A segunda temporada de Percy Jackson & the Olympians mal acabou e o hiato até 2026 já pesa no coração dos semideuses de plantão. Enquanto o set não volta a ferver, o espectador encontra na TV diversas produções que dialogam, direta ou indiretamente, com o universo de Rick Riordan.
O Salada de Cinema listou nove séries de mitologia grega que valem cada minuto de maratona. O foco aqui é analisar como elenco, direção e roteiro sustentam a aventura, criando pontes narrativas ideais para quem ainda sente cheiro de néctar e ambrosia pelas manhãs.
Releituras modernas: Kaos e Atlantis
Em Kaos, Jeff Goldblum encarna um Zeus neurótico que estabelece o tom cínico da produção. A escolha do ator, conhecido pela mistura de humor e estranheza, favorece o roteiro de Charlie Covell, que reimagina os olimpianos como executivos viciados em poder. A direção alterna planos grandiosos — dignos de tragédia clássica — com closes sufocantes, reforçando a paranoia do rei dos deuses. Visualmente, o alto investimento salta aos olhos, com figurinos que misturam alfaiataria contemporânea e detalhes mitológicos.
Já Atlantis, da BBC, traz Jack Donnelly como Jason em uma pegada mais aventuresca. O ator convence ao equilibrar ingenuidade e coragem, enquanto os roteiristas Howard Overman e Johnny Capps inserem humor britânico em meio a minotauros e oráculos. A fotografia quente e a direção de arte, que leva barro e bronze a sério, transportam o público a uma Atlântida vibrante. O contraste entre o protagonismo de Goldblum, puro egocentrismo divino, e o de Donnelly, o herói relutante, evidencia como a mitologia pode ganhar tons diferentes sem perder sua essência.
Animação em destaque: Blood of Zeus e Class of the Titans
Blood of Zeus confirma que animações “para adultos” podem ir além da comédia. A dublagem de Derek Phillips (Heron) e Jessica Henwick (Alexia) injeta emoção suficiente para transformar batalhas sangrentas em conflitos pessoais. A dupla de criadores, Charley e Vlas Parlapanides, aposta em um roteiro enxuto, mas recheado de reviravoltas, enquanto o estúdio Powerhouse Animation capricha nos traços inspirados em vasos helênicos. Não à toa, o debate sobre a validade de animações como entretenimento adulto também ganhou força em listas como Animações para todas as idades.
Class of the Titans, por sua vez, soa quase como irmão gêmeo animado de Percy Jackson & the Olympians. Aqui, sete descendentes de heróis clássicos trocam o acampamento meio-sangue por um colégio moderno. Robert Tinkler (Jay) lidera um elenco de vozes que entrega carisma mesmo em tramas episódicas. O design absurdo de 2005 envelheceu, mas mantém charme retrô. Se o roteiro raramente aprofunda dilemas psicológicos, compensa com ritmo frenético e vilão convincente: Cronos, dublado por David Kaye, exala ameaça em cada sílaba.
Aventuras clássicas revisitadas: Jason & the Argonauts, Olympus e Helen of Troy
A minissérie Jason & the Argonauts (2000) adota uma abordagem fiel ao mito original. Jason London assume o papel-título com mistura de obstinação e vulnerabilidade, conduzida pela direção segura de Nick Willing. O texto de Matthew Faulk e Mark Skeet simplifica a epopeia sem mutilar a essência, permitindo que o espectador acompanhe o herói em busca do Velocino de Ouro sem se perder em genealogias e subtramas.
Olympus, exibida pelo Syfy em 2015, confessa o orçamento modesto logo no primeiro cenário, mas compensa a limitação visual com performance explosiva de Tom York (Hero). O roteiro de Nick Willing abraça o camp, entregando diálogos melodramáticos que lembram novelas de fantasia. A fotografia, às vezes saturada demais, sublinha a sensação de sonho — ou pesadelo — mitológico.

Imagem: Divulgação
Helen of Troy completa o trio com uma narrativa que devolve às divindades o protagonismo ausente em adaptações como Troy. Sienna Guillory interpreta Helen sem caricatura, conduzida pela direção de John Kent Harrison, que equilibra romance e intriga política. Roteiristas Ronni Kern e Ted Kurdyla exploram o ponto de vista feminino, antecipando discussões de representatividade presentes em Percy Jackson & the Olympians, onde Annabeth e Clarisse recusam o papel de mera coadjuvante.
Narrativas antológicas e cult: Great Greek Myths e Xena: Warrior Princess
Great Greek Myths aposta em formato documental animado. O narrador fraciona cada lenda em atos objetivos, enquanto as ilustrações ganham movimento mínimo, quase como pinturas vivas. O resultado é uma experiência hipnótica que serve de guia histórico para quem quer contextualizar as liberdades criativas de Percy Jackson & the Olympians. A série funciona também como porta de entrada para quem ainda confunde Medusa com as górgonas em geral.
Xena: Warrior Princess, eterna campeã de reprises, continua relevante por escancarar o protagonismo feminino na mitologia. Lucy Lawless transita de ações bruscas a olhares cúmplices com facilidade, sustentada por roteiro que mistura ironia e filosofia. A direção de episódios varia, mas a média entrega coreografias de luta pensadas para valorizar a presença física da atriz. É impossível ignorar a influência da produção em personagens como Annabeth, que em Percy Jackson também assume a postura estratégica de uma guerreira experiente.
Vale a pena mergulhar nessas releituras?
Se o objetivo é suprir a carência deixada por Percy Jackson & the Olympians, o pacote acima atende a variados gostos. Os que buscam ironia contemporânea encontram em Kaos sua dose de humor ácido, enquanto fãs de animação musculosa se divertem com Blood of Zeus.
Aqueles em busca de fidelidade ao mito podem recorrer à minissérie Jason & the Argonauts ou ao formato quase acadêmico de Great Greek Myths. Já quem prefere um toque de nostalgia, Xena permanece como referência cult, em diálogo constante com discussões de representatividade presentes nas produções atuais.
Com a terceira temporada de Percy Jackson prevista apenas para 2026 — ano que também promete várias estreias listadas em séries de ação mais aguardadas de 2026 —, vale aproveitar o intervalo para visitar (ou revisitar) essas histórias que mantêm a chama olímpica acesa na cultura pop.









