The Boys finalmente chegou ao fim em 2026 no Prime Video, e o showrunner Eric Kripke saiu da sala de roteiristas com uma tese clara: homens fortes que vão longe demais não caem por conspiração ou vilania — caem por sua própria arrogância. O final não é sombrio nem niilista. É um final que acredita em recompensa moral, mesmo que a vida continue sendo um caos.
Em conversa com a Rolling Stone, Kripke revelou que a série termina porque alguns dos personagens conseguem “limpar cinco temporadas de respingos de sangue” e construir vidas reais. Mas o que torna isso interessante não é a fuga — é o preço pago e os problemas que ficam para trás. Hughie e Luz-Estrela vão ter uma filha e abrir uma loja de eletrônicos. Kimiko continua sozinha após a morte do Francês. E Capitão Pátria morre da forma mais humilhante possível, implorando pela vida.

Por que Capitão Pátria morre sozinho e covarde
A cena final do vilão não é épica. Antony Starr, que interpretou o personagem por 5 temporadas, teve que fazer algo que poucos atores de série policial ou super-herói aceitariam: reduzir seu antagonista a um covarde patético. Depois que Kimiko usa a explosão que remove superpoderes (herdada de Soldier Boy), o Capitão Pátria fica sem seus poderes e, literalmente, oferece sexo oral em troca da vida.
Kripke explicou que foi direto com Starr antes do roteiro sair: “Sei que você tem sentimentos fortes sobre esse personagem ser poderoso. Ele não vai ser poderoso na morte dele. Ele sai da série da forma mais patética possível”. Starr respondeu que “tem que ser assim” — que era a punição proporcional aos sete anos de horror que Capitão Pátria causou. O ator até adicionou uma fala obscena de improviso para mergulhar no desastre moral do personagem.
O detalhe técnico: a cabeça aberta é efeito prático do maquiador Zane Knisely — uma touca verde que os efeitos visuais transformaram em ferimento e cérebro visível depois. Quando Kripke abraçou Starr após a cena, o ator ainda usava aquela “cabeça estranha e nojenta”, como o showrunner descreveu. Mas essa é a rotina em The Boys — atores parecem horríveis enquanto tomam café perto da mesa de catering.
A explosão de Kimiko era a solução que faltava desde o começo
A série tinha duas armas para derrotar Capitão Pátria: um vírus que matava Supes e a explosão energética de Soldier Boy que remove poderes. Kripke guardou a explosão como um “ás na manga”. O vírus nunca foi usado porque representava algo mais ético — soltar um vírus global que mataria “todos os Supes” era dizer “você realmente consegue queimar o mundo inteiro em troca de seu objetivo?”
A escolha de quem tira os poderes do Capitão Pátria foi deliberada: Kimiko. Ela é regenerativa, e faz sentido narrativo porque a série deixou pistas desde o episódio 4 — Bruto mexendo em maquinário russo, preparando a armadilha. Mas Kripke tinha uma regra de ouro: “Os Boys precisam derrotar o Capitão Pátria. Não vamos complicar isso nem entregar a Gen V, ao Soldier Boy ou a qualquer outra coisa. Os Boys fazem isso. E tem que ser o Bruto no final”.
A morte do Francês e o relacionamento impossível de Kimiko
Se o Francês tivesse sobrevivido, ele e Kimiko provavelmente tentariam fazer funcionar. Mas Kripke matou o personagem porque quatro temporadas inteiras foram sobre a pergunta “vão ficar juntos?”. O que a série descobriu é que eles passaram todo o tempo falando sobre o passado, sobre superação — e quando finalmente superaram isso, perceberam que não queriam o mesmo futuro.
Kimiko nunca quis filhos. O Francês queria família. Nenhum dos dois teve uma conversa sobre como seria a vida deles depois. A morte dele encerra esse ciclo de forma que respeita o relacionamento: eles nunca teriam funcionado, mas agora Kimiko segue sozinha — e isso é uma forma de vitória, não de derrota.
