mundial do formato, enquanto a compra de uma distribuidora britânica pela Toho sinaliza apetite internacional das empresas japonesas.
Exemplos de sucesso não faltam. Demon Slayer: Infinity Castle arrecadou impressionantes US$ 780 milhões em todo o planeta. Em 2025, outras franquias como Jujutsu Kaisen e Chainsaw Man também lotaram salas, contribuindo para um salto de quase 15 % na presença do anime nas bilheterias globais.
Popularidade entre a Geração Z
Relatório de 2024 mostrou que mais de 40 % dos jovens norte-americanos nascidos a partir de 1997 assistem anime semanalmente. Esse público, cada vez mais conectado e disposto a gastar, tornou-se alvo cobiçado por marcas e distribuidoras.
Risco de perder a essência japonesa
Embora otimista, Ito faz um alerta: quando estúdios tentam moldar histórias exclusivamente para o gosto ocidental, o resultado costuma decepcionar. “O que os japoneses acham que o mundo quer ver nem sempre corresponde ao que o mundo realmente deseja”, afirmou. Ou seja, o anime como substituto de Hollywood só se sustenta se preservar traços culturais e narrativos que o tornaram popular.
Imagem: Milica Djordjevic
Crescimento acelerado exige cautela
O diretor também teme um “estouro da bolha” caso o ritmo de expansão não seja bem administrado. Produzir séries e longas em massa, sem o cuidado artesanal característico do setor, pode gerar desgaste semelhante ao enfrentado pelos blockbusters norte-americanos.
Economia de escala versus qualidade
Empresas como Sony Pictures e GKIDS apostam alto em distribuição global de animes. A busca por mercado leva à padronização, mas a audiência acostumada a roteiros sofisticados rejeita rapidamente tramas superficiais. Manter equilíbrio entre volume e refinamento será decisivo nos próximos anos.
O papel das plataformas de streaming
Serviços sob demanda funcionam como vitrine mundial para novas sagas. Ao mesmo tempo, o modelo de receita baseado em assinaturas depende de lançamentos constantes. Essa pressão por conteúdo inédito pode encurtar ciclos de produção, elevando riscos de queda de qualidade.
Salada de Cinema acompanha a tendência
Para os leitores do Salada de Cinema, o fenômeno é claro: títulos animados dominam listas de mais assistidos em diversos serviços de streaming. Enquanto Hollywood repensa estratégias, o público de novelas, doramas e animes encontra opções fresquinhas sem sair de casa.
Por ora, as palavras de Tomohiko Ito ecoam como lembrete de que nenhum reinado é eterno. Se Hollywood quer reconquistar terreno, precisará se reinventar tão rapidamente quanto Tanjiro empunha sua espada.
Ficha técnica
Entrevistado: Tomohiko Ito
Principais obras: Sword Art Online, Erased
Dados de bilheteria: Demon Slayer – Infinity Castle (US$ 780 mi)
Crescimento do anime em 2025: +15 %
Audiência Gen Z nos EUA (2024): 40 % assiste semanalmente



