Voltar à temporada de estreia de Pretty Little Liars é como folhear um diário de 2010: os dramas continuam pegando fogo, mas muita coisa soa diferente aos nossos ouvidos atuais.
Quinze anos depois, a primeira leva de episódios ainda entrega suspense e reviravoltas, porém expõe situações que hoje causam desconforto em boa parte do público. O Salada de Cinema revisitou essa fase e destaca os principais choques.
Pretty Little Liars temporada 1 sob outra lente
A atração entre Aria Montgomery e o professor Ezra Fitz domina o início da série e, à época, foi vendida como romance proibido. Revendo, fica impossível ignorar que ela era menor de idade e ele, responsável pela turma. O relacionamento extrapola quaisquer limites éticos, já que Ezra descobre rapidamente que Aria é sua aluna e, mesmo assim, insiste. O roteiro romantiza a situação ao tratar o caso como “amor verdadeiro”, culminando em casamento anos depois, mas a disparidade de poder e a ilegalidade são evidentes.
Outra realidade dura é a forma como o grupo central — Aria, Spencer, Emily e Hanna — se forma. A amizade não nasce de afinidades e sim de um trauma coletivo: a influência manipuladora de Alison, desaparecida logo no piloto. A união reaparece somente quando o misterioso “A” começa a chantagear as quatro, provando que o elo principal entre elas é o medo, não interesses em comum. Em circunstâncias normais, dificilmente essas personagens se tornariam melhores amigas.
Pais ausentes, personagens subaproveitados e atitudes tóxicas
Praticamente todos os responsáveis de Rosewood deixam a desejar. Enquanto as filhas enfrentam ameaças anônimas, os adultos raramente percebem a gravidade da situação. Emily sofre com o preconceito da mãe, Spencer lida com pais focados em aparência, e Aria precisa superar a traição do próprio pai com uma ex-aluna. As exceções parciais são as mães de Hanna e Aria, que, ainda assim, tomam decisões questionáveis, como furto a banco ou silêncio sobre infidelidade.
Entre as tramas descartáveis, destaca-se Maya. Introduzida como primeiro interesse amoroso de Emily, a personagem ocupa bastante tela somente para morrer poucos capítulos depois, vítima de um stalker sem relação direta com “A”. Sua saída abrupta pouco acrescenta à narrativa, algo que poderia ter sido explorado com figuras posteriores, como Paige, de participação muito mais longa.
Imagem: Divulgação
Spencer Hastings, vista como a mais brilhante do quarteto, também revela problemas sérios ao ser revista. A rivalidade com a irmã Melissa atinge picos desconfortáveis: Spencer envolve-se com o noivo dela e ainda se apropria de um trabalho escolar para se destacar. A frieza se estende ao namoro com Toby, já que a garota desaparece em momentos decisivos e não oferece apoio emocional consistente.
Por fim, Caleb Rivers, lembrado como par romântico querido, dá sinais de alerta em sua estreia. Ele mora escondido na escola, aceita abrigo de Hanna sem consultar a mãe dela e, mesmo após se envolver intimamente, revela ter espionado a garota a mando de Jenna. Ainda que demonstre arrependimento depois, as mentiras minam qualquer confiança inicial.
Reassistir Pretty Little Liars temporada 1, portanto, evidencia como certos enredos envelheceram mal, sobretudo em temas sensíveis como consentimento, amizade saudável e responsabilidade parental. A série segue divertida e cheia de suspense, mas rever sob o filtro de 2024 escancara detalhes que passaram batido em 2010.
Ficha técnica:
• Série: Pretty Little Liars
• Temporada analisada: 1 (2010)
• Número de episódios: 22
• Criação: I. Marlene King
• Transmissão original: ABC Family (EUA)
• Disponível no Brasil em: plataformas de streaming sob demanda
• Revisão dos fatos: maio de 2024