Hughie e Luz-Estrela merecem o final feliz imperfeito
Não houve dúvida em dar a Hughie e Luz-Estrela um final feliz. Ela está grávida, vomitando, fazendo xixi nas calças, brigando com a mãe — tudo terrível e real. Mas eles vão se unir e fazer funcionar como família. Na quarta temporada, Annie fez um aborto porque não tinha esperança no futuro. Agora ela está pronta, otimista, indo parir uma filha.
Kripke é claro: isso não é niilismo vencendo ou desespero triunfante. A mensagem é que existe esperança se você continuar tentando, e isso não acontece sem sacrifícios terríveis. Nunca será perfeito. Hughie e Luz-Estrela abrem uma loja de eletrônicos. Simples. Humano. Real.
Quando a sátira fica tão precisa que parece profecia
A temporada final captura algo que Kripke nunca planejou: a vida nos EUA em 2026. Capitão Pátria literalmente se declara Deus — e isso ecoou uma postagem real do presidente americano no Truth Social dizendo “Eu sou Jesus”. A Igreja Democrática da América, que parecia piada interna, começou a parecer documentário.
Kripke pesquisava a “Nova Reforma Apostólica” há dois anos. Que Trump divulgaria uma imagem de si como Jesus e evangélicos orariam diante de uma estátua dourada? Não esperava. Mas o alvo estava lá, e o timing ficou “assustadoramente preciso”. No primeiro episódio, o Worm (personagem ex-roteirista de TV) diz: “Tente agradar todo mundo. Você não consegue. Finais são horríveis”. Frase que virou verdade nas redes.
Os fãs entenderam errado a fala sobre Clara
Alguns espectadores ruidosos online acreditaram que deveriam simpatizar com Soldier Boy e sua amante nazista Clara no momento em que ele diz “era o que Clara teria querido”. O objetivo era exatamente oposto: Clara queria um “supersoldado ariano”, e Soldier Boy é “imperfeito nesse amor, ruim em escolher parceiras”.
É como o Capitão América estar na cama com uma nazista — esse é o ponto. Kripke explica que Soldier Boy ainda nutre sentimentos por ela, mas ela era nazista. Esse conflito moral nunca foi para ser uma simpatia retroativa pelo personagem, mas uma exposição de suas falhas fundamentais.
A quinta temporada teve 57 milhões de espectadores em 39 dias
O discurso online foi “um furacão”, segundo Kripke. As reclamações foram ruidosas. Ele teve “surtos” lendo redes sociais. Mas em 39 dias, 57 milhões de pessoas assistiram à quinta temporada no Prime Video — a maior da série até agora. O mundo online é “uma fração minúscula de um único ponto percentual”, e isso reconfortou o showrunner.
A quinta temporada é a maior porque consegue fazer algo que poucas séries de presticar fazem: terminar com esperança sem cair em triunfalismo vazio. Os personagens não ganham um mundo perfeito. Ganham a chance de tentar, rodeados de gente que amam.
O universo continua em The Boys: Mexico e Vought Rising
Kripke não vai desaparecer do “VCU” (Universo Cinematográfico Vought). Vai supervisionar, fazer “controle de qualidade”, ser conselheiro. Mas não quer ser showrunner do dia a dia — fez seu “projeto de paixão” em The Boys. Vought Rising é o projeto de Paul Grellong. Gen V é diferente, que por sua vez será diferente de The Boys: Mexico, mesmo compartilhando DNA e tom.
A regra é clara: cada série precisa ser idiossincrática, estranha, única e nascida da paixão de alguém. Nunca “produto em série”. The Boys: Mexico se passa depois dos acontecimentos do final, então o universo avança para o futuro — não volta no tempo com prequela.
A questão de todos os Supes soltos por aí
O final deixa uma bomba-relógio moral: Vought desapareceu, e agora há Supes soltos pelo mundo sem ninguém assumindo responsabilidade. Há problemas para resolver. Sempre haverá problemas. Nada é “felizes para sempre” perfeito. Mas se você mantiver seus entes queridos por perto e cuidar uns dos outros, pode ter um final feliz.
E sobre aquele bilionário da tecnologia que não parece nenhum bilionário real do mundo? Kripke brinca que Prime Video o deixou fazer — nenhuma reclamação de executivos, apenas “risadas”. Ele continua sendo bobo da corte, e ainda não cortaram sua cabeça.









