Faltando poucos minutos para o fim da cerimônia do Oscar 2026, o Dolby Theatre foi tomado por um misto de surpresa e euforia quando Kumail Nanjiani anunciou não um, mas dois ganhadores na categoria Melhor Curta Live Action. O humorista brincou que o segmento, normalmente rápido, tornou-se “o mais longo da noite” para acomodar dois discursos de agradecimento.
A estatueta dourada ficou dividida entre The Singers e Two People Exchanging Saliva, configurando o primeiro empate da premiação em 13 anos e o sétimo da história. A última vez que algo semelhante ocorreu foi em 2013, quando Zero Dark Thirty e Skyfall dividiram a vitória em Edição de Som.
Empate histórico reacende atenção aos curtas-metragens
O Oscar 2026 devolveu os holofotes à categoria que, em edições anteriores, passava praticamente despercebida para o grande público. A votação da Academia terminou com número idêntico de indicações para ambos os filmes, condição prevista no regulamento atual para declarar empate. Sem margem de três votos — regra que vigorou nos anos 1930 —, a igualdade só acontece quando ocorre correspondência exata de cédulas, situação que, segundo a Academia, é “raríssima”.
Em termos estatísticos, empates costumam aparecer nos anais da premiação em intervalos grandes: 1932, 1950, 1969, 1987, 1995, 2013 e, agora, 2026. Essa longa distância reforça a singularidade do momento. Ao final da gala, muitos presentes traçaram paralelos com outras vitórias históricas da noite, como a conquista de Ryan Coogler no roteiro original de Sinners, para destacar o quanto a edição deste ano reconfigurou recordes e expectativas.
Quem assina The Singers e qual o peso do troféu
Dirigido por Sam A. Davis e Jack Piatt, The Singers arrebatou a plateia ao lado de produções como Butcher’s Stain, A Friend of Dorothy e Jane Austen’s Period Drama. Ainda nos bastidores, Davis e Piatt classificaram a vitória como “incrível” e não esconderam o carinho pelos colegas indicados. Piatt chegou a dizer que desejaria “um empate quíntuplo”, tamanha a admiração pelo trabalho coletivo na categoria.
A dupla celebrou a chance de discursar para o público global — feito normalmente reservado a um único vencedor — e destacou a importância da exibição em sala cheia diante da elite de Hollywood. Segundo eles, a visibilidade poderá pavimentar o caminho para futuros projetos de longa-metragem. Embora detalhes de roteiro ou elenco não tenham sido discutidos durante a coletiva, a repercussão imediata já desperta curiosidade sobre o estilo narrativo do curta, algo que críticos deverão destrinchar nos próximos meses.
Two People Exchanging Saliva: “um sonho” para Singh e Mutita
Se a euforia tomou conta de Davis e Piatt, não foi diferente com Alexandre Singh e Natalie Mutita. Os criadores de Two People Exchanging Saliva definiram a conquista como “um sonho” e confessaram ter especulado, por pura diversão de cinéfilo, a possibilidade de empate. “Somos um pouco nerds do Oscar”, admitiu Singh, ainda emocionado.
Imagem: Divulgação
Mutita também revelou que, dias antes da cerimônia, um usuário do Reddit levantou a hipótese de dois ganhadores na categoria. A dupla respondeu que aceitaria “de bom grado” dividir a glória com um filme “igualmente belo e totalmente diferente”. A previsão inusitada se concretizou, rendendo ao curta publicidade espontânea e ampliando a discussão sobre como obras de apenas alguns minutos podem dialogar com plateias diversas.
Outros empates que marcaram a Academia
Para contextualizar o momento, vale recordar alguns empates emblemáticos. Em 1932, Wallace Beery (The Champ) e Fredric March (Dr. Jekyll and Mr. Hyde) dividiram a estatueta de Melhor Ator. Em 1969, um dos momentos mais célebres envolveu Katharine Hepburn e Barbra Streisand, laureadas por O Leão no Inverno e Funny Girl, respectivamente. Já em 1995, Franz Kafka’s It’s a Wonderful Life empatou com Trevor, também em Curta Live Action. Esses precedentes realçam a raridade do fenômeno e ajudam a explicar por que a edição de 2026 entrou para a história instantaneamente.
A presença de empates costuma alimentar conversas de corredor e análises de bastidores, mas poucas vezes conduz a mudanças efetivas no regulamento. Por ora, a Academia não sinalizou qualquer alteração nas regras de votação, mantendo o critério de igualdade absoluta de votos para futuras ocorrências.
Vale a pena assistir aos curtas vencedores?
Embora ainda circulem majoritariamente em circuitos de festivais, The Singers e Two People Exchanging Saliva ganharam projeção mundial ao subirem juntos ao palco do Dolby Theatre. Para o público que acompanha de perto as novidades de cinema — caso dos leitores do Salada de Cinema — a recomendação é ficar de olho em sessões especiais ou plataformas digitais que, inevitavelmente, irão buscar licenciar os dois títulos após a consagração.
A curiosidade de ver o que motivou a divisão do voto entre os membros da Academia, aliada ao reconhecimento de nomes emergentes como Davis, Piatt, Singh e Mutita, faz desses curtas uma parada obrigatória para quem acompanha a temporada de premiações. Mesmo sem detalhes minuciosos sobre enredo ou atuação disponíveis no momento, a aura de raridade, o discurso emocionado dos realizadores e o peso histórico do empate bastam para justificar a conferida.









