Star Trek: Starfleet Academy vinha mantendo um tom quase lúdico, apresentando a rotina dos cadetes com aventuras leves e muita nostalgia. O sexto capítulo, porém, troca o ar de descoberta por uma batalha que deixa cicatrizes reais. A virada dramática obriga o elenco jovem a mostrar alcance emocional, enquanto a direção de Larry Teng conduz a franquia a um território mais sombrio.
Nessa mudança brusca, o episódio intitulado “Come, Let’s Away” carrega roteiros de Kenneth Lin e Kiley Rossetter que não aliviam para ninguém. Falhas, perdas e um vilão articulado se combinam para transformar o treinamento em luta pela sobrevivência, o que resulta em cenas que valorizam – e muito – o trabalho de Zoë Steiner e Sandro Rosta. A seguir, destrinchamos como essa dupla, o restante do elenco e a equipe criativa entregam a hora mais tensa da temporada.
Roteiro impiedoso coloca cadetes em cheque
Logo na abertura, Nus Braka, interpretado com frieza calculada por Paul Giamatti, rouba armamentos sigilosos e expõe os cadetes à brutalidade do universo fora dos hologramas. A guinada narrativa faz eco a dramas políticos recentes, como o excelente Andor, que mostrou ser possível discutir falhas institucionais numa galáxia distante. Aqui, a mensagem é clara: a Federação nem sempre vence.
Lin e Rossetter escrevem sem pena. Uma colega do War College perde a vida, a inteligência artificial SAM (Kerrice Brooks) sofre danos sérios, e Tarima Sadal (Zoë Steiner) termina em coma após usar poderes betazoides até o limite. O texto alterna diálogos ágeis com pausas dramáticas que oferecem espaço para o elenco respirar – ou sufocar – em cena.
Direção de Larry Teng tira o elenco da zona de conforto
Teng trabalha com planos fechados que capturam tremores de dúvidas nos rostos dos cadetes, ampliando a sensação de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, ele assume o espetáculo espacial nas sequências externas sem deixar que a pirotecnia ofusque as emoções. É um equilíbrio parecido com o que Benjamin Caron alcançou no thriller de espionagem citado no crossover entre FBI e CIA, priorizando expressões antes de explosões.
Um exemplo é a cena em que Caleb Mir (Sandro Rosta) encara reféns alienígenas sem poder mostrar medo. Teng mantém a câmera centrada no olhar do ator, deixando a tensão crescer a cada segundo. Quando Tarima surge para salvá-lo, o enquadramento acompanha o fluxo de energia psíquica quase como um boxe de planos – cortes rápidos, silêncio pontuado por batidas cardíacas, e então o colapso. O resultado é visceral.
Imagem: Divulgação
Zoë Steiner e Sandro Rosta entregam química e dor
A relação entre Tarima e Caleb, construída desde o segundo episódio, atinge o ápice logo no início, em um quarto que, ironicamente, pertence também a Ocam (Romeo Carere), irmão da betazoide. A escolha agrava o desconforto cômico do momento, mas serve para humanizar os personagens. Steiner descreve Rosta como “presente e generoso”, enquanto Rosta retribui o elogio, chamando a colega de “intérprete melhor do que eu”. Esse respeito mútuo transparece em cena.
Quando a tragédia se impõe, a dupla sustenta o peso dramático. Steiner tem a chance de mostrar um lado quase selvagem de Tarima ao liberar poderes telepáticos – recurso que, segundo a própria atriz, era um sonho de brincar em cena. Já Rosta demonstra o paradoxo de um herói hesitante: Caleb não aceita a derrota, mas percebe que cada tentativa de reagir coloca mais vidas em risco. A dinâmica lembra o jogo de gato e rato vivido por Aldis Hodge no suspense Alex Cross, em que inteligência e vulnerabilidade andam lado a lado.
Coadjuvantes e easter eggs reforçam o impacto
Holly Hunter, como a capitã Nahla Ake, simboliza a impotência de Starfleet diante de um golpe bem articulado. Sua expressão, ao perceber que perdeu não só armamentos mas também credibilidade, entrega mais informação do que muitas linhas de diálogo. Paul Giamatti, por sua vez, dosa cinismo e ameaça com maestria: cada sorriso torto do vilão indica que ele já está três passos à frente.
O episódio ainda reserva pequenos presentes para fãs. Jonathan Frakes, que dirige o nono capítulo, visita o set e confidencia a Rosta que namorar uma betazoide é “estar do lado vencedor”. A brincadeira ecoa o romance Riker–Troi sem virar piada interna pesada. Já o “truque do basquete” de Steiner, inspirado no arremesso de Sigourney Weaver em Alien: Resurrection, ganha menção orgânica, reforçando a habilidade atlética da atriz e o comprometimento em cena.
Vale a pena assistir ao episódio 6 de Star Trek: Starfleet Academy?
Para quem acompanhava a série pela leveza de capítulos anteriores, “Come, Let’s Away” pode soar como ducha fria – e esse é justamente o mérito. A guinada comprova que a atração tem ambição além de acenos nostálgicos, algo que o Salada de Cinema sempre valoriza. O roteiro corajoso, a direção segura e as performances intensas de Zoë Steiner, Sandro Rosta e companhia formam um pacote empolgante para quem busca adrenalina real em ficção científica. Se a segunda metade da temporada mantiver esse patamar, a Academia certamente deixará cicatrizes inesquecíveis em sua classe de 2266.









