Em janeiro de 2001, a programação vespertina do Toonami foi sacudida pela chegada de Outlaw Star, um anime que ampliou o cardápio de ficção científica na televisão ocidental. A estreia substituiu Superman: The Animated Series e cravou a série de Mitsuru Hongo na memória de quem corria da escola para ligar a TV.
Com apenas 26 episódios, o título combinou ação de faroeste, humor e caça ao tesouro galáctica, mas ainda hoje permanece ofuscado por Cowboy Bebop. Relembrar Outlaw Star é voltar a um laboratório de ideias que acertou em cheio no elenco de vozes, na direção vigorosa e na música de Kow Otani.
Direção e roteiro de Outlaw Star mantêm a narrativa em alta velocidade
Mitsuru Hongo, conhecido por sua condução enérgica em Crayon Shin-chan, assume em Outlaw Star um projeto mais ambicioso. Ele traduz para a tela a premissa de Katsuhiko Chiba — a busca pelo lendário Galactic Leyline — equilibrando arcos de aventura autônomos com episódios que avançam a mitologia maior.
Chiba recorre a diálogos diretos, alternando tensão e comicidade sem deixar o ritmo cair. As primeiras cenas já apresentam Gene Starwind em território hostil, ao passo que recortes cômicos aliviam o tom nos minutos seguintes. O resultado são episódios que raramente ultrapassam três sequências antes de inserir um gancho para a próxima confusão.
Elenco de vozes dá carisma ao improvável bando de foras da lei
Bob Buchholz interpreta Gene Starwind com o desdém típico de um pistoleiro espacial, mas não esconde o medo do vazio — ponto decisivo para humanizar o protagonista. Brianne Siddall, como Jim Hawking, contrasta a imprudência de Gene com uma cadência juvenil que funciona como consciência moral da nave.
Entre as coadjuvantes, Lenore Zann empresta ferocidade felina à Ctarl-Ctarl Aisha Clan-Clan, enquanto Emily Brown imprime doçura e melancolia à bio-androide Melfina. A diversidade de timbres torna cada interação reconhecível mesmo em cenas lotadas, reforçando a química que sustenta Outlaw Star apesar do roteiro compacto.
Trilha de Kow Otani e design de Shoji Kawamori elevam o western espacial
Kow Otani, compositor de Shadow of the Colossus, ensaia aqui um laboratório sonoro que mistura guitarras, metais e percussão eletrônica. O tema de abertura vibra com progressões rock que anunciam, em menos de um minuto, o caráter aventureiro da série. Ainda que não alcance a fama de Yoko Kanno, a trilha mergulha o espectador na correria do espaço-porto.
Imagem: Divulgação
Do lado visual, o traço de Shoji Kawamori garante personalidade às naves. A própria Outlaw Star carrega braços mecânicos e linhas aerodinâmicas que remetem às Valkyries de Macross, mas adaptadas a um verniz anos 90: cores saturadas, contornos grossos e um painel de armamento improvisado que resume o espírito “arranja-jeito” da tripulação.
A passagem por Toonami e a tesoura que mudou a experiência
Outlaw Star desembarcou no Toonami em 15 de janeiro de 2001, mas boa parte do público ocidental recebeu uma história incompleta. A emissora removeu nudez, suavizou palavrões e editou cenas violentas, criando transições abruptas entre clímax e resolução. O caso mais emblemático é o episódio 23, ambientado em um planeta-estância termal, que só chegou à TV dos Estados Unidos em 2018, na faixa noturna do Adult Swim.
A tesoura afetou não apenas o tom, mas também a construção de personagens. Interações que evidenciavam a complexidade de Melfina e o senso de honra de Suzuka foram reduzidas ou cortadas, deixando parte do arco dramático menos impactante. Mesmo assim, a vibração colorida e o humor físico mantiveram o anime vivo na lembrança de quem descobriu o gênero space western fora do eixo Cowboy Bebop – Trigun.
Vale a pena assistir Outlaw Star hoje?
Para quem busca uma aventura direta, embalando duelo de pistolas a laser, androides emotivos e viagem mais rápida que a luz, Outlaw Star continua sendo parada obrigatória. A dublagem caprichada, a trilha de Kow Otani e a direção ágil de Mitsuru Hongo sustentam um ritmo que, mesmo após 25 anos, atravessa a tela com frescor. Nas páginas do Salada de Cinema, o título recebe atenção especial justamente por mostrar como um produto marcado por cortes ainda conserva charme e identidade próprios.









