Mercy ainda nem chegou aos cinemas – a estreia está marcada para 23 de janeiro de 2026 – e o suspense de ficção científica já coleciona histórias de bastidor capazes de atrair curiosos. A mais recente envolve a escolha do intérprete (ou melhor, da intérprete) da Juíza Maddox, inteligência artificial que decide o destino do protagonista.
Chris Pratt, que viverá o detetive Chris Raven, admitiu ter sugerido nomes inusitados ao estúdio, incluindo Oprah Winfrey e até um “ator” totalmente gerado por IA. No fim, quem acabou sentada na cadeira do julgamento virtual foi Rebecca Ferguson, decisão que parece ter dado solidez dramática à produção.
Bastidores da escolha da Juíza Maddox
Em conversa com a revista Entertainment Weekly, Pratt lembrou que a equipe discutiu por semanas como retratar a figura autoritária que controla o tribunal futurista. A primeira ideia, segundo ele, foi apostar em um avatar criado por inteligência artificial. “Parecia moderno, mas logo percebemos que seria limitador. Faltaria humanidade na troca de olhares”, disse o ator.
Na segunda rodada de sugestões, Pratt propôs um rosto familiar ao grande público. “Imaginei que, se meu personagem pudesse escolher quem julga sua vida, talvez optasse por alguém icônico como Oprah”, comentou. Embora a proposta tivesse valor cômico, a produção avaliou que o humor quebraria a atmosfera tensa concebida pelo diretor Timur Bekmambetov.
A solução veio quando Rebecca Ferguson entrou na conversa. Conhecida pela intensidade demonstrada em Duna e na franquia Missão: Impossível, a atriz britânica logo convenceu produtores e roteirista Marco van Belle de que poderia transmitir frieza algorítmica sem perder nuances humanas. O acordo foi fechado antes do início das filmagens, concluídas em maio de 2024.
Atuação de Rebecca Ferguson sob análise
Em Mercy, Ferguson aparece apenas em projeções holográficas, mas carrega grande parte da tensão dramática. Ela grava todas as cenas em primeiro plano, olhando diretamente para a lente e, por consequência, para o personagem de Pratt. O desafio foi transmitir julgamento impessoal e, ao mesmo tempo, pequenos sinais de curiosidade, elementos que alimentam a dúvida sobre a verdadeira neutralidade daquela inteligência artificial.
Fontes ligadas à pós-produção relatam que a atriz trabalhou com marcadores luminosos no set, técnica semelhante à utilizada em games de captura de movimento, para que os designers pudessem ajustar brilho e texturas digitais ao redor de seu rosto. O resultado, segundo quem já viu trechos nos laboratórios, cria a ilusão de uma entidade sintética que ainda exibe micropiscadas e expressões sutis de empatia.
Essa entrega interpretativa tem sido apontada como o grande trunfo do longa, cujo roteiro se passa quase inteiramente dentro de um tribunal de alta tecnologia. A aposta em uma performance contida reforça a angústia de Chris Raven, preso a uma cadeira e com o tempo correndo contra sua vida.
Chris Pratt em posição vulnerável: atuação restrita à cadeira
Para Pratt, Mercy representa uma ruptura com os papéis expansivos de Star-Lord ou de heróis de ação que exigem cenas atléticas. Aqui, o ator permanece algemado praticamente do primeiro ao último minuto, só podendo recorrer a voz e microexpressões para convencer a juíza (e o público) de sua inocência.
Imagem: Divulgação
O próprio ator já havia praticado limites semelhantes em projetos dramáticos menores, mas nada tão extremo. Entre uma fala e outra, ele precisa reagir aos vídeos e evidências apresentados na tela à sua frente. Parte dessa dinâmica pode relembrar fãs das interações cômicas dele com colegas de Parks and Recreation, relação que voltou a ser mencionada no site o Salada de Cinema ao analisar as primeiras imagens.
Alguns insiders contam que, nos intervalos de gravação, Pratt pediu que a equipe mantivesse o monitor de Ferguson sempre ligado, mesmo fora de quadro, para facilitar a sensação de presença da juíza. A imersão contribuiu para cenas de maior desespero, refletidas em closes intensos captados pela fotografia de Roman Vasyanov.
Direção de Timur Bekmambetov e roteiro de Marco van Belle
Bekmambetov, veterano em transpor linguagens digitais para o cinema (vide Procurado e o thriller tela-em-tela Amizade Desfeita), volta a experimentar formatos. Em Mercy, ele combina cortes rápidos, sobreposições de tela e gráficos judiciais que lembram transmissões de tribunais on-line. A estética conversa com o debate contemporâneo sobre presença da IA na vida cotidiana.
O roteiro de van Belle, mesmo concentrado em um espaço único, estabelece reviravoltas em tempo real. A cada dez minutos, novas provas chegam ao sistema, esgotando a capacidade de reação de Raven. Essa contagem regressiva de 90 minutos, imposta pela corte distópica, funciona como motor narrativo e justifica a estrutura quase teatral do longa.
Apesar do cuidado cênico, as primeiras críticas especializadas não foram generosas: Mercy ostenta 20% de aprovação no Tomatometer. O público, porém, sinalizou 81% de aprovação preliminar, discrepância semelhante à vista no lançamento de produções como Cloverfield, onde a tensão superou falhas percebidas pela imprensa.
A recepção contrastante poderá influenciar futuros projetos do cineasta. Bekmambetov já disse em entrevistas que pretende tirar do papel Wanted 2, sequência dependente da bilheteria de Mercy, informação repercutida pela imprensa especializada.
Mercy vale a pena assistir?
A decisão de substituir a ideia de um rosto famoso ou totalmente sintético por Rebecca Ferguson deu novo fôlego dramático ao thriller, equilibrando discussões sobre IA com uma relação quase teatral entre réu e magistrada. A combinação da direção dinâmica de Bekmambetov com a atuação contida de Pratt cria um suspense concentrado em expressões faciais, ritmo de edição e pequenos detalhes de cenário. Para quem acompanha debates sobre inteligência artificial no entretenimento ou simplesmente aprecia performances intensas em ambientes claustrofóbicos, Mercy oferece argumento instigante e duas interpretações centrais que prometem manter a tensão até o último segundo do cronômetro.









