Sete anos de produção, uma princesa sereia determinada e um pacato funcionário de escritório: essa é a mistura pouco convencional que sustenta ChaO, longa-metragem de animação que a distribuidora GKIDS lança nos cinemas norte-americanos em 10 de abril. O filme, premiado no Festival de Annecy de 2025, chega cercado de curiosidade graças ao currículo de seu diretor Yasuhiro Aoki e ao charme do estúdio responsável, a cultuada Studio 4°C.
O Salada de Cinema acompanhou de perto o material promocional divulgado e destrinchou o que esperar da obra, dos desempenhos de voz ao design inventivo. A seguir, veja como ChaO promete subverter clichês de comédia romântica usando técnica refinada, humor leve e muita personalidade visual.
Amor anfíbio e humor: a ideia central de ChaO
ChaO gira em torno de Stephan, típico “office worker” que tem a rotina virada do avesso ao receber um pedido de casamento da princesa sereia Chao. A premissa, que parece saída de um conto de fadas invertido, aposta no fator “peixe fora d’água” em dois sentidos: a protagonista literalmente não pertence à terra firme, enquanto o protagonista humano jamais navegou em marés apaixonadas tão turbulentas.
O roteiro de Saku Konohana mergulha no contraste cultural entre os mundos terrestre e aquático, extraindo humor de situações cotidianas — como o embate da cauda da princesa com cadeiras de escritório —, mas sem perder o foco emocional. O resultado tende a equilibrar pastelão e ternura, um truque narrativo que lembra o modo como Chloé Zhao emocionou James Cameron com Hamnet, apostando na empatia para além de rótulos de gênero.
A assinatura estética de Yasuhiro Aoki
Conhecido por Batman: Gotham Knight e pela contribuição em The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim, Yasuhiro Aoki carrega uma identidade visual marcada pela fusão de realismo e fantasia estilizada. Em ChaO, os primeiros trailers já revelam movimentos de câmera dinâmicos, paleta de cores aquáticas que transita entre tons pastel e neons, além de transições que simulam respingos e bolhas para conectar cenas.
Essa ousadia estética não é gratuita: ela acentua o choque entre ambientes. Escritórios cinzentos ganham vida com reflexos azul-esverdeados quando Chao surge, enquanto o reino submerso exibe texturas orgânicas, escamas cintilantes e arquitetura inspirada em corais. O visual, portanto, serve ao comentário narrativo, exemplificando a sofisticação autoral que a Studio 4°C alcançou em trabalhos anteriores como Justice League: The Flashpoint Paradox.
Vozes que fazem a diferença
Anna Yamada lidera o elenco vocal como a princesa Chao, entregando uma mistura de inocência e obstinação que evita estereótipos de “donzela”. Seu timbre alterna leveza infantil nos momentos cômicos e firmeza surpreendente nas discussões diplomáticas envolvendo protocolos submarinos.
Imagem: Divulgação
Do outro lado, Ouji Suzuka vive Stephan com uma serenidade quase passiva no início, mas gradualmente revela ternura e senso de aventura. A dupla cria química sonora que facilita a suspensão de descrença: acredita-se na conexão apesar das brânquias dela e da gravata dele. Entre os coadjuvantes, Kavka Shishido rouba cenas como a conselheira Maibei, adicionando ironia seca que faz a história deslizar entre piadas e confissões.
Texto de Saku Konohana e a mão de Eiko Tanaka
O roteiro de Konohana se beneficia da produção capitaneada por Eiko Tanaka, nome forte dentro da Studio 4°C. Tanaka já declarou que o projeto atravessou reformulações para equilibrar o apelo global sem diluir idiossincrasias japonesas. A construção de mundo prefere sugerir do que explicar: tradições oceânicas, hierarquias reais e até leis interespécies aparecem por meio de diálogos ágeis, sem sobrecarregar o espectador com exposição.
Além disso, a trilha sonora mescla instrumentos tradicionais nipônicos e batidas eletrônicas, reforçando a fusão temática entre o familiar e o exótico. O filme dura compactos 90 minutos, ritmo que favorece quem busca tramas concisas — algo similar ao dinamismo que impulsiona o desenvolvimento de Top Gun 3, segundo Jerry Bruckheimer, em recente entrevista repercutida por aqui.
ChaO vale o ingresso?
Com estreia marcada para 10 de abril nos Estados Unidos — e ainda sem data confirmada no Brasil —, ChaO reúne méritos suficientes para chamar atenção dos fãs de anime e de comédias românticas. A combinação de estética ousada, performances vocais carismáticas e roteiro que brinca com diferenças culturais promete uma experiência leve, mas não rasa. Para quem gosta de romances fora da curva, a nova aposta da Studio 4°C parece preparada para nadar em águas tranquilas de bilheteria e, quem sabe, conquistar um espaço cativo no coração do público.




