Depois de passar quase despercebido nos cinemas, The Covenant encontra agora terreno fértil no streaming. O drama de guerra de 2023, dirigido por Guy Ritchie, será liberado gratuitamente no Tubi a partir de 1º de fevereiro, oportunidade que pode transformar o desempenho comercial tímido em sucesso popular.
Com Jake Gyllenhaal e Dar Salim à frente, o longa aposta numa abordagem mais realista do conflito no Afeganistão, afastando-se do humor sarcástico e da estética de crime que consagraram o cineasta britânico. O foco recai sobre lealdade, sobrevivência e sacrifício, temas que ganharam novo fôlego graças ao boca a boca nas plataformas digitais.
A mudança de rota de Guy Ritchie em The Covenant
Conhecido por filmes de gângster repletos de cortes rápidos e diálogos afiados, Guy Ritchie escolheu trilha diferente para The Covenant. Aqui, ele abandona as estripulias visuais que marcaram Snatch e Sherlock Holmes e adota câmera mais estável, cores dessaturadas e ritmo cadenciado para mergulhar na crueza do campo de batalha.
Essa guinada estética realça as cicatrizes físicas e emocionais dos protagonistas. O diretor também assina o roteiro ao lado de Ivan Atkinson e Marn Davies, trio que evita transformar explosões em espetáculo gratuito. A narrativa privilegia pequenos gestos de humanidade em meio ao caos, estratégia que angariou 82% de aprovação no Rotten Tomatoes, ainda que não tenha evitado a bilheteria modesta de US$ 21,9 milhões frente aos US$ 55 milhões investidos.
Atuações que sustentam o drama de guerra
Jake Gyllenhaal interpreta o sargento John Kinley com interiorização surpreendente. O ator, habituado a papéis intensos, entrega aqui um militar que equilibra senso de dever e dívida moral. Olhares perdidos entre dunas e decisões apressadas preenchem o vazio deixado por diálogos contidos, reforçando a sensação de urgência.
Dar Salim, por sua vez, rouba a cena como o intérprete afegão Ahmed. Sua performance é construída em silêncios, em pequenas alterações no timbre de voz e na postura corporal que traduzem medo, coragem e esperança. A química entre os dois sustenta boa parte da tensão: quando Ahmed carrega Kinley ferido por quilômetros de terreno hostil, o espectador sente o peso literal e simbólico desse esforço.
O elenco de apoio contribui para o realismo. Sean Sagar, Jason Wong, Alexander Ludwig, Emily Beecham e Antony Starr surgem em papéis breves, mas funcionais, reforçando a atmosfera de incerteza. Não há espaço para heróis invencíveis; todos parecem vulneráveis, reféns de um território que não perdoa hesitações.
Roteiro e direção: realismo acima do espetáculo
O roteiro faz escolhas claras: concentrar a ação na relação entre soldado e intérprete, relegando a geopolítica a pano de fundo. Dessa forma, Guy Ritchie evita explicações didáticas e deixa que o espectador deduza motivações e consequências. A decisão aproxima The Covenant de dramas como Falcão Negro em Perigo, mas com escala mais íntima.
Ritchie demonstra segurança ao coreografar as cenas de combate. Os planos longos dentro de veículos ou trincheiras criam sensação de enclausuramento, enquanto rajadas de metralhadora ecoam com volume moderado para não ofuscar a atuação. O diretor insere ainda pausas para que a narrativa respire, recurso importante para manter ritmo de 123 minutos sem desgaste.
Imagem: Divulgação
A fotografia de Ed Wild usa pó e luz estourada para reforçar a aridez afegã. Já a trilha de Christopher Benstead prefere tons graves a melodias heroicas, acompanhando o suspense crescente sobre o destino da família de Ahmed. O pacote técnico sedimenta o realismo buscado pelo filme e legitima elogios posteriores do público de streaming.
Do cinema ao streaming gratuito: o novo caminho do filme
A chegada ao Tubi ocorre em momento de cansaço com assinaturas pagas. Plataformas gratuitas ampliam alcance e, no caso de The Covenant, podem corrigir a baixa visibilidade inicial. Foi exatamente esse efeito que se viu após a saída de The Equalizer do catálogo gratuito, quando a procura explodiu em outros serviços.
Para Guy Ritchie, o relançamento sem custo tende a fortalecer o prestígio junto a um público que talvez o associe apenas a tramas de malandro londrino. Já para Gyllenhaal e Salim, a vitrine gratuita aumenta a chance de reconhecimento por performances que ficaram à sombra de superproduções de 2023. A equipe de produção ainda se beneficia de contratos de licenciamento que vinculam visualizações a receitas publicitárias.
O fenômeno confirma tendência observada por editorias de entretenimento, inclusive aqui no Salada de Cinema: filmes de médio orçamento que abordam temas adultos ganham sobrevida ao migrar para modelos sustentados por anúncios. É caminho semelhante ao de títulos esquecidos em salas vazias que, meses depois, viram queridinhos nas redes sociais.
Vale a pena assistir The Covenant?
Se a proposta é ver um filme de guerra centrado em personagens, a resposta é positiva. The Covenant escapa da pirotecnia e valoriza laços humanos, algo que se destaca entre blockbusters ruidosos. A dupla Gyllenhaal–Salim garante envolvimento emocional e sustenta o roteiro sem apelar para patriotismo raso.
O realismo conferido por Guy Ritchie envolve o público em uma espiral de tensão, mas com tempo para refletir sobre compromissos e promessas quebradas. A direção segura, aliada à fotografia árida e trilha contida, reforça a sensação de imersão. Quem busca ação ininterrupta pode estranhar o ritmo, mas dificilmente ficará indiferente ao clímax.
Disponível gratuitamente, o longa serve como porta de entrada para discussões sobre obrigações morais em conflitos modernos. Entre tantos lançamentos, a experiência de 123 minutos vale o investimento — de atenção, não de dinheiro — especialmente agora que está a um clique de distância no Tubi.



